Ortografia: «Ganeixa»

Coincidências

      Isto é uma conjunção: ontem li a palavra Ganeixa na recensão de Pedro Mexia («Memória de elefante», Ípsilon/Público, p. 45) da última obra de José Saramago. Hoje revi um texto jornalístico, que nada tinha que ver com o livro de Saramago, em que aparecia Ganesha. Corrigi e, passados uns minutos, o autor do texto informa-me de que acabara de ler a palavra Ganeixa na página 258 (publicada pelo Diário de Notícias) de A Viagem do Elefante.

Pronomes referentes a Deus

Desde quando?

Isso se costuma fazer, cara Sara Costa, mas leia o que escreveu o grande João de Araújo Correia: «Ateu ou religioso, escreve Deus com maiúscula. Mas, não sejas hipócrita, escrevendo com maiúscula o ou lhe que se refiram a Deus. Esta palermice é moda nova. Não consta que se tenha usado no tempo em que Portugal foi místico» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 118).
Mas em inglês também há a mesma tradição, que nem sequer os cientistas enjeitam: «According to Newton, the universe is like a gigantic clock, wound up by God at the beginning of time, and ticking ever since according to His laws» (Michio Kaku, Physics of the Impossible. Nova Iorque: Doubleday, 2008, p. 276).

«Dislexia», palavra grave

A prosódia do avesso

Nos Dias do Avesso, na Antena 1, de ontem, Isabel Stilwell e Eduardo Sá falaram de dislexia. Isabel Stilwell começou por dizer que, segundo lera na revista inglesa Brain, há crianças bilingues que podem ser disléxicas numa língua mas não noutra. Um tema interessantíssimo, sem dúvida. O problema é que Isabel Stilwell, disléxica, pronunciou a palavra como se estivesse a falar em inglês: /disléxia/ (dyslexia). O acento tónico incide no i (penúltima sílaba, e por isso é paroxítona ou grave), e não na vogal anterior. Eduardo Sá pronunciou sempre correctamente a palavra. E uma silabada reiterada é grave, perguntam? É, se quem fala tem um microfone à frente e muitos ouvidos do outro lado.

Terminologia científica

Era bom, era


      Nem sempre os dicionários são oráculos. Quase todos os dias os revisores e os tradutores deparam com termos que têm de adaptar à língua portuguesa, pois não estão registados em nenhum dicionário. Por falta de tempo, não podem pedir parecer a nenhuma entidade (e qual?) nem trocar impressões com colegas de profissão (e quereriam estes abrir os cordões da sua sabedoria, tão arduamente granjeada?). Foi neste contexto que me ocorreu que devia existir um sítio na Internet em que tradutores, revisores e leitores fossem registando os termos, em especial os ligados à ciência, que todos os dias, sim, todos os dias, vão entrando na língua por via da tradução. Todos ficaríamos a ganhar.
      Esta semana, por exemplo, que estou a rever uma obra de divulgação científica muito aguardada, vi pela primeira vez, entre outros, os termos nanobot (amálgama de nano+robot), que foi vertido para nanobô; sparticle (de superparticle), que ficou spartícula; decoherence, vertido para descoerência. Exemplos comezinhos, estes, que até já andam por aí. O único que poderia oferecer alguma dúvida era o sparticle. Mas rail guns, como se traduz? O tradutor optou por armas electromagnéticas. E ramjet fusion engines, como será? Estarorreactores de fusão. Eram estes e muitos outros termos que eu gostaria de ver reunidos num único sítio.

O verbo «colocar»


Por atacado

      Já aqui lamentei o uso desatinado que se faz do verbo colocar. Quando trabalhava no jornal, boa parte do meu trabalho era demolir essas construções. Lá, os jornalistas colocavam o dedo no nariz, colocavam o dedo na ferida, colocavam achas na fogueira, colocavam à margem, colocavam à bulha, colocavam a colher, colocavam a mão na massa, colocavam ao léu, colocavam as cartas na mesa, colocavam as mãos no fogo, colocavam ao corrente, e por aí fora. Há dias, o rapazinho do Panda Cozinha fartou-se de «colocar ovos» na quiche que estava a fazer. Pôr e meter já pouco metem o bedelho na moderna escrita jornalística.

À volta de «merologia»

Macacos me mordam…


      … se não é o mesmo que lamentar que não se escreva «philosofia». Ou quase. Conto o caso. No De Rerum Natura, o filósofo Desidério Murcho publicou ontem um texto, «Incompetência linguística, oportunismo e mentira política», em que ataca forte e feio os fautores do Acordo Ortográfico, escrevendo, entre outras sábias coisas, o seguinte: «O mais triste de tudo isto é o tempo que se perde nestas tolices. Precisamos de dicionários e gramáticas de qualidade e praticamente não os temos. Os dicionários de língua portuguesa, brasileiros e portugueses, têm muitos disparates sempre que falam de filosofia, por exemplo. Além disso, não contemplam muita terminologia filosófica crucial, apesar de se apressarem a incluir todas as tolices que um idiota qualquer diz na rua ou escreve num jornal popular. Aparentemente, a produção académica é para os nossos dicionaristas menos importante do que a produção de disparates linguísticos em jornais diários: aceita-se que “agenda” quer dizer “objectivo político”, à inglesa, mas não temos grafados nos dicionários termos como “mereologia” (a excepção honrosa é o insuperável Aurélio), uma área da filosofia que já era estudada no tempo dos gregos antigos.»
      Bem, muitas palavras faltam nos dicionários, e algumas tão úteis como «merologia». Esta, contudo, parece perseguir obsessivamente o filósofo, pois há onze anos procurou demonstrar ao Ciberdúvidas porque estava errado escrever, como os dicionários de língua portuguesa fazem, «merologia». Respondeu-lhe então F. V. Peixoto da Fonseca: «“Mereologia” não existe em português; o vocábulo estaria mal formado, porque o prefixo grego não contém o [sic]. Curiosamente, não encontrei o termo com eo em nenhuma das línguas investigadas, incluindo o inglês. Portanto, merologia é que está certo. Quanto a teleologia, não vem para o caso, porquanto o prefixo não é telos, mas teleos, com outro significado.»
      Quanto a não ter encontrado registado noutras línguas, foi azar ou pouca diligência do consultor. Quanto a «mereologia» estar mal formado, estamos de acordo. Segundo pude saber, foi o lógico e matemático polaco Stanisław Leśniewski (1886–1939) quem, em 1927, cunhou a palavra. E se é composta com o antepositivo grego μέρος (méros, «parte»), não sei, nem sabem classicistas de mérito, de onde vem o espúrio e que ali se intromete. (Sim, excelentíssimos classicistas, poderia ser o genitivo singular neutro, méreos, mas este aparece sempre contracto, mérous.) Donde se conclui que a palavra não falta nos dicionários.
      A ser como o filósofo pretende, vocábulos como meroblasto, merócito, merocracia, meropia, meroplâncton, merotropia e muitos outros «cultismos das biociências», como o Dicionário Houaiss os define e regista, estariam errados, e não estão. O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista «merologia» e «merológico».

Ortografia: «Milu»

In Record, 6.11.2008, p. 35

Como um peru

Na notícia do óbito da actriz (palavra que, a propósito, pronuncio sempre com a fechado), o Diário de Notícias foi das poucas publicações que escreveu «Milu», sem acento*, porque as palavras oxítonas ou agudas terminadas em i e u não têm acento. Sendo um hipocorístico, creio que é de aplicar a regra sem contemplações.
Na notícia do Record temos dois hipocorísticos (Milu e Juju), ambos oxítonos terminados em u, e só um tem acento. O jornalista e o revisor não repararam na incongruência.

* O Prof. Carmo Vaz escreveu que «“acentuação gráfica” é redundância. Toda a acentuação é sempre gráfica» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 136).

O que se ouve na rádio

Levava-as o vento

      No 1001 Escolhas, Madalena Balça entrevistou ontem Ana Mesquita. A directora da LaMag disse, entre outras coisas: «Tenho a sorte de ter um cliente, que é a Lanidor, que me deu livre-arbítrio para criar.» A crença de que os indivíduos têm o poder de escolher as suas acções — isso é o livre-arbítrio. (Agostinho da Silva, no Pensamento à solta: um manuscrito autógrafo, escreveu: «Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado.») A Lanidor a conceder o livre-arbítrio? Que mais faz a todo-poderosa Lanidor? Uma escritora, jornalista e comunicadora, que começou a escrever aos 4 anos, não deveria conhecer e saber usar o conceito?

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