Léxico: «apronto»

Primeira página da edição de hoje

E a prestações


      No Record, habituei-me depressa aos termos que referem as posições de jogo e ao facto de os compostos terem todos hífen: ala-direito, defesa-central, defesa-direito, guarda-redes, lateral-esquerdo, médio-ala, médio-defensivo, médio-ofensivo, ponta-de-lança… Mas uma palavra frequentíssima nos textos do diário desportivo nunca a tinha lido: apronto. «Entretanto, os nigerianos Chidi e Samson não tomaram parte no apronto de ontem» («Espionagem ao Benfica», L. L., 19.07.2008). O Dicionário Houaiss regista o termo: «apronto s. m. DESP treino, exercício final para testar, antes de uma competição, as condições técnicas de um atleta ou de uma equipa».

Léxico: «desteinado»

Quase destreinado

Um desses fanáticos da vida saudável que querem deixar um cadáver lindo quando morrerem estava na semana passada no restaurante do Celeiro na Baixa. As empregadas são quase todas — да, да — russófonas e simpáticas como é difícil acreditar. O fanático perguntou então a uma empregada se determinado chá era bom. Ela respondeu que sim, claro, tendo acrescentado que era descafeinado. O fanático quase explodiu. Que não, isso era o café. O chá tinha «outra coisa qualquer». Contra o meu feitio, tive de me intrometer, para informar o fanático de que essa «outra coisa», o princípio activo do chá, se chamava teína, e ao chá sem essa «outra coisa», desteinado. O fanático acalmou e agradeceu: «Obrigado. Eu devia saber.»

Cores

Verde-hospital

Longe vá o agoiro


Estava aqui a traduzir uma frase do inglês e, por referir uma cor, lembrei-me de como sempre tive um enorme fascínio pelas cores em si e pelos nomes que as designam. «Chris olhou para as paredes verde-hospital do edifício da Laminated Papers.» Hospital-green, no original. Creio que foi na década de 1950 que os primeiros hospitais começaram a ser pintados desta cor, porque se pensou então que tranquiliza mais o doente do que o tradicional branco brilhante. Ah, as cores, os matizes, os tons. Amorado, anil, calibado, cárdeo, cróceo, garço, glauco, gris, groselha, gualdo, havana, miniano, múrice, níveo, ostrino, pagiço, rom, rosura, rútilo, zabelo, zinzolino…

Monaco e Mónaco

No futebol

Foi notícia recente a ida do médio-ofensivo Freddy Adu para outro clube, por empréstimo. Segundo alguns jornais, foi para o Monaco; segundo outros, para o Mónaco. Para os jornais, como o Record, que optam por escrever Monaco, a justificação encontra-se no facto de o nome do clube ser esse: AS [Association Sportive] Monaco Football Club, S. A. Que fica, sim, no Principado do Mónaco.
«Freddy Adu vai representar o Monaco, na próxima temporada, por empréstimo do Benfica» («Adu cedido ao Monaco por uma época», Record, 22.07.2008, p. 6).
«Freddy Adu, médio-ofensivo do Benfica, vai ser emprestado ao Mónaco durante uma época, ficando o clube gaulês com direito de opção em relação ao passe do jogador» («Benfica. Adu vai jogar no Mónaco», Diário de Notícias, 22.07.2008, p. 64).
«Fora das opções irá estar Freddy Adu, já que o norte-americano, que também está ao serviço da selecção, foi emprestado ao Mónaco» («Internacionais à disposição de Quique e Bento», Metro, 22.07.2008, p. 7).

Ground Zero, outra vez

Os títulos


      No Diário de Notícias, anda alguém a ler-me (além de Ferreira Fernandes): «A reconstrução do antigo espaço do World Trade Centre, o Ground Zero, está num impasse depois do gigante financeiro americano, Merrill Lynch, ter recuado na intenção de ocupar uma das novas quatro torres de escritórios» («Crise trava reconstrução do World Trade Center», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 22.07.2008, p. 31). É que há pouco, antes de eu falar no assunto, grafava Ground Zero em itálico: «De “comum humanidade” se tratará no último dia daquela que é a nona deslocação (ver fotolegenda) de um Papa a solo americano. Simbolicamente, Bento XVI deslocar-se-à [sic] ao Ground Zero, local das Torres Gémeas, um dos alvos dos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001» («Papa enfrenta pedofilia e ordem mundial “errada”», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 14.4.2008, p. 9).
      Na notícia de ontem, a ninguém minimamente atento escapará que no corpo do artigo se escreve World Trade Centre e no título World Trade Center. Deverão ser os revisores a corrigir estas incoerências. Não há desculpa para não o fazerem. No Record somos, desmentindo a ideia de que os jornais não têm revisores, quatro revisores, com três a trabalhar numa mesma edição. E, suprema liberdade, somos nós que introduzimos no programa de paginação (Milenium Editor, v. 5.5, da Protec, utilizado na maioria das redacções de jornais em Portugal) as emendas que fizemos em folhas A3. Imagino que no Diário de Notícias não será muito diferente.

«Codex Sinaiticus»

Da Rússia

É uma boa notícia do Diário de Notícias: «A Biblioteca Nacional da Rússia, em Sampetersburgo, revelou ontem que os primeiros pergaminhos do Codex Sinaiticus, uma bíblia manuscrita do século IV, vão estar disponíveis para consulta na Internet a partir de quinta-feira em www.nrl.ru» («Bíblia do século IV vai estar ‘online’», T. P., Diário de Notícias, 22.07.2008, p. 49).

Erros de tradução

Under the Volcano

No canal Hollywood, estava agora mesmo a passar o filme Olha Quem Fala Agora! (Look Who’s Talking Now, no original). A personagem Mollie Ubriacco (desempenhada pela actriz Kirstie Alley) arranja um trabalho como mall elf (sazonalíssimo, a recibos verdes, imagino). Na bicha para falar com o Pai Natal, estão dois miúdos que perguntam a Mollie se é mãe do Pai Natal. Responde ela, e as orelhas pontiagudas estão sempre em evidência: «No, I’m a Vulcan.» Tradução de Isabel Monteiro (da Dialectus): «Não, sou um vulcão.» Nem é preciso ser cinéfilo, como eu não sou, para traduzir como devia ser. Para um cinéfilo, é canja: a fala, e a própria caracterização, é uma referência à personagem da tenente Saavik* desempenhada por Kirstie Alley no filme Star Trek: A Ira de Khan.


*
E espero que ela não se abespinhe por não lhe chamar tenenta e me tache de ignorante. O topete, uma vulcana (está bem: meio vulcana, meio romulana) a ensinar-me português.

«Tifosi»

Erros da moda

E então descobriram que andavam há anos a escrever tiffosi, com dois ff. Erradamente. Um enviado especial trouxe a descoberta de Itália: é só com um f, tifosi. Pior ainda, na mesma noite souberam que o singular é tifoso. Conselho: passem a ler a imprensa italiana: «Lampard dice sì all’ Inter. I tifosi bloccano Stankovic alla Juve» (La Reppublica, 20.07.2008, p. 51). Deve ser confusão com a marca Tiffosi, da empresa têxtil Cofemel, de Lousado, Vila Nova de Famalicão. Digo eu.


«Tifoso: 2 agg., s. m. AD [di alta disponibilità] che, chi fa il tifo per una squadra sportiva o un campione» (in De Mauro).

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