Plural dos nomes próprios

Os Tudors

Sobre o episódio da série Os Tudors (The Tudors II, no original), a programação da RTP indicava: «Enquanto pede a anulação do casamento com Katherine de Aragão, Henry nomeia-se a ele próprio chefe da Igreja Anglicana. Anne Boleyn insiste para que ele corte relações com a rainha e Katherine é banida da corte. Começa a Reforma.» Umas linhas mais abaixo, diz-se que é Henrique VIII, mas Katherine não passa para Catarina nem Anne Boleyn se nacionaliza para Ana Bolena. Mas quem é que escreve isto? Só se salva terem mantido o plural do nome próprio Tudors. A ignorância tem desígnios insondáveis.

Acordo Ortográfico

Sem dramas

Segundo notícia do Público, o Presidente da República, Cavaco Silva, já promulgou o Acordo Ortográfico, ratificado no Parlamento a 16 de Maio deste ano. Agora só resta estudar as normas estabelecidas, evitando os erros das obras já publicadas sobre a matéria, e aplicá-las. Os revisores deverão ser os primeiros a saber o que muda.

O género de «modelo»

Do género

      Dizia o original: «Ma come in Occidente si sfidano le taglie imposte alle modelle (lo ha fatto la ministra Giovanna Melandri), così nei paesi musulmani molte donne sfidano i diktat sul velo scatenando furiose reazioni.» E o tradutor verteu assim: «Mas tal como no Ocidente se questionam as medidas que nos são impostas pelas modelos (fê-lo, por exemplo, a ministra Giovanna Melandri), nos países muçulmanos muitas mulheres desafiam o diktat do véu, desencadeando reacções furiosas.» Pois é, modelle é o plural do feminino modella (o masculino é modello/modelli), donna che indossa e presenta capi e accessori di abbigliamento durante le sfilate di moda. Em português, nem todos os dicionários reconhecem os dois géneros ao vocábulo. Para o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, por exemplo, tem apenas o género masculino, como sempre se defendeu e usou. Para o Dicionário Houaiss, tem os dois géneros. A evolução das línguas, já aqui o afirmei uma vez, deve muito à ignorância dos falantes.
      A propósito de géneros, ainda ontem Herman José, no Chamar a Música, na Sic, dizia: «Sua Santidade, coitadita […].» Ora, com pronomes de tratamento dá-se sempre a silepse de género: Vossa Senhoria é estúpido. Vossa Excelência é mau. Vossa Majestade é um bom avaliador. Vossa Alteza é muito bondoso. Sua Santidade, coitadito.

«Anticarjacking»

Em que língua?

«Carros da PSP e GNR com tecnologia anti-carjacking», titulava o Público na edição de ontem (p. 9). Uma palavra metade portuguesa, metade inglesa? Há exemplos disso, sim senhor, mas causam-me sempre engulhos. No caso, porém, está errada, pois existe a palavra inglesa anticarjacking. Se eu fosse contar os «anticarjacking devices» que já li, enchia páginas. Por outro lado, em português, se ao prefixo anti- se segue uma palavra começada por c, não se usa hífen.

«Islamita»

Tu quoque


      O jornal 24 Horas também prefere a forma «islamita»: «A divulgação de mais uma rusga policial foi a última notícia de uma série de revelações que a China tem vindo a fazer acerca de uma suposta ameaça terrorista islamita em Xianjiang, que pretende atacar durante o período dos Jogos Olímpicos, que se iniciam daqui a três semanas» («China aperta o cerco a alegados terroristas», 24 Horas, 17.07.2008, p. 25).

«Desadequado», outra vez

Mau uso



      «“O receio é que qualquer uso desadequado do símbolo enfraqueça a neutralidade da Cruz Vermelha”» («Símbolo da Cruz Vermelha usado na libertação de Ingrid», S. S., Diário de Notícias, 17.07.2008, p. 28). À CNN, Mark Ellis disse o seguinte: «“It is clear that the conventions are very strict regarding use of the symbol because of what it represents: impartiality, neutrality. The fear is that any misuse of the symbol would weaken that neutrality and would weaken the [Red Cross],” Ellis said» («Did Colombia Commit War Crime in FARC Hostage Rescue?», Ken Shepherd, aqui). Misuse traduz-se por «mau uso, uso incorrecto, inadequado».

Treinar e treinar-se

É uma ordem!

«O plantel do Benfica treinou-se ontem no Seixal, numa sessão marcada pelas ausências de Nélson e Fellipe Bastos, que se queixaram de dores musculares e ficaram no ginásio» («Cardozo só se apresenta segunda-feira», 24 Horas, 17.07.2008, p. 21). Até recentemente, nunca se lia num jornal, desportivo ou não, o verbo treinar conjugado pronominalmente, excepto, é claro, na acepção de «exercitar-se em». Agora difícil é encontrar o verbo desacompanhado do pronome. Neste caso, ilibem-se os revisores, pois é uma directiva das chefias. Agora sei que é assim.

Nomenclatura científica

Quase, quase

      «Chama-se Flavescência Dourada (FD), é provocada por um fitoplasma (um vírus) que tem como transmissor um insecto da família das cicadelas, o Scaphoideus titanus Ball» «Vinhas do Norte ameaçadas por praga que pode ser devastadora», Pedro Garcias, Público, 17.07.2008, p. 29). Por acaso, o insecto não se chama Scaphoideus titanus Ball. Chama-se, e não sei se assim se afigurará menos deletério, Scaphoideus titanus Ball. Pormenores.
      Já agora, devo dizer que a flavescência é a qualidade ou estado de flavescente, isto é, que se torna ou pode tornar flavo, amarelo, louro ou cor de ouro. Flavescente era um particípio presente em latim. Embora em português antigo alguns dos particípios presentes ainda conservassem o sentido verbal latino, com a evolução da língua passaram a adjectivos (estrela cadente, ou seja, que cai), a substantivos (assistente, ou seja, que assiste) e a preposições (durante, tirante).

Arquivo do blogue