A sigla CEO

O inferno do CEO

      Ontem Jorge Coelho fez 54 anos. Sabiam? Ah, mas isto é importante: vinha no Público! «Jorge Coelho, CEO da Mota-Engil, 54» («Hoje fazem anos», Público/P2, 17.07.2008, p. 12). Não percebo é esta mania de usar a sigla inglesa CEO a torto e a direito. Director executivo não exprimia o mesmo?

Dar ou fazer erros

Daria 20 valores

Se fosse Marcelo Rebelo de Sousa. Como não sou, limito-me a saudar o jornalista que escreveu o título «Norman Foster acusado de fazer “maior erro da carreira” na Bulgária» (P2, 16.07.2008, p. 11) no Público de ontem. Muito bem: os erros dão-se ou fazem-se; os pecados e os crimes é que se cometem.

«Presidenta»?

A president…


      Alguns leitores pedem-me que me pronuncie sobre a afirmação de Pilar del Río de que é presidenta e não presidente da Fundação José Saramago. Na entrevista ao Diário de Notícias (edição de 6.7.2008, pp. 2-5), interrompeu o jornalista para lhe chamar ignorante. «Só os ignorantes é que me chamam presidente. A palavra não existia porque não havia a função, agora que existe a função há a palavra que denomina a função. As línguas estão aí para mostrar a realidade e não para a esconder de acordo com a ideologia dominante, como aconteceu até agora. Presidenta, porque sou mulher e sou presidenta.»
      Que história é essa de antes não haver a função? Antes quando? O substantivo «presidente» é comum de dois. Alguém diz a agenta, a clienta, a estudanta, a gerenta, a imigranta, a serventa? Nestes substantivos, são os adjuntos (artigos, adjectivos, pronomes, numerais) com flexão de género que indicam o sexo: o agente, a agente; o cliente, a cliente; o estudante, a estudante; o gerente, a gerente; o imigrante, a emigrante; o servente, a servente… Pilar del Río é espanhola, e o Diccionario de la Real Academia é que regista que «presidenta» é a «mujer que preside». Cá, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, ainda apenas regista: «presidenta s. f. (De presidente). 1. Deprec. Esposa do presidente. 2. Fam. e Pop. Mulher que desempenha as funções de presidente. Masc. presidente.» Eu sei e digo-o sempre: os dicionários não são oráculos. O que interessa é reflectirmos nisto: qual a necessidade de alterarmos uma palavra com estas características tão neutras? Historicamente, é verdade, alguns destes substantivos variaram: diz-se infante, mas também se diz infanta; diz-se governante, mas também se diz governanta; diz-se parente, mas também se diz parenta.
      Uma solução de compromisso seria chamar presidenta a Pilar del Río apenas quando a entrevista é feita além-fronteiras. Em Badajoz, seria presidenta. Se decorresse em Olivença, por exemplo, já nos deveríamos mostrar minimamente patriotas, chamando-lhe afoitamente presidente.

Eufemismos


O malogrado

«O elenco do novo filme da série Batman, The Dark Knight, juntou-se anteontem em Nova Iorque para a estreia mundial e aproveitou para homenagear Heath Ledger, o actor australiano que desempenha o papel de Joker e morreu em Janeiro, aos 28 anos, num acidente com drogas» («Tributo a Ledger na estreia de Batman», Público/P2, 16.07.2008, p. 12). Não sabia que Heath Ledger fazia biscates na construção civil (ou seria como ajudante de fiel de armazém de retém?). Como tenho formação na área de Higiene e Segurança no Trabalho, sei bem do que se está a falar: os acidentes com drogas podem envolver a quebra de um recipiente, o derrame de líquido, a dispersão de pó, a inalação ou ingestão de partículas…

Chumbar, reprovar

É o progresso, estúpido!

«Houve igualmente mais jovens a chumbar a esta disciplina (oito por cento) do que a Matemática» («Exame de Português “mais acessível” na 2.ª fase», I. L., Público, 16.07.2008, p. 12). Cá está a «evolução» da língua e a sua força imparável: dantes, o verbo chumbar (como reprovar) era transitivo directo, ou seja, um verbo que pede complemento directo. Se queremos que aquele que sofre a acção seja sujeito, temos de usar a voz passiva: «Houve igualmente mais jovens a serem chumbados a esta disciplina (oito por cento) do que a Matemática.» Recentemente, contudo, alguns dicionários vieram legitimar a construção da frase acima. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, até a abona com uma frase de Pepetela: «Chumbar Gír. Reprovar num exame. “Os amigos insistiam para ele ao menos terminar o Liceu. Nada feito. Chumbava regularmente no último ano.” (PEPETELA, Geração da Utopia, p. 14).» Potencialmente, qualquer erro pode ser «legitimado» pelos fazedores de dicionários. Parafraseando Churchill, apetece dizer: «O progresso da língua é a capacidade de ir de um falhanço a outro sem perder o entusiasmo.»

Cólon ou colo

Dá-lhe com uma petição

O leitor Fernando Ferreira acaba de me enviar uma mensagem em que me chama a atenção para o facto de haver na Internet uma petição sobre o cancro do cólon do útero. Ou, se quisermos, colo do útero. Ora, tanto o sítio em que está a petição como os numerosíssimos blogues que fazem referência ao assunto grafam «cólo». Só uma pergunta: não seria útil que aprendessem português antes de se porem a escrever? Para quando uma petição para que isso se torne obrigatório?

A Schutzstaffel ou a SS

Escudo Protector

      «Operações e amputações sem anestesia, injecções directamente no coração de petróleo e outras substâncias tóxicas. Rotina para um médico das forças de elite de Hitler, as SS, como Aribert Heim. Mas ao contrário dos seus camaradas de maquiavelismo, Heim ainda está vivo e a monte. […] Aribert Heim foi médico SS no campo de concentração de Mauthausen, Áustria. Ali efectuou experiências em seres humanos, torturou e matou prisioneiros. Esteve escondido na Alemanha até 1962, ano em que fugiu, como muitos outros nazis, para a América do Sul» («Em busca do último dos monstros nazis», João Magalhães, Meia Hora, 16.7.2008, p. 8).
      Vamos ver se percebo: se em vez de escrever SS, o jornalista tivesse desdobrado a sigla, teria escrito «Schutzstaffel». E, logo, «a Schutzstaffel». Donde vem então o plural? Também ninguém diz «as PSP» quando a sigla se refere à Polícia de Segurança Pública.
      Por outro lado, o que é isso de «coração de petróleo»? Deveria ter escrito «injecções de petróleo e outras substâncias tóxicas directamente no coração». Mataria menos leitores...

Actualização em 9.10.2009

      «Dado que o seu pai [de Herta Müller, laureada com o Prémio Nobel da Literatura em 2009] pertenceu à SS — tropa de elite chefiada por Himmler na II Guerra Mundial —, perpassa ainda pela sua escrita algum sentimento de culpa perante o passado obscuro da Alemanha» («Nobel premeia escritora corajosa», Ana Maria Ribeiro, Correio da Manhã, 9.10.2009, p. 41).

Grandes números

Um milhão, mil milhões, um bilião: 1 000 000, 1 000 000 000, 1 000 000 000 000

Já que falam nisso



      Numa mensagem de correio electrónico, o IPQ (Instituto Português da Qualidade) pergunta se «sabia que a designação correcta para o número 10 elevado a 9 (1 000 000 000) é mil milhões e para o número 10 elevado a 12 (1 000 000 000 000) é um bilião». Eu sabia, mas será que todas as pessoas sabem? Os tradutores, por exemplo, costumam meter os pés pelas mãos. A norma portuguesa sobre os grandes números é a NP 18:2006.

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