Léxico: «pruga»

Imagem: http://www.penpractice.com/

Tinta permanente




      O leitor L. S. está a traduzir um catálogo inglês sobre canetas de tinta permanente (fountain pens) e pretende saber se conheço algum termo em português que designe a fenda onde se introduz a pena metálica (nib) neste tipo de caneta. Por acaso, conheço (e até já me tinha passado pela cabeça, veja lá, que era um conhecimento inútil): pruga.

Tradução: «vocal»

O anglo-saxónico     


      Mário Crespo foi entrevistado para a Única (edição 1881, 15.11.2008, pp. 30-39). À pergunta sobre se costuma ter muito feedback, respondeu: «Tenho muito. Mas negativo. Com o Gualter Baptista, foi negativíssimo. Os grupos mais expressivos em termos políticos congregam comunidades muito vocais. São muito engraçados. Recebi uma chuva de mails por causa do Gualter.»
      Por sorte, o Expresso é muito mais comprado do que lido. A acepção do vocábulo «vocal» usada não existe em português. «Telling people your opinions or protesting about sth loudly and with confidence» (in Oxford Advanced Learner’s Dictionary). Vocal poderá traduzir-se, por exemplo, por «que se fazem ouvir»: «Os grupos mais expressivos em termos políticos congregam comunidades que se fazem ouvir.»

Modos de dizer

Mais uma

«José Castelo Branco surpreendeu mais uma vez tudo e todos ao aparecer, ontem, no Calor da Tarde, dentro do programa de Maya Contacto, na Sic, completamente loiro… e muito animado» («Loiro», Diário de Notícias, 21.11.2008, p. 55). É, tanto me é dado observar, a última moda entre alguns jornalistas: dizerem «dentro» quando uma simples preposição como «em», contraída com o artigo definido «o», desempenhava a mesma função. Já ouvi mais de uma vez na Antena 1, e, agora, vejo que alastrou aos jornais. Vai passar.

A evolução das abreviaturas


Evolução


      Cara Luísa Pinto: pode, de facto, abreviar a palavra «senhor» em snr. (há dicionários, como o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, que ainda a registam), mas não é esta actualmente a forma usual, como sabe. Sim, até certa altura talvez fosse a única a ser usada. No boletim de alojamento de estrangeiro reproduzido acima (publicado na edição de Novembro/Dezembro da Agenda Cultural de Cascais), é essa abreviatura que lemos.

Actualização em 10.06.2009


      Decerto para ajudar a recriar a época em que se passa um conto, «Walkyrie, ¼ club 30 m/m», de Vasco Graça Moura, durante a Segunda Guerra Mundial, o autor usa esta abreviatura: «E ela teve a certeza do seu estado quinze dias mais tarde, exactamente na altura em que o patrão estava prestes a receber a visita do snr. Graf, importador de Hamburgo, que tinha grandes negócios de abastecimento da Wehrmacht com as conservas de peixe portuguesas» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 246). «E não perdoo ao enfático snr. Ramalho Ortigão que dele o tenha dissuadido, em nome de uma ética farfalhuda e dos bons costumes que o autor de As Farpas não desistia de proclamar» (ibidem, p. 226).

A partícula «de»

Menos elisões

«Mitchell J. Feigenbaum, um físico-matemático da Universidade Rockfeller em Nova Iorque, acaba de mostrar (http://arxiv.or/abs/0806.1234) que todas as conclusões de Einstein se podem deduzir de princípios mais simples» («Poderia Deus fazer um Universo diferente?», Nuno Crato, Expresso, 15.11.2008, p. 34). Se o nome é nacional, só temos de lamentar que se não liguem os substantivos com o de. Se se trata, contudo, de tradução, não há motivos para se não usar a partícula. Elisões, sim, mas não tantas.
A propósito desta questão, escreveu João de Araújo Correia: «É lícito elidir-se o de, uma vez por outra, em pé de conversa ou em telegrama. Em estilo sério, também a elisão é legítima se a briga de dois substantivos não for escandalosa. Bairro Herculano, por exemplo, não poderá ofender cérebro razoável. Questão de tacto e questão de gosto… Para casos tais é que se fez a elipse» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 80).

O plural de «Verão»


As quatro estações


      «Nesta cidade alemã, a lenda é representada todos os verões, mas agora, em pleno século XXI, a história de fantasia tornou-se realidade» («Hamelin invadida por ratos: da lenda à vida real», P. V., Diário de Notícias, 19.11.2008, p. 28).
      Perguntam-me de vez em quando se o plural de «Verão» se escreve com minúscula. Vejamos. Verão é um substantivo próprio, não é assim? Ora, os substantivos próprios têm pelo menos três características: escrevem-se com maiúscula inicial, não mudam de género nem de número. Contudo, se temos mesmo de pluralizá-los, como é o caso, não vejo porque teremos de grafá-los com minúscula, pois a pluralização não os transforma de substantivos próprios em substantivos comuns. Assim, o plural de Verão é Verões, como de João é Joões. Com o Acordo Ortográfico de 1990, os nomes dos dias, meses e estações do ano escrever-se-ão com minúscula: segunda-feira; outubro; primavera.
      «E as horas na caça-submarina nas águas da costa alentejana, os Verões como nadador-salvador, os anos como futebolista avançado no Odemirense, Desportivo de Lagos e Ourique Desportos Clube» («O fiscal que um dia percebeu que é maior que o Alentejo», Raquel Moleiro, Expresso, 15.11.2008, p. 17).

Actualização em 18.04.2010


      Um exemplo: «Tinha-se a impressão de que o espírito de Ernest estava algures, já a vaguear pela noite, sete Verões mais à frente, na altura em que deixaria o seu lugar de jardineiro dos Tallis e abandonaria a casa de madeira, sem bagagem, sem sequer um bilhete de despedida em cima da mesa da cozinha, deixando a mulher e o filho de seis anos a pensarem nele para o resto da vida» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 100).



Tradução: «freak»

Foedus, foeda, foedum

      Um leitor, João Simões, pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa freak. Diz ter visto ontem no canal Hollywood uma comédia infantil em que se usava a palavra, que era sempre traduzida por «feioso».
      Com excepção das acepções referidas àquele que se droga e ao fanático de alguma coisa (She’s a conference freak), o núcleo semântico está relacionado com o anormal, a aberração, o estranho. «A thing, person, animal or event that is extremely unusual or unlikely and not like any other of its type», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary.
      Assim, sendo feio o que não obedece aos padrões de beleza convencionais, o disforme, o desproporcionado, não me parece que a tradução esteja incorrecta, embora só o conhecimento do contexto exacto me permitisse formular uma opinião mais definitiva.

Bestas homógrafas

666

No Governo Sombra desta semana, ficámos a saber que João Miguel Tavares ficou comovido com o que se passou com os No Name Boys. Demasiado comovido, aliás, pois disse que «aquele armamento todo que foi apanhado, como bêstas e tudo isso». Que eu saiba, entre o que foi apreendido a alguns elementos daquela claque do Benfica não figuravam alimárias de espécie nenhuma, ou estarei enganado?

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