Traduzir do inglês

Pateticamente


      «“O uso da tortura está a aumentar de forma dramática”, disse, citado pelo diário britânico Guardian, o investigador da Human Rights Watch, Fred Abrahams» («Fatah e Hamas torturam os respectivos prisioneiros», L. R., Diário de Notícias, 30.07.2008, p. 28). É qualquer coisa de fatal: em inglês aparece um dramatically ou um dramatic e o tradutor português não tem dúvidas: «dramaticamente» e «dramático» espelham bem o que o original pretende significar. «“The use of torture is dramatically up,” said Fred Abrahams, a senior researcher for the group» («Middle East: Palestinians 'routinely torture' rival detainees», Jonathan Steele, The Guardian, 29.07.2008). Talvez fosse bom saberem que dramatic também se traduz por acentuado, decisivo, drástico, profundo, radical…

Influência anglo-saxónica

Dignidade

Ana Margarida de Carvalho perguntou a João Ubaldo Ribeiro, distinguido com o Prémio Camões 2008, na entrevista que lhe fez para a Visão (edição de 31.07.2008, p. 18) como anda a língua portuguesa, ao que o escritor respondeu: «Não estamos no bom caminho. Vocês em Portugal se comportam com mais dignidade. E se recusam a se curvar, da mesma forma subserviente que nós, à influência americana.»

Uso das maiúsculas

Frases urgentes e destravadas

Isabel Coutinho entrevistou Valter Hugo Mãe para a Ípsilon. A determinada altura, a jornalista diz ao escritor que de certeza que aprendeu a escrever na escola primária com «letra grande», mas que «mais tarde, as minúsculas desaparecem dos seus textos». Resposta: «A dada altura percebi que as maiúsculas ligam o texto, aceleram-no, precipitam o leitor. As vírgulas ficam menos virguladas e os pontos menos pontuados. Então as pausas tendem a ser mais breves. Há uma aceleração que se junta a uma certa urgência da história. O leitor fica sem travões.» Isabel Coutinho pergunta (e era a minha curiosidade): «Tem tido reacções de leitores? Dificulta-lhes a leitura?» «Ao que sei», responde o entrevistado, «no início, a primeira reacção é um choque. As pessoas ficam aflitas, não sabem onde parar, não percebem onde a frase acabou. Mas o leitor menos preguiçoso habitua-se ao fim de quatro páginas e consegue deslizar. Consegue seguir naquela leitura com menos travões com alguma destreza. Fica contente quando percebe que este tipo de pontuação o leva mais rápido ao fim da história» («O escritor que não usa maiúsculas para o leitor ficar sem travões», Público/Ípsilon, 1.08.2008, p. 8).

Índices remissivos

Ponto por ponto

      Depois de ter visto, recentemente, a apologia das notas de rodapé, agora foi a vez de o índice remissivo ser exaltado. «É verdade que existem índices remissivos nos livros, mas muitos não os têm — Portugal é um caso dramático nesse aspecto —, e os índices são por definição incompletos. Seria absurdo um livro impresso com um índice remissivo de todas as palavras nele empregues. E, mesmo nos elementos em que ele faz sentido, é com frequência imperfeito, como o é qualquer tarefa humana, em particular as que envolvam maçada. Escrever pode ser ou não divertido, mas fazer índices de termos quase de certeza que não o é» («Vem aí o papel electrónico», Luís M. Faria, Expresso/Actual, 26.07.2008, p. 21). Um livro impresso com um índice remissivo de todas as palavras nele empregadas faz lembrar o mapa à escala 1:1 do conto de Jorge Luis Borges. «Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él.»

Raça


Campanhas criativas

O Ministério do Trabalho, da Saúde e das Políticas Sociais italiano lançou uma campanha contra o abandono dos animais cuja face mais visível é o cartaz que está em cima, publicado em toda a imprensa italiana. «Tu di que razza sei? Umana o disumana?» (Tu de que raça és? Humana ou desumana?) Não está genial? Também Marlon Brando, a uma pergunta de um questionário dos serviços de incorporação militar sobre a que raça pertencia, respondeu «humana». Quanto à cor, escreveu: «Sazonal — de branco-ostra a bege» (Seasonal—oyster white to beige) (Brando mas Pouco, Darwin Porter, tradução de Maria Eduarda Colares e revisão minha, acabado de publicar pela Pedra da Lua Edições, p. 373. Foi esta biografia que Vasco Câmara, na Ípsilon (Verão Ípsilon, p. XI) de ontem, considerou que «talvez seja excessivamente “quente” para o Verão», o que é um absurdo. É como afirmar que qualquer coisa é demasiado boa).

«Sítio» em vez de «site»

Tê-los no sítio

Um leitor anónimo (e o anonimato preserva de muito ridículo) pergunta-me se não me deixo rir quando uso ou leio a palavra «sítio» em vez de «site». Bem, como deixou o comentário num post sobre futebol, pergunto-lhe se não ri ao ler «futebol» em vez de «football». Suspeito que não. Há mais portugueses inteligentes e não anónimos a preferirem «sítio» a «site», já reparou? «Os estudantes de Jornalismo da Universidade do Porto, que têm um belo sítio na Internet, fizeram chegar até mim uma mensagem com perguntas sobre a independência do Kosovo, à qual respondi o melhor que pude» («Estamos à espera de quê?», Rui Tavares, Público, 25.2.2008, p. 44).

Pontuação e títulos


Começa bem

Uma obra pode ser excepcional, mas convém que o título não contenha nenhum erro de pontuação ou ortográfico, entre outros. Na última obra de Mário Cláudio, publicada pela Dom Quixote, a editora não recorreu a nenhum artifício gráfico para omitir a vírgula obrigatória antes do vocativo: Boa Noite, Senhor Soares. Podia dar meia dúzia de exemplos de títulos recentes errados. Por 9 euros e com a oferta da peça de teatro inédita Medeia.

Retratação ≠ retractação

Lindo retrato

O Global de hoje noticia que Jardim Gonçalves exige que Joe Berardo tire um retrato público. Ah, não é isso?... «O ex-presidente do Millennium bcp, Jardim Gonçalves, interpôs uma acção judicial contra Joe Berardo e exige uma retratação pública das acusações ou uma indemnização de 500 mil euros. O pedido de retratação pública é inédito em Portugal, mas visa acabar com as acusações que Berardo tem feito a Jardim Gonçalves» («Jardim Gonçalves processa Joe Berardo», Global, 1.08.2008, p. 6). No sentido de mostra pública de arrependimento, é retractação que se escreve. Ainda bem que vão de férias.

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