Cerrado ≠ serrado

De raspão

«A segunda shotgun (caçadeira de canos cerrados) foi descoberta pouco depois das 20:00 num local ermo, perto da zona onde tinha sido encontrada uma primeira arma, na estrada entre Vila Nova da Barquinha e Golegã» («Cinco suspeitos em preventiva», Global/Diário de Notícias, 31.07.2008, p. 6). No Diário de Notícias, o artigo, assinado pela jornalista Ana Mafalda Inácio, tem algumas diferenças. Sobretudo, os canos da caçadeira são serrados.
De resto, as armas empolgam os jornalistas. No Público falava-se na segunda-feira numa «arma tipo shot-gun» («Rui Pereira elogia actuação da PSP na detenção de cinco suspeitos em Abrantes», Público, 28.07.2008).

Ortografia: «García»


Excepcional

«García custa nove milhões ao Benfica», titulava o Diário de Notícias na primeira página da edição de ontem. E depois?, perguntará o leitor apressado e que só aqui vem para me fazer um favor. E depois, o jornal desportivo Record grafa sempre o nome deste jogador sem acento: «Garcia». Ora, a gramática espanhola estabelece que os hiatos formados por uma vogal débil (i ou u) e uma vogal forte (a, o ou u), ou vice-versa, têm acento gráfico, que recai no i ou no u: tía, día, frío, maíz, secretaría, María, García… Ah, esta é uma excepção, ouvi… Não era impossível, convenhamos. Contudo, toda a imprensa espanhola, sem excepção, escreve «García».

Pronúncia: «Naide»

Numa só emissão de voz

Já suspeitava, mas agora tenho a certeza: alguns dos nossos jornalistas não sabem pronunciar o nome Naide. Bem pode Naide (de facto, Ezenaide) Gomes saltar mais alto, os jornalistas não a acompanham. No noticiário das 9 da manhã na Antena 1, ouvi mais uma vez um jornalista pronunciar o nome fazendo hiato no ditongo oral decrescente ai: /Na.i.de/. Ná, está mal. É /Nai.de/, como /nai.pe/. Em regra, a sequência gráfica do tipo «ai» representa um ditongo decrescente, como em «caixa», «pai», «saia», «saibro», por exemplo. Porque não ouvem como a própria pronuncia o nome?

Parques e jardins

Imagem: http://www.lxjovem.pt/


Pergunte ali à frente



      O leitor sabe onde fica o Jardim do Florista? Até há cinco minutos, eu também não sabia, e morei alguns anos na Estefânia. «Na freguesia de São Jorge de Arroios, o Jardim Constantino, também conhecido por Jardim do Florista, em homenagem a Constantino Marques de Sampaio e Mello, conhecido por rei dos floristas de Portugal no final do século XIX, parece gritar por manutenção» («Jardins lisboetas estão ao abandono», Marta Costa Santos com Patrícia Tadeia, Metro, 30.07.2008, p. 5). No fim-de-semana, perguntei a várias pessoas em São Domingos de Benfica onde ficava o Parque Bensaúde, alvo de alguma publicidade nos últimos tempos. Nem uma me soube dizer. Pior: nem uma sabia que existia um parque na freguesia com tal nome.


Ortografia: «radioemissor»

Pobres lobos

«Ana Guerra adiantou que, ainda este ano, se pretende colocar colares com rádio-emissores para seguimento por telemetria de alguns lobos» («Biólogos investigam sobrevivência do lobo», Paula Lima, Diário de Notícias, 27.07.2008, p. 18). A sério? E isso não faz mal aos lobos — o erro ortográfico, digo? Todos os dicionários registam radioactividade, radioactivo, radioamador, radioamadorismo, radioastronomia, radioecologia, radioecológico, radioelectricidade, radioelemento, radioemissão, radioemissor, radioemitir, radioestesia, radioestésico, radioestesista, radioisótopo, radiouvinte…

«Kemalista»

Se me explicarem

«Os kemalistas controlam as forças armadas e o poder judicial, tendo grande peso entre as elites urbanas» («Entre Islão político e ordem secular», Luís Naves, Diário de Notícias, 28.07.2008, p. 6). Já aqui abordei a sem-razão de se grafarem em itálico vocábulos derivados de outros, estrangeiros estes. Exemplifiquei com «jihadista» e «stressado». Eis que neste texto de ontem do Diário de Notícias se lê «kemalista». Claro que sei, e agora melhor que nunca, que muitas vezes não são os jornalistas, os autores, os tradutores que fazem isto, mas os revisores pouco escrupulosos e pouco dados a reflectir.

Pontuação

Bem fornecido

Segundo o jornal Global, a Universidade do Algarve vai lançar este ano lectivo a primeira licenciatura em Arqueologia do Sul do país. Acrescenta o jornal: «O objectivo é fornecer, aos futuros arqueólogos, formação específica sobre a verificação e protecção de recursos arqueológicos no âmbito da realização de obras, uma saída profissional em expansão, já que se perspectivam grandes obras públicas, como o Aeroporto de Lisboa e o TGV» («Algarve ensina arqueologia», Global, 28.07.2008, p. 4). Pois é, mas, apesar de deslocado, o complemento indirecto («futuros arqueólogos») não precisa de estar isolado por vírgulas, pois não há má interpretação do termo deslocado, dado que quem fornece, fornece algo a alguém ou fornece a alguém alguma coisa. «O objectivo é fornecer formação específica aos futuros arqueólogos.» «O objectivo é fornecer aos futuros arqueólogos formação específica.»

Actualização em 29.07.2008

Ontem, o mesmo texto (que é da Lusa) foi publicado no Diário de Notícias com ligeiras alterações, entre as quais a ausência das vírgulas: «O objectivo é fornecer aos futuros arqueólogos formação específica sobre a verificação e protecção de recursos arqueológicos no âmbito da realização de obras, uma saída profissional em expansão, já que se perspectivam grandes obras públicas» («Algarve lança curso de Arqueologia», Diário de Notícias, 29.07.2008, p. 12).

Topónimo

Só a tiro

«Num dos locais onde decorreu a operação, uma casa em Abrançalha-de-Baixo, que esteve cercada por elementos de forças policiais, esteve de prevenção uma ambulância dos Bombeiros de Abrantes» («Polícia ferido em operação de caça a grupo de seis fugitivos», Global/Diário de Notícias, 28.07.2008, p. 7). Os topónimos compostos, ligados ou não por preposição ou contracção de preposição com artigo, ou os constituídos por várias combinações de palavras não levam hífen: A dos Francos, Freixo de Espada à Cinta, Vila Nova de Foz Côa… Logo, Abrançalha de Baixo. Abrançalha de Cima. É um erro repetido em quase todos os jornais.

Arquivo do blogue