Índices remissivos

Ponto por ponto

      Depois de ter visto, recentemente, a apologia das notas de rodapé, agora foi a vez de o índice remissivo ser exaltado. «É verdade que existem índices remissivos nos livros, mas muitos não os têm — Portugal é um caso dramático nesse aspecto —, e os índices são por definição incompletos. Seria absurdo um livro impresso com um índice remissivo de todas as palavras nele empregues. E, mesmo nos elementos em que ele faz sentido, é com frequência imperfeito, como o é qualquer tarefa humana, em particular as que envolvam maçada. Escrever pode ser ou não divertido, mas fazer índices de termos quase de certeza que não o é» («Vem aí o papel electrónico», Luís M. Faria, Expresso/Actual, 26.07.2008, p. 21). Um livro impresso com um índice remissivo de todas as palavras nele empregadas faz lembrar o mapa à escala 1:1 do conto de Jorge Luis Borges. «Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él.»

Raça


Campanhas criativas

O Ministério do Trabalho, da Saúde e das Políticas Sociais italiano lançou uma campanha contra o abandono dos animais cuja face mais visível é o cartaz que está em cima, publicado em toda a imprensa italiana. «Tu di que razza sei? Umana o disumana?» (Tu de que raça és? Humana ou desumana?) Não está genial? Também Marlon Brando, a uma pergunta de um questionário dos serviços de incorporação militar sobre a que raça pertencia, respondeu «humana». Quanto à cor, escreveu: «Sazonal — de branco-ostra a bege» (Seasonal—oyster white to beige) (Brando mas Pouco, Darwin Porter, tradução de Maria Eduarda Colares e revisão minha, acabado de publicar pela Pedra da Lua Edições, p. 373. Foi esta biografia que Vasco Câmara, na Ípsilon (Verão Ípsilon, p. XI) de ontem, considerou que «talvez seja excessivamente “quente” para o Verão», o que é um absurdo. É como afirmar que qualquer coisa é demasiado boa).

«Sítio» em vez de «site»

Tê-los no sítio

Um leitor anónimo (e o anonimato preserva de muito ridículo) pergunta-me se não me deixo rir quando uso ou leio a palavra «sítio» em vez de «site». Bem, como deixou o comentário num post sobre futebol, pergunto-lhe se não ri ao ler «futebol» em vez de «football». Suspeito que não. Há mais portugueses inteligentes e não anónimos a preferirem «sítio» a «site», já reparou? «Os estudantes de Jornalismo da Universidade do Porto, que têm um belo sítio na Internet, fizeram chegar até mim uma mensagem com perguntas sobre a independência do Kosovo, à qual respondi o melhor que pude» («Estamos à espera de quê?», Rui Tavares, Público, 25.2.2008, p. 44).

Pontuação e títulos


Começa bem

Uma obra pode ser excepcional, mas convém que o título não contenha nenhum erro de pontuação ou ortográfico, entre outros. Na última obra de Mário Cláudio, publicada pela Dom Quixote, a editora não recorreu a nenhum artifício gráfico para omitir a vírgula obrigatória antes do vocativo: Boa Noite, Senhor Soares. Podia dar meia dúzia de exemplos de títulos recentes errados. Por 9 euros e com a oferta da peça de teatro inédita Medeia.

Retratação ≠ retractação

Lindo retrato

O Global de hoje noticia que Jardim Gonçalves exige que Joe Berardo tire um retrato público. Ah, não é isso?... «O ex-presidente do Millennium bcp, Jardim Gonçalves, interpôs uma acção judicial contra Joe Berardo e exige uma retratação pública das acusações ou uma indemnização de 500 mil euros. O pedido de retratação pública é inédito em Portugal, mas visa acabar com as acusações que Berardo tem feito a Jardim Gonçalves» («Jardim Gonçalves processa Joe Berardo», Global, 1.08.2008, p. 6). No sentido de mostra pública de arrependimento, é retractação que se escreve. Ainda bem que vão de férias.

Revisão nos jornais


Sem inveja

      Admiro os revisores do Le Monde, que têm tempo e à-vontade para criticar opções linguísticas do jornal para que trabalham. Bom exemplo, bem longe das hipocrisias a que estamos habituados. São oportunidades para todos aprenderem algo. Os títulos, que são sempre vistos por várias pessoas (dois revisores, director, editores e paginadores), são escrutinados miudamente — mas o erro e a gralha não deixam de acontecer. Nesta primeira página do Record, vemos «Felippe» (o médio benfiquista brasileiro) em vez de «Fellipe», como gralha. Como erro, «3.ª feira» em vez de «3.ª-feira».

Ortografia: «luso-descendente»

Luso-afonias

      Já aqui referi uma vez a questão, mas volto a abordá-la, pois a prática jornalística não mudou. «Um lusodescendente [Juan Marques] radicado na Venezuela está a liderar a investigação sobre a doença de Chagas, um importante problema de saúde na Venezuela, embora inexistente em Portugal» («Português lidera na doença de Chagas», Diário de Notícias, 21.07.2008, p. 12). Para grande surpresa, lemos no pós-título: «Luso-venezuelano conseguiu descobrir contágio por via oral». Que regra é essa que manda usar hífen em compostos de luso se o segundo elemento começa pela letra v e sem hífen se o segundo elemento começa por d? Não será mais uma invencionice dos revisores, do calibre do nome García sem acento agudo?

Linguagem desportiva


Imagino

O jornalismo desportivo tem, pelo menos, o condão de me fazer rir. Observador privilegiado que sou, vejo que agora há uma predilecção alargada pelo termo «perfume». Estejam atentos. «Perfume sul-americano travado por sangue português do Bochum», Gonçalo Lopes, Diário de Notícias, 21.07.2008, p. 40). Perfume é sempre algo bom, uma emanação, agradável ao olfacto, que exalam os corpos aromáticos. Como desconfiamos que isso não acontecerá nem em campo nem no balneário, concluímos que se faz uso de um dos sentidos figurados do vocábulo, neste caso o de «lembrança agradável».

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