Hierónimos


Diabos excitados

      No episódio de ontem de O Fugitivo, o 102.º da série original, o Dr. Richard Kimble caiu nas mãos de um gangue de motociclistas, os Discípulos do Diabo. Claro que, sendo um nome próprio, se escreve com maiúsculas. Contudo, sempre «Diabo» se escreveria com maiúscula inicial, porque é um hierónimo. Lembra o Prof. Carmo Vaz a propósito do uso das maiúsculas: «Hierónimos, isto é, nomes de deuses e de fiéis das várias religiões vivas e mortas, incluindo entidades míticas malfazejas, como Altíssimo, Cristãos, Alá, Belzebu, Jeová, etc.» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 130).
      Quanto à tradução, da responsabilidade de João Domingos, apresentava os erros mais comuns. Assim, Don (Lou Antonio) garante a Penny (Diana Hyland) que «não vão haver mortes». O Dr. Crosland (Harry Ellerbe), clínico geral, não sexólogo, recomenda a Lou que não excite (to upset) Penny. Seis formas de traduzir no contexto: perturbar, transtornar, indispor, sobressaltar, contrariar, afligir.

Raças de cães

Pequena, por favor


      Lê-se na edição online de hoje do Expresso: «A criança deu entrada no Hospital ontem à noite, com ferimentos múltiplos, após ter sido violentamente mordida por um Rotweiller, do namorado da mãe, que também foi mordida quando tentou ajudar o filho.» É claro que já todos lemos algo semelhante — o nome de raças de cães com maiúscula inicial — em jornais, revistas e livros. É incorrecto, como se pode ver no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco da Luz Rebelo Gonçalves (catedrático de Latim, Grego e Filologia Portuguesa nas faculdades de Letras das universidades de Coimbra e de Lisboa, 1907-82), e o bom senso deveria ditar. Com o Acordo Ortográfico de 1990, como já aqui referi, nos nomes compostos usa-se o hífen: barbado-da-terceira, cão-d’água, castro-laboreiro, serra-d’aires, serra-da-estrela, lobo-d’alsácia, etc.


«Aumentar em»?

Falam os leitores

      A leitora Alda Rocha lamenta que José Alberto Carvalho e Ricardo Araújo Pereira, cujo trabalho diz admirar, também dêem o erro, agora cada vez mais comum, de regência que consiste em acrescentar um espúrio «em» aos verbos aumentar, crescer e agravar-se. Dá, entre outros, um exemplo da edição de 30 de Outubro do jornal Público, no editorial assinado por Manuel Carvalho: «[…] por ver a sua factura salarial agravar-se em 2400 euros mensais […].» Ora, acrescenta, o próprio Livro de Estilo do Público alerta para esse erro na pág. 71, dizendo ser certo «Os preços aumentaram 50 por cento» e não «Os preços aumentaram em 50 por cento».
      Rodrigo de Sá Nogueira, na obra Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (Lisboa: Clássica Editora, 4.ª ed., 1995, p. 65), escreve: «Outra construção condenável é: “aumentar em 50%”. — Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, p. 374 (2.ª ed.), diz: “b) Várias preposições: Preposição de. Erros: aumentar de um metro, e mais velho de um decénio, por aumentar um metro, e mais velho um decénio, ou um decénio mais velho; peço-lhe de vir por peço-lhe que venha…”» Ainda acrescenta: «O Professor Vasco Botelho de Amaral também condena o “aumentar de”, mas acrescenta: “Correcto: aumentar em”. (Novo Dicionário). Não sei em que se funda o A. para fazer tal afirmação.»

Ortografia: «braço-direito»


E o resto do corpo?



      «Braço direito de Calderón morre em acidente de avião», titula o gratuito Global. Pelo menos os mais recentes dicionários já registam, e bem, o substantivo «braço-direito», com o significado de principal colaborador de alguém. Diferente, pois, de qualquer braço direito, como diferente é o pé-direito de um qualquer pé direito. Com hífen, pois verifica-se que «forma um sentido único ou aderência de sentidos», como exige o Acordo Ortográfico de 1945. Curiosamente, em inglês diz-se right-hand. «Someone’s right-hand man is their most trusted and important helper and supporter, especially at work», regista o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary.


Objecto directo preposicionado

Oh, diacho!

Leio que as críticas agitam a Maçonaria e vem-me à memória que ontem à noite passou no canal História, que raramente vejo, o programa Decifrando a História: os Franco-Mações da América. (A voz off, porém, dizia sempre «franco-maçons».) A determinada altura, a mesma voz off afirmou que os franco-maçons sempre foram acusados de «adorarem ao Diabo». Tanto quanto sei, o objecto directo preposicionado é, no que se refere a nomes, empregado somente com a palavra Deus, não com a palavra Diabo.

Uso da maiúscula

Língua azul, de raiva


      Eduarda Freitas, repórter da Antena 1, estava hoje de manhã na feira semanal de Chaves, onde também se encontrava o veterinário municipal, que acabara de comunicar que a feira estava suspensa devido a um surto de doença da língua azul na região. «O senhor sabe o que é que se trata a doença?...», perguntou, atropelando a gramática, a repórter a um feirante.
      A propósito: não sei porque é que alguma imprensa grafa com maiúsculas iniciais, «doença da Língua Azul», o nome da doença. Talvez, essa é que é essa, eles também não saibam. Os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc.

Consoantes mortas, de novo

Luxo ortográfico

Ainda a propósito do agá de «húmido», diz Francisco Álvaro Gomes na obra que tenho vindo a citar: «É estranho o receio de que o desaparecimento do “h” pudesse descaracterizar a língua. No início de palavra, o “h” constitui o que se poderia chamar um luxo ortográfico; um luxo, pois ele constitui uma herança etimológica (em virtude do símbolo (‘), designado, em grego, como “espírito rude”) e que, em português, não tem valor fonológico (diferentemente do inglês, por ex.)» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 54).

Particípio presente

Que está a pensar

Ora aqui está um verdadeiro particípio presente (matéria de que já aqui falei), como em latim: «Durante a última década, foram introduzidos novos instrumentos quânticos que, pela primeira vez na História, nos permitem observar o cérebro pensante.» É uma tradução, e no original está «thinking brain».

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