A evolução das abreviaturas


Evolução


      Cara Luísa Pinto: pode, de facto, abreviar a palavra «senhor» em snr. (há dicionários, como o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, que ainda a registam), mas não é esta actualmente a forma usual, como sabe. Sim, até certa altura talvez fosse a única a ser usada. No boletim de alojamento de estrangeiro reproduzido acima (publicado na edição de Novembro/Dezembro da Agenda Cultural de Cascais), é essa abreviatura que lemos.

Actualização em 10.06.2009


      Decerto para ajudar a recriar a época em que se passa um conto, «Walkyrie, ¼ club 30 m/m», de Vasco Graça Moura, durante a Segunda Guerra Mundial, o autor usa esta abreviatura: «E ela teve a certeza do seu estado quinze dias mais tarde, exactamente na altura em que o patrão estava prestes a receber a visita do snr. Graf, importador de Hamburgo, que tinha grandes negócios de abastecimento da Wehrmacht com as conservas de peixe portuguesas» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 246). «E não perdoo ao enfático snr. Ramalho Ortigão que dele o tenha dissuadido, em nome de uma ética farfalhuda e dos bons costumes que o autor de As Farpas não desistia de proclamar» (ibidem, p. 226).

A partícula «de»

Menos elisões

«Mitchell J. Feigenbaum, um físico-matemático da Universidade Rockfeller em Nova Iorque, acaba de mostrar (http://arxiv.or/abs/0806.1234) que todas as conclusões de Einstein se podem deduzir de princípios mais simples» («Poderia Deus fazer um Universo diferente?», Nuno Crato, Expresso, 15.11.2008, p. 34). Se o nome é nacional, só temos de lamentar que se não liguem os substantivos com o de. Se se trata, contudo, de tradução, não há motivos para se não usar a partícula. Elisões, sim, mas não tantas.
A propósito desta questão, escreveu João de Araújo Correia: «É lícito elidir-se o de, uma vez por outra, em pé de conversa ou em telegrama. Em estilo sério, também a elisão é legítima se a briga de dois substantivos não for escandalosa. Bairro Herculano, por exemplo, não poderá ofender cérebro razoável. Questão de tacto e questão de gosto… Para casos tais é que se fez a elipse» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 80).

O plural de «Verão»


As quatro estações


      «Nesta cidade alemã, a lenda é representada todos os verões, mas agora, em pleno século XXI, a história de fantasia tornou-se realidade» («Hamelin invadida por ratos: da lenda à vida real», P. V., Diário de Notícias, 19.11.2008, p. 28).
      Perguntam-me de vez em quando se o plural de «Verão» se escreve com minúscula. Vejamos. Verão é um substantivo próprio, não é assim? Ora, os substantivos próprios têm pelo menos três características: escrevem-se com maiúscula inicial, não mudam de género nem de número. Contudo, se temos mesmo de pluralizá-los, como é o caso, não vejo porque teremos de grafá-los com minúscula, pois a pluralização não os transforma de substantivos próprios em substantivos comuns. Assim, o plural de Verão é Verões, como de João é Joões. Com o Acordo Ortográfico de 1990, os nomes dos dias, meses e estações do ano escrever-se-ão com minúscula: segunda-feira; outubro; primavera.
      «E as horas na caça-submarina nas águas da costa alentejana, os Verões como nadador-salvador, os anos como futebolista avançado no Odemirense, Desportivo de Lagos e Ourique Desportos Clube» («O fiscal que um dia percebeu que é maior que o Alentejo», Raquel Moleiro, Expresso, 15.11.2008, p. 17).

Actualização em 18.04.2010


      Um exemplo: «Tinha-se a impressão de que o espírito de Ernest estava algures, já a vaguear pela noite, sete Verões mais à frente, na altura em que deixaria o seu lugar de jardineiro dos Tallis e abandonaria a casa de madeira, sem bagagem, sem sequer um bilhete de despedida em cima da mesa da cozinha, deixando a mulher e o filho de seis anos a pensarem nele para o resto da vida» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 100).



Tradução: «freak»

Foedus, foeda, foedum

      Um leitor, João Simões, pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa freak. Diz ter visto ontem no canal Hollywood uma comédia infantil em que se usava a palavra, que era sempre traduzida por «feioso».
      Com excepção das acepções referidas àquele que se droga e ao fanático de alguma coisa (She’s a conference freak), o núcleo semântico está relacionado com o anormal, a aberração, o estranho. «A thing, person, animal or event that is extremely unusual or unlikely and not like any other of its type», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary.
      Assim, sendo feio o que não obedece aos padrões de beleza convencionais, o disforme, o desproporcionado, não me parece que a tradução esteja incorrecta, embora só o conhecimento do contexto exacto me permitisse formular uma opinião mais definitiva.

Bestas homógrafas

666

No Governo Sombra desta semana, ficámos a saber que João Miguel Tavares ficou comovido com o que se passou com os No Name Boys. Demasiado comovido, aliás, pois disse que «aquele armamento todo que foi apanhado, como bêstas e tudo isso». Que eu saiba, entre o que foi apreendido a alguns elementos daquela claque do Benfica não figuravam alimárias de espécie nenhuma, ou estarei enganado?

«Torácico» ou «toráxico»?

Dá que pensar


      Um grupo de alunos contactou-me para saber se se escreve «torácico» ou «toráxico». Todos os dicionários que consultei registam «torácico», que tem como étimo o grego θωρακικός (thorakikós), provavelmente através do francês thoracique. É também esta a forma no espanhol e no catalão. Contudo, há muitos anos que vejo escrito e ouço «toráxico». Impõe-se a pergunta: porque não registam os dicionários, quase todos meramente descritivos, as duas formas? Afinal, ambas se usam e ambas estão correctas: uma vem do grego e a outra formou-se na própria língua. À semelhança do que ocorre com os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico.

Entrevista a uma lexicógrafa

Aquilo que corre


      Na edição de 23 de Outubro do programa Mais Cedo ou Mais Tarde, João Paulo Meneses entrevistou a lexicógrafa Ana Salgado, do Departamento de Dicionários da Porto Editora. Um dos neologismos, explicou, que aguardam entrada numa das próximas edições do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «tanorexia», que provém do inglês e se vai usando, em especial na imprensa. Se a palavra sobreviver até à próxima edição. Como sobreviveu carjacking, que entrou na última edição do dicionário.
      A lexicógrafa referiu que os dicionários da Porto Editora, sendo descritivos, apenas acolhem o que o departamento pondera ser correcto, não no sentido da norma, mas no sentido daquilo que se usa. O que me fez recordar o que escreveu Álvaro Gomes: «Entendemos, seguindo aliás o pensamento de Eugenio Coseriu, que “correcto” (tal como “norma”, para aquele linguista) é “aquilo que corre”, “aquilo que se tem dito”, não necessariamente aquilo que deve dizer-se. Trata-se de uma atitude não prescritiva, mas descritiva. Ora, “aquilo que se tem dito” corresponde, afinal, ao uso e os “usos” (como as modas, que são uma forma específica de uso) mudam» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 72). Para ouvir aqui.

«Corrector» e «corretor» (I)

O tal erro

      Nos próximos guiões de O Tal País, programa de Herman José na Antena 1, convinha que Maria João Cruz e Roberto Pereira, das Produções Fictícias, pusessem entre colchetes a pronúncia de certas palavras, para que o humorista não diga disparates. Hoje, por exemplo, falou dos «correctores da Bolsa». Imperdoável.
      Nunca é inútil voltar a falar das coisas. Corrector vem do latim corrector, –oris, e designa aquele que corrige algo ou alguém. Corretor vem do latim curator, –oris (talvez através do italiano correttore), étimo de que também provém a palavra «curador», e significa o agente comercial que cuida (cura) dos interesses do seu cliente e, mais vulgarmente, o operador na bolsa que executa ordens de compra e de venda de títulos financeiros.

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