Transliteração de nomes

Ouvindo o provedor

Karadzic ou Karadžič? «Não existe em Portugal», lembra o provedor do jornal Público em resposta à carta de um leitor, João Sousa André, «nenhuma convenção que os jornais sigam a este respeito. Mas o provedor recomenda que, nas transliterações, o jornal consagre para cada nome a forma foneticamente mais aproximada em português, e não siga a mera grafia usada na imprensa anglo-saxónica, que é o que mais se pratica (tal como antes se seguia a francófona)» («Ouvindo os leitores», Joaquim Vieira, Público, 17.08.2008, p. 16). Agora só falta que ouçam o provedor.

Dixit e dixerunt


Latim de cozinha

Metade está errada. Qual? Uma qualquer. Não, não estou a tresler. Uma qualquer. A demonstração? Ei-la: Treinador dixit. Treinadores dixerunt. Fica sempre bem usar latim no meio daquilo que escrevemos, excepto quando está errado. Traduzindo a metade latina, temos: «Treinadores disse.» Isto está correcto? É claro que não. Fica o recado. Aqui e lá.
No latim há, como em português, três pessoas: a primeira, que fala: ego; nos; a segunda, com quem se fala: tu; vos; a terceira, de quem se fala: ille; illi.
Dico, dicis, dixi, dictum, dicere
. Há, em relação à conjugação verbal latina, uma especificidade no ensino: costuma-se enunciar os verbos pelas formas dos chamados tempos primitivos: a primeira pessoa do singular do presente do indicativo (dico); a segunda pessoa do singular do presente do indicativo (dicis); a primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo (dixi); o supino (dictum) e o infinitivo (dicere). O pretérito perfeito do indicativo conjuga-se assim: dixi, dixisti, dixit, diximus, dixistis, dixerunt. De nada. Aprendam sempre. Voltem sempre, digo.

Arrear ≠ arriar

Arriar no público leitor



      «A Bandeira Azul voltou ontem a ser arreada na praia dos Olhos d’Água, no litoral de Albufeira, por existir indícios de que a água do mar não reúne as condições para exibir o símbolo europeu de qualidade» («Praia dos Olhos d’Água volta a arrear Bandeira Azul devido aos resultados das análises à qualidade da água», Idálio Revez, Público, 16.08.2008, p. 24).
      Bem pode o Livro de Estilo do Público registar: «rédea — Como arrear (dif. de “arriar”) e arreata.» Os jornalistas e os revisores não o lêem. As bandeiras, os cabos, as linhas, as redes e as velas arriam-se, isto é, fazem-se descer, abaixam-se, soltam-se. As montadas é que são arreadas, isto é, aparelhadas, lhe são postos arreios. Se querem uma mnemónica, ei-la: é com i, arriar, quando tem o significado de fazer descer, abaixar. Dois ii: arriar, abaixar.
      Em catalão é que tanto se pode arriar uma bandeira como uma cavalgadura: «Estimular (una bèstia) a continuar o accelerar la marxa, amb la veu, les xurriaques, etc.» Curiosamente, temos a palavra «arrieiro», o condutor de bestas de aluguer, de arre+-eiro.

Actualização em 18.08.2008


      Também o Diário de Notícias traz o mesmo erro: «A Praia Olhos d’Água, Albufeira, ficou este fim-de-semana prolongado sem bandeira azul, situação que ocorre pela segunda vez este Verão, depois de já ter sido arreada no início deste mês por descargas de esgotos» («Olhos d’Água de novo sem bandeira azul», Diário de Notícias, 17.08.2008, p. 16). A fonte, é claro, é a mesma: Lusa. O problema também é o mesmo: aceitação acrítica do que se recebe.


Léxico: «sagging»


Linda figura

      Se José Rentes de Carvalho, escritor e bloguista seriíssimo e vernáculo, pode escrever, no Tempo Contado, sobre o camel toe, sinto-me autorizado a abordar aqui o sagging. Foi o Diário de Notícias que veio lembrar o fenómeno e a designação: «É um mistério como conseguem andar com as calças pelo meio da coxa, mas os adeptos desta moda (sagging, em inglês) são cada vez mais e insistem em mostrar ao mundo roupa interior de todas as cores e tamanhos. A moda terá surgido nas prisões norte-americanas, onde os cintos são proibidos devido ao eventual uso em enforcamentos» («Calças baixas», Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 9).

Espanhol do Uruguai


Coisas do Uruguai


      Aposto que alguém, por esse mundo fora, me irá mentalmente agradecer por indicar aqui este léxico com 1000 palavras do espanhol do Uruguai.

Pontuação

Vírgulas a mais

     Estou cada vez mais convicto de que existem usos arbitrários deste sinal de pontuação, ainda que não o aparentem. Tome-se este excerto da obra Algumas Distracções, de Francisco José Viegas, já aqui citada: «Aliás, uma das coisas que mais me preocupa hoje, em Portugal, é a tendência para que a opinião individual desapareça diante das chamadas “opiniões maioritárias” — é cada vez mais rara a figura do colunista, do cronista ou do cidadão comum que arrisca a sua opinião sem cuidar das consequências e do desprestígio que uma “má opinião” lhe pode trazer. Alguns, perdem o emprego. Outros, perdem a consideração das maiorias» (p. 7). Por mais voltas que se dê, a pontuação das últimas duas frases está errada. E está errada porque não se separa o sujeito do verbo por vírgula, a não ser que haja entre ambos um termo intercalado, que não é o caso destas frases. Por exemplo: Alguns, menos precavidos, perdem o emprego. Outros, desprestigiados por algum motivo, perdem a consideração das maiorias.
      O erro, neste caso concreto, decorre da malfadada crença de que onde há uma pausa há uma vírgula. Nada mais errado. Até pode acontecer que onde haja vírgula não haja pausa.

Milhões e biliões

Menos é mais… certo

«Parece mentira, mas é verdade: a Índia, gigante demográfico com 1 bilião de habitantes, só ontem obteve a sua primeira medalha de ouro individual em Jogos Olímpicos — o melhor que conseguira, desde 1896, fora a vitória, em oito ocasiões, no hóquei em campo» («Novo herói da Índia vai receber 370 mil dólares», Rodrigo Cordoeiro, Público, 13.08.2008, p. 23). Veja lá, caro Rodrigo Cordoeiro, se faz a coisa por menos. Por menos zeros. Parece mentira, mas é verdade: a confusão persiste, apesar do que regista o próprio Livro de Estilo do Público: «bilião — Um milhão de milhões, em português.»

Tradução

Será plausível?

Mentiria se dissesse que não gostei de ler a crónica de ontem de José Vítor Malheiros no Público. Eis um excerto: «Pode-se pensar que os carros deixaram de obedecer à passadeira em virtude daquilo que os americanos chamam plausible deniability. (“Passadeira? Qual passadeira? Eu vi umas marcas muito sumidas, mas pensava que fossem de uma passadeira antiga que já nem existisse.”) Pode-se pensar que alguns dos automobilistas não vejam mesmo as marcas (é por isso que a deniability é plausible)» («Da pintura das passadeiras», José Vítor Malheiros, Público, 12.08.2008, p. 33).
O que me pergunto é se o autor não podia ter traduzido as palavras e expressões inglesas que usa, e nomeadamente a que se lê acima, plausible deniability, para cabal compreensão do leitor. A não ser — ponho ser esta hipótese — que o objectivo não seja ser-se compreendido. Pois traduz-se por negação plausível ou negação capciosa. A negação plausível refere-se à recusa de responsabilidade nas cadeias de comando informais, em que os escalões mais elevados de poder atribuem a responsabilidade aos escalões mais baixos de comando. É uma estratégia muito usada na política, na guerra e nas acções de espionagem, para dar cobertura a actos ilegais ou impopulares. Não sei é se se aplica com propriedade ao caso dos automobilistas. Vou pensar.

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