Revisão I

Frasicida

Gostava de ter uma rubrica sobre as frases que poderiam existir se eu não estivesse lá para as matar à nascença. Mas não posso, claro. A antológica de ontem seria esta: «O que não foi capaz foi acertar tão cedo na baliza como fez Hélder Postiga.» «O que não foi foi»? Não foi, não vingou.

Ponto abreviativo. Uniformização

Sim e não

Lembram-se? «Talvez por isso, o mayor de St Paul, Chris Coleman, diga que Mineápolis é um Chablis — um vinho branco da região francesa da Borgonha — e St Paul é uma cerveja» («Que nome dar a esta convenção?», Susana Salvador, Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 33). Ontem, uma coisinha mudou: «O furacão Gustav fez-se sentir a mais de dois mil quilómetros de distância, na capital do Estado do Minnesota, St. Paul, onde os delegados do partido republicano deviam consagrar John McCain como candidato à presidência dos Estados Unidos» («Festa republicana ficou estragada», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 2.09.2008, p. 5). Talvez possa ser ambas as coisas: com e sem ponto abreviativo, mas a obrigação dos revisores é uniformizar o texto. Já abordei a questão do ponto abreviativo no texto «Os Clappertons».

Ortografia: «guarda-florestal»

Guardem-se

      E a propósito de hífenes, lia-se ontem no Diário de Notícias: «A reunião entre a estrutura sindical que representa os guardas florestais e o Governo foi “muito inconclusiva”, afirmou ontem Paulo Trindade, à saída da reunião com o secretário de Estado da Administração Interna» («Reunião “muito inconclusiva”», Diário de Notícias, 2.09.2008, p. 12). O Público, por seu lado, titulava recentemente: «Guardas-florestais protestam». É bem certo que vivemos numa época de fúria hifenizadora. Contudo, desta vez é o Público que tem razão: os guardas das matas nacionais são designados por guardas-florestais. É uma palavra composta, e assim surge nos dicionários.

Jargão médico I

Embirrações



      Embirro (mas, à cautela, nunca o confesso aos próprios) com o jargão médico. Até já aqui dei exemplos, embora só tenha recebido objecções de estudantes de Medicina. Ou seja, os aprendizes de feiticeiro é que assumem a defesa da honra. Embirro muito mais quando os jargões extravasam da classe. Lê-se no Record de hoje: «O médio Guerra fez uma rotura muscular na coxa esquerda e realiza hoje uma ecografia para avaliar a extensão da lesão, que o deverá afastar dos relvados por um período entre duas a três semanas. Por seu turno, o avançado Pires fez uma luxação num dedo da mão esquerda e terá de colocar gesso» («Quatro baixas para Garcia», Record, p. 35).
      Aposto que se o senhor Alfredo, ali o das hortas junto à Estrada da Circunvalação, tiver um problema semelhante, seja luxação seja rotura, não dirá nada disso (nem dirá que vai «realizar uma ecografia», de resto). Os jornalistas deviam seguir o exemplo do senhor Alfredo. Quando li o texto, lembrei-me logo de outro que Fernando Venâncio publicou já este ano no Aspirina B, intitulado «Jeito para tudo»: «— Não pude ir. Fiz uma nevralgia. — Ah… E ficou bem feita?»


Formações com prefixos: anti-

Vejam lá isso

      O Diário de Notícias, que nem sequer é o pior jornal neste aspecto, titulava (mas os títulos têm vindo ultimamente a ser escritos da forma mais desleixada que é possível) ontem: «Quercus ‘condena’ caravanistas anti-ambiente» (Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 24). Pergunto: não será a maioria destes erros proveniente da Lusa? E a Lusa não tem revisores?
      Anti- leva hífen antes de h, i, r, s: anti-herói, anti-infeccioso; anti-racista, anti-semita.

«Profeta» com minúscula

Maiores e menores

      Um nigeriano, Mohammed Bello Abubakar, professor e pregador, divorciou-se anteontem de 82 mulheres (ainda fica com quatro). Tem mais de 170 filhos. «A família de Abubakar não trabalha e ninguém sabe como se sustenta», lê-se na notícia publicada ontem no Diário de Notícias. Posso dar uma ajudinha: várias organizações «humanitárias» de países islâmicos (normalmente a Arábia Saudita, com os seus petrodólares) aproveitam-se da pobreza para converter: a quem usar o hijab, o véu islâmico, é dado dinheiro. Já se viu isso na Somália, na Bósnia, etc. Mas não era sobre isso que queria escrever, mas sobre isto: «Abubakar diz que fala pessoalmente com o profeta Maomé» («Nigeriano divorcia-se de 82 das 86 mulheres», Diário de Notícias, 1.09.2008, p. 31). Nada de novo por aqui, só para reforçar: Maomé é profeta como profetas são os da tradição cristã, e estes nunca mereceram maiúscula inicial. Está, pois, muito bem: profeta Maomé. Só se for por antonomásia, argumentam? Porquê? De qualquer modo, não ficaria junto do nome Maomé.

Recursos

Mui•to bem



      O que um simples dicionário de menos de 5 euros fazia, e muito bem, é feito agora também pela MorDebe, uma base de dados com palavras do português: informar sobre a partição das palavras na escrita. Utilíssimo.




Recursos

Leiam

Já aqui deixei hoje a indicação de uma obra — O Salústio Nogueira, de Teixeira de Queirós — alojada no Arcos Digital, o portal de Arcos de Valdevez, que vale a pena explorar. Agora deixo a indicação da obra, que os leitores podem descarregar, A Língua Portuguesa no Alto Minho, da autoria de Victor Domingos.

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