Erros de tradução

Under the Volcano

No canal Hollywood, estava agora mesmo a passar o filme Olha Quem Fala Agora! (Look Who’s Talking Now, no original). A personagem Mollie Ubriacco (desempenhada pela actriz Kirstie Alley) arranja um trabalho como mall elf (sazonalíssimo, a recibos verdes, imagino). Na bicha para falar com o Pai Natal, estão dois miúdos que perguntam a Mollie se é mãe do Pai Natal. Responde ela, e as orelhas pontiagudas estão sempre em evidência: «No, I’m a Vulcan.» Tradução de Isabel Monteiro (da Dialectus): «Não, sou um vulcão.» Nem é preciso ser cinéfilo, como eu não sou, para traduzir como devia ser. Para um cinéfilo, é canja: a fala, e a própria caracterização, é uma referência à personagem da tenente Saavik* desempenhada por Kirstie Alley no filme Star Trek: A Ira de Khan.


*
E espero que ela não se abespinhe por não lhe chamar tenenta e me tache de ignorante. O topete, uma vulcana (está bem: meio vulcana, meio romulana) a ensinar-me português.

«Tifosi»

Erros da moda

E então descobriram que andavam há anos a escrever tiffosi, com dois ff. Erradamente. Um enviado especial trouxe a descoberta de Itália: é só com um f, tifosi. Pior ainda, na mesma noite souberam que o singular é tifoso. Conselho: passem a ler a imprensa italiana: «Lampard dice sì all’ Inter. I tifosi bloccano Stankovic alla Juve» (La Reppublica, 20.07.2008, p. 51). Deve ser confusão com a marca Tiffosi, da empresa têxtil Cofemel, de Lousado, Vila Nova de Famalicão. Digo eu.


«Tifoso: 2 agg., s. m. AD [di alta disponibilità] che, chi fa il tifo per una squadra sportiva o un campione» (in De Mauro).

Plural dos nomes próprios

Os Tudors

Sobre o episódio da série Os Tudors (The Tudors II, no original), a programação da RTP indicava: «Enquanto pede a anulação do casamento com Katherine de Aragão, Henry nomeia-se a ele próprio chefe da Igreja Anglicana. Anne Boleyn insiste para que ele corte relações com a rainha e Katherine é banida da corte. Começa a Reforma.» Umas linhas mais abaixo, diz-se que é Henrique VIII, mas Katherine não passa para Catarina nem Anne Boleyn se nacionaliza para Ana Bolena. Mas quem é que escreve isto? Só se salva terem mantido o plural do nome próprio Tudors. A ignorância tem desígnios insondáveis.

Acordo Ortográfico

Sem dramas

Segundo notícia do Público, o Presidente da República, Cavaco Silva, já promulgou o Acordo Ortográfico, ratificado no Parlamento a 16 de Maio deste ano. Agora só resta estudar as normas estabelecidas, evitando os erros das obras já publicadas sobre a matéria, e aplicá-las. Os revisores deverão ser os primeiros a saber o que muda.

O género de «modelo»

Do género

      Dizia o original: «Ma come in Occidente si sfidano le taglie imposte alle modelle (lo ha fatto la ministra Giovanna Melandri), così nei paesi musulmani molte donne sfidano i diktat sul velo scatenando furiose reazioni.» E o tradutor verteu assim: «Mas tal como no Ocidente se questionam as medidas que nos são impostas pelas modelos (fê-lo, por exemplo, a ministra Giovanna Melandri), nos países muçulmanos muitas mulheres desafiam o diktat do véu, desencadeando reacções furiosas.» Pois é, modelle é o plural do feminino modella (o masculino é modello/modelli), donna che indossa e presenta capi e accessori di abbigliamento durante le sfilate di moda. Em português, nem todos os dicionários reconhecem os dois géneros ao vocábulo. Para o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, tem apenas o género masculino, como sempre se defendeu e usou. Para o Dicionário Houaiss, tem os dois géneros. A evolução das línguas, já aqui o afirmei uma vez, deve muito à ignorância dos falantes.
      A propósito de géneros, ainda ontem Herman José, no Chamar a Música, na Sic, dizia: «Sua Santidade, coitadita […].» Ora, com pronomes de tratamento dá-se sempre a silepse de género: Vossa Senhoria é estúpido. Vossa Excelência é mau. Vossa Majestade é um bom avaliador. Vossa Alteza é muito bondoso. Sua Santidade, coitadito.

«Anticarjacking»

Em que língua?

«Carros da PSP e GNR com tecnologia anti-carjacking», titulava o Público na edição de ontem (p. 9). Uma palavra metade portuguesa, metade inglesa? Há exemplos disso, sim senhor, mas causam-me sempre engulhos. No caso, porém, está errada, pois existe a palavra inglesa anticarjacking. Se eu fosse contar os «anticarjacking devices» que já li, enchia páginas. Por outro lado, em português, se ao prefixo anti- se segue uma palavra começada por c, não se usa hífen.

«Islamita»

Tu quoque


      O jornal 24 Horas também prefere a forma «islamita»: «A divulgação de mais uma rusga policial foi a última notícia de uma série de revelações que a China tem vindo a fazer acerca de uma suposta ameaça terrorista islamita em Xianjiang, que pretende atacar durante o período dos Jogos Olímpicos, que se iniciam daqui a três semanas» («China aperta o cerco a alegados terroristas», 24 Horas, 17.07.2008, p. 25).

«Desadequado», outra vez

Mau uso



      «“O receio é que qualquer uso desadequado do símbolo enfraqueça a neutralidade da Cruz Vermelha”» («Símbolo da Cruz Vermelha usado na libertação de Ingrid», S. S., Diário de Notícias, 17.07.2008, p. 28). À CNN, Mark Ellis disse o seguinte: «“It is clear that the conventions are very strict regarding use of the symbol because of what it represents: impartiality, neutrality. The fear is that any misuse of the symbol would weaken that neutrality and would weaken the [Red Cross],” Ellis said» («Did Colombia Commit War Crime in FARC Hostage Rescue?», Ken Shepherd, aqui). Misuse traduz-se por «mau uso, uso incorrecto, inadequado».

Arquivo do blogue