«Palestino» e «islamita»

Defensores da língua

      Tome-se como exemplo este parágrafo de um artigo publicado no The New York Times: «It may sound like the indulgence of a well-fed man fleeing the misery around him. But when Jawdat N. Khoudary opens the first museum of archaeology in Gaza this summer it will be a form of Palestinian patriotism, showing how this increasingly poor and isolated coastal strip ruled by the Islamists of Hamas was once a thriving multicultural crossroad» («Museum Offers Gray Gaza a View of Its Dazzling Past», Ethan Bronner, The New York Times, 25.07.2008). O Jornal do Brasil publicou o mesmo artigo, traduzido: «Deve soar como indulgência de um homem bem alimentado fugindo da miséria ao redor. Mas quando Jawdat N. Khoudary abrir o primeiro museu de arqueologia em Gaza este ano será uma forma de patriotismo palestino, mostrando como essa faixa costeira isolada e cada vez mais pobre dominada por islamitas do Hamas já foi um próspero caldeirão multicultural» («Palestinos legitimam seu passado», Ethan Bronner, Jornal do Brasil, 27.07.2008, p. A28). Vejam como o jornal brasileiro usou os vocábulos «palestino» e «islamitas» para traduzir «Palestinian» e «Islamists».

«Com certeza»

Desconcerto

      Na edição de anteontem do Diário de Notícias criticava-se um vestido comprido cheio de brilho usado por Madonna. Concluía o texto: «Mas é concerteza caro» («O excesso de Madonna», Diário de Notícias, 24.07.2008, p. 63). Pois é, mas tal palavra não existe. Está lá por «com certeza», que é uma locução adverbial. Se é simples, porque não fazem bem, jornalistas e revisores?

Ermitage ou Hermitage?

Eremitério sem agá


      O museu russo tem o nome Ermitage ou Hermitage? Para o Diário de Notícias, é Ermitage. Para o Público, Hermitage. «O Museu Eermitage [sic] de São Petersburgo recebeu cerca de 361 mil euros, incluindo os royalties, mas o transporte e o seguro das centenas de obras de arte ficaram ainda mais caros: cerca de 440 mil euros» («Exposição do Ermitage na Ajuda deu lucro de 108 mil euros», Leonor Figueiredo, Diário de Notícias, 24.07.2008, p. 48). «Afinal, o Museu Hermitage de São Petersburgo não está interessado em ter um pólo permanente de exposição em Lisboa, disse anteontem ao PÚBLICO o director da emblemática instituição russa, Mikhail Piotrovski» («Hermitage já não quer ter um pólo permanente em Portugal», Vanessa Rato, Público, 19.07.2008, ver aqui).
      De facto, o nome Эрмитаж é transcrito pelos anglo-saxónicos por Hermitage e pelos francófonos e italianófonos, por exemplo, por Ermitage. Os principais jornais espanhóis, porém, escrevem Hermitage. Os nossos eremitérios não têm agá.

Quem edita


Página editada por

Todos os jornais têm as suas especificidades. No Record, por exemplo, na parte superior direita de cada página, imediatamente por baixo do filete sob o nome da secção do jornal (neste caso, Internacional), podemos ver quem editou a respectiva página. O facto de esta informação ser composta num corpo minúsculo (corpo 5, creio) mostra que terá sobretudo relevância interna. (Podia, de facto, não passar para o leitor, ficando numa área não impressa, para conhecimento apenas das diversas áreas da redacção.) Não conheço informação semelhante noutros jornais.

Plural dos topónimos

Everestes

Lia-se no Record de ontem: «A massa total do sistema de anéis de Saturno — que são constituídos por uma mistura de gelo, poeiras e material rochoso — equivale a cerca de 30 milhões de Montes Evereste... juntos!» («Saturno é o planeta com o maior sistema de anéis», Record, 25.07.2008, p. 43). É correcto dizer «Montes Evereste»? Como substantivos próprios que são, os topónimos, como os antropónimos, têm plural. Contudo, neste caso concreto, a anteceder o topónimo está o nome de um acidente geográfico, «montes», pelo que apenas este pluraliza: montes. Com inicial minúscula, claro. Não se diz e escreve frequentemente Eldorados? Como explica Evanildo Bechara, trata-se na realidade de nomes da «classe», «e, portanto, substantivos comuns» (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 37.ª edição, 2002, p. 114).

Acordo Ortográfico

Indolor

Rui Tavares, uma das vozes mais sensatas na comunicação social a falar sobre o Acordo Ortográfico, já aqui o disse, em artigo publicado na edição de anteontem do Público escrevia sobre as consoantes mudas e a propósito de se ver com alguma frequência «contracto» (no sentido de acordo), «traducção», «conductor» e outras palavras com um c a mais: «A partir de agora passa a haver uma regra simples. No momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele “c”? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo (ou, em alternativa: se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo). Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. E ela é, por si só, a grande mudança que o cidadão comum vai ter de fazer. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás.» Conclui Rui Tavares: «Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência» («Nem se vai dar por isso», Público, 23.07.2008, p. 36).

«Relações públicas» e detenção

Abaixo o hífen!

Caro Luís Ferreira: não, «relações públicas», o termo para designar o «profissional que tem como função alargar a projecção de determinada empresa, sociedade ou grupo junto do público, transmitindo destes uma boa imagem» (na definição do Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora), não tem hífen. O uso inadequado do hífen, o seu uso excessivo, é uma das maldições da escrita jornalística dos nossos dias. Agora que sou revisor de uma publicação periódica como é um jornal (de revistas já o sou há anos, mas nestas escreve-se infinitamente melhor), estou bem colocado para o afirmar. «Bernardo Macambira, ex-marido de Rute Marques e um dos mais conhecidos relações públicas da noite portuense, está desde terça-feira da passada semana detido* na prisão de Custóias, onde cumpre uma pena de quatro meses devido à apreensão de um CD pirata, a 10 de Dezembro do ano 2000, na hoje extinta discoteca Voice, da qual era então o principal responsável» («Bernardo Macambira preso por ter CD pirata na sua discoteca», Marcos Cruz, Diário de Notícias, 23.07.2008, p. 15).


* De caminho, aproveito para lamentar que os jornalistas continuem a escrever este disparate. Alguém pode estar (em Portugal, não no Zimbabué, por exemplo) mais de oito dias detido? O máximo, e é uma garantia constitucional, são 48 horas, prazo só ultrapassável se já se tiver iniciado o interrogatório judicial. Mas não são realizados de vez em quando seminários de Direito para jornalistas? Ninguém aparece?
Por outro lado, quem é o responsável pela incoerência de no corpo do artigo se usar o vocábulo «detido» e no título «preso»? Um revisor atento não corrige ou pelo menos não chama a atenção do jornalista ou do editor?

Os títulos dos jornais


Uma imagem de si


É interessante ver a imagem que cada jornal tem si de mesmo. Já tinham pensado nisto? Alguns, como A Bola, O Jogo, o Metro e o Público, vêem-se maiusculizados: A BOLA, O JOGO, METRO, PÚBLICO. Outros, como o Diário de Notícias, vêem-se abreviados: DN. Outros, como o Jornal de Negócios, vêem-se como coisa quase comum: Jornal de Negócios. Um, o Record, quer destacar-se do resto: Record. Outros, como o Meia Hora, vêem-se como nós os vemos, sem psicoses nem megalomanias: Meia Hora. O 24 Horas, finalmente, vê-se quase como o vemos, com uma ligeira distorção: 24horas.
Nunca, até hoje, vi o que o autor de Regret the Error viu: um jornal escrever incorrectamente o próprio nome. Mas ainda sou novo.

«Isto apesar de Moutinho estar, segundo A BOLA apurou, receptivo a escutar as condições que os toffees têm para lhe oferecer» («Leão irredutível segura Moutinho», Rui Baioneta, A Bola, 22.07.2008, p. 6).

«Este é um destino histórico de Portugal”, disse ao METRO, de forma lacónica, o criminalista, considerando que, não havendo provas para acusar os arguidos, “deveria ter-se retirado o estatuto e continuado a investigação”» («Arquivamento suscita críticas», André Rito, Metro, 23.07.2008, p. 5).

«Ao que O JOGO apurou, as qualidades do guarda-redes foram apreciadas em Goodison Park, mas não a ponto de os responsáveis avançarem, no imediato, para a contratação do internacional sérvio, até porque o valor da cedência, um milhão de euros, não aconselha decisões precipitadas (mesmo para um clube inglês)» («Everton ainda pondera “Stoi”», António Bernardino, O Jogo, 22.07.2008, p. 7).

«A Ordem dos Médicos (OM) lembrou há dias que os médicos internos nos hospitais têm que ser acompanhados por colegas especialistas, não lhes podendo ser atribuídas responsabilidades de decisão clínica, depois de ter encontrado situações que considerou ilegais numa visita-surpresa realizada em Março ao Centro Hospitalar de Coimbra, conforme noticiou o PÚBLICO no sábado» («Internos nas urgências não preocupam ministra», Público, 22.4.2008, p. 9).

«Esta é a convicção manifestada em entrevista à NS’, a publicar no sábado, com o DN e o JN, dois dias depois do lançamento do seu [de Gonçalo Amaral] livro Maddie, A Verdade da Mentira» («Arquivamento é “o fim de uma grande injustiça”», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 22.07.2008, p. 4).

«Sónia Casaca, em entrevista ao Jornal de Negócios, conta que “a Magirus já tem todas as condições para avançar. Vamos iniciar desde já a formação certificada de dois fabricantes e aos poucos acrescentar novos cursos”» («Alemã Magirus cria centro de formação em Portugal», Ana Torres Pereira, Jornal de Negócios, 14.07.2008, p. 14).

«Mas apesar de Alípio Ribeiro estar agora afastado do caso e do lugar que ocupava, especialistas ouvidos pelo Meia Hora defendem que o antigo director deve continuar a proferir as suas opiniões» («Director da PJ responde ao antecessor sem reservas», Maria Nobre, Meia Hora, 23.07.2008, p. 5).

«De acordo com a escritura de partilha assinada a 18 de Junho, e a que o 24horas teve acesso, Carla ficou com a vivenda com piscina na zona de Cascais, avaliada em 1,2 milhões de euros» («Ex de João Pinto está mais rica que ele», Sónia Simões, 24 Horas, 22.07.2008, p. 4).

«Era o mais esperado e dessa opção Record dera conta na projecção do primeiro jogo oficial da época, na Turquia» («“Espero que possamos fazer uma grande dupla”», Marco Aurélio, Record, 22.07.2008, p. 16).

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