«Torácico» ou «toráxico»?

Dá que pensar


      Um grupo de alunos contactou-me para saber se se escreve «torácico» ou «toráxico». Todos os dicionários que consultei registam «torácico», que tem como étimo o grego θωρακικός (thorakikós), provavelmente através do francês thoracique. É também esta a forma no espanhol e no catalão. Contudo, há muitos anos que vejo escrito e ouço «toráxico». Impõe-se a pergunta: porque não registam os dicionários, quase todos meramente descritivos, as duas formas? Afinal, ambas se usam e ambas estão correctas: uma vem do grego e a outra formou-se na própria língua. À semelhança do que ocorre com os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico.

Entrevista a uma lexicógrafa

Aquilo que corre


      Na edição de 23 de Outubro do programa Mais Cedo ou Mais Tarde, João Paulo Meneses entrevistou a lexicógrafa Ana Salgado, do Departamento de Dicionários da Porto Editora. Um dos neologismos, explicou, que aguardam entrada numa das próximas edições do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «tanorexia», que provém do inglês e se vai usando, em especial na imprensa. Se a palavra sobreviver até à próxima edição. Como sobreviveu carjacking, que entrou na última edição do dicionário.
      A lexicógrafa referiu que os dicionários da Porto Editora, sendo descritivos, apenas acolhem o que o departamento pondera ser correcto, não no sentido da norma, mas no sentido daquilo que se usa. O que me fez recordar o que escreveu Álvaro Gomes: «Entendemos, seguindo aliás o pensamento de Eugenio Coseriu, que “correcto” (tal como “norma”, para aquele linguista) é “aquilo que corre”, “aquilo que se tem dito”, não necessariamente aquilo que deve dizer-se. Trata-se de uma atitude não prescritiva, mas descritiva. Ora, “aquilo que se tem dito” corresponde, afinal, ao uso e os “usos” (como as modas, que são uma forma específica de uso) mudam» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 72). Para ouvir aqui.

«Corrector» e «corretor» (I)

O tal erro

      Nos próximos guiões de O Tal País, programa de Herman José na Antena 1, convinha que Maria João Cruz e Roberto Pereira, das Produções Fictícias, pusessem entre colchetes a pronúncia de certas palavras, para que o humorista não diga disparates. Hoje, por exemplo, falou dos «correctores da Bolsa». Imperdoável.
      Nunca é inútil voltar a falar das coisas. Corrector vem do latim corrector, –oris, e designa aquele que corrige algo ou alguém. Corretor vem do latim curator, –oris (talvez através do italiano correttore), étimo de que também provém a palavra «curador», e significa o agente comercial que cuida (cura) dos interesses do seu cliente e, mais vulgarmente, o operador na bolsa que executa ordens de compra e de venda de títulos financeiros.

«Paisagem», «Herculano», etc.

Berrem menos


      «Parte da paisagem em montados portugueses, a cortiça faz parte da lista privilegiada dos materiais ecológicos para uso na construção civil, na indústria de produção de rolhas e em acessórios para a casa mais amigos do ambiente, nomeadamente nos países mediterrânicos, de onde provém», ouviu-se no programa da Antena 1 Um Minuto Pela Terra. E estava tudo correcto, excepto que «paisagem» não se pronuncia como se ouviu, /pàisagem/. Não é a primeira vez que aqui falo disto, como podem ver. Hoje, porém, socorro-me do que escreveu João de Araújo Correia sobre o mesmo: «Pàisagem, Càetano, sàudação e Hèrculano são gatos-pingados. Vão no enterro da pronúncia tradicional portuguesa» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 30). Este Herculano é o historiador de Vale de Lobos, pois a antiga cidade romana de Herculano (Herculaneum) é assim mesmo, com e aberto, que se pronuncia.



Regência do verbo «impor»

Imposições

Lembram-se do caso de Hannah Jones, a menina inglesa que decidiu não receber um transplante de coração? O Diário de Notícias referiu o caso. Claro que usou a palavra «jovem», porque as palavras, bem mais singelas, «rapariga» e «menina» estão proibidas pelo actual código jornalístico. «Mas na terça-feira foi ela própria quem, numa mensagem aos media britânicos, confirmou que tinha conseguido impor a sua vontade sobre a dos especialistas» («Jovem britânica rejeita operação e decide morrer», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2008, p. 31). «Impor sobre»? Nesta frase, o verbo impor é bitransitivo, ou seja, selecciona um complemento directo («vontade») e um complemento indirecto («à [vontade] dos especialistas»). Lá por ser uma situação dramática a jornalista não precisa de obrigar a pobre gramática a suicidar-se.

Sobre «dirigente»

Vê-se pouco

Estava aqui a rever as minhas notas à leitura dos jornais das últimas semanas e encontrei uma coisa interessante. Veja-se este excerto de uma notícia: «Cientistas da Universidade de Rutgers, em Nova Jérsia (Estados Unidos), descobriram mais uma etapa na formação da vida no planeta Terra. […] Segundo Paul Falkowski, dirigente da investigação e citado pelo The Sunday Times, “a probabilidade de tal encontro era ínfima, mas foi importante para a futura vida na Terra» («Encontro casual gera formas superiores de vida», Diário de Notícias, 12.11.2008, p. 36). O que tem de especial? O vocábulo «dirigente», que habitualmente apenas vemos usado para figuras do mundo do futebol (dirigente desportivo), da política (dirigente político), do sindicalismo (dirigente sindical) e do associativismo (dirigente associativo). No entanto, dirigente é a pessoa que dirige ou que exerce funções de chefia ou direcção.

«Após» e verbo

Corrija-se


      A aluna escreveu «após morrer, a Rainha Santa foi canonizada». A professora de Português corrigiu para «depois de morrer, a Rainha Santa foi canonizada». A avó pergunta-me agora se a «professora andou bem». Podia ter andado melhor, digo eu. Também aprendi que antes de verbo não se usa «após», mas acho que a professora devia ter corrigido a frase toda, pois não conheço nenhuma personagem histórica que tivesse sido canonizada em vida. Assim, não posso apor o Nihil Obstat à correcção da professora.


Tradução de «serial killer»

Imagem: http://www.shadetreemechanic.com/

Fora de série


Um leitor, E. C. R., traduziu serial killer por «assassino serial». Alguém reclamou e ele agora quer saber a minha opinião.
Não gosto da expressão «assassino em série». Quando a ouço, penso sempre — juro que isto é verdade — numa linha de montagem, só que em vez de saírem automóveis ou pernas de frango embaladas, saem assassinos. Em série. Obrigado, Henry Ford. Mas, como sei que a revelação dos meus processos mentais não ajuda o leitor, prossigo. «Assassino serial» não me convence, pela relativa estranheza de «serial», homófono de «cereal». Vejo que no Brasil por vezes se traduz por «assassino múltiplo». Contudo, como o multiple murderer abrange o mass murderer, o spree killer e o serial killer, não estaremos a ser precisos, embora nos conviesse como locução. Certo é que o Dicionário Houaiss, e isto ajudará decerto o leitor, regista assassino sequencial, serial ou em série. Não raramente, vejo que os tradutores optam por deixar o anglicismo: serial killer.

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