Tradução do espanhol

Pouco científico
     

      A propósito da campanha pelo Manifesto para a Língua Comum que decorre em Espanha, promovida pelo jornal El Mundo, o Diário de Notícias escreve: «Em defesa do castelhano encontram-se figuras dos mais diversos sectores da sociedade: o escritor Miguel Delibes, o tenor Plácido Domingo, o ex-seleccionador nacional de futebol Luis Aragonés, o poeta Antonio Gamoneda, o toureiro Cayetano Riviera Ordóñez, o científico, [sic] César Nombeia [sic]» («Mais de cem mil espanhóis a favor do Manifesto», Diário de Notícias, 6.7.2008, p. 37). Científico: «Que se dedica a una o más ciencias», regista o Diccionario de la Real Academia. A escrever assim, até parece que o autor do texto é subscritor do Manifesto para a Língua Comum. Manifiesto por la lengua común, dirá ele.


Topónimo: «Nebrasca»

EUA

Mesmo que venhamos a ter a letra k no alfabeto português, é muito mais natural que se escreva este topónimo com c: «“Velhos são os trapos” é a expressão que a norte-americana Dara Torres podia ter dito, ontem, depois de se ter apurado para os Jogos Olímpicos de Pequim, nos 100 metros livres, em Omaha, Nebrasca, nos Estados Unidos» («Quarentona Dara Torres vai nadar em Pequim», Tiago Guilherme, Diário de Notícias, 6.7.2008, p. 53).

«Citomegalovírus» e «citopático»

Dos Gregos

Uma leitora pergunta-me como se deve escrever: «vírus citomegálico humano» ou «vírus citomegalo»; «efeito citopático» ou «efeito citopatogénico». O Dicionário Médico, de L. Manuila et alii, adaptado e revisto para português por João Alves Falcato (Climepsi Editores, 2.ª ed., 2001), regista na página 140: «citomegalovírus, s. m. (fr. cytomégalovirus; ing. cytomegalovirus), Sin. usual do herpesvírus humano 5. V. doença por citomegalovírus, síndrome Torch. Abrev.: CMV.» Em contrapartida, não regista «citopatogénico» nem «citopático», apenas «citopatologia». Contudo, ambas as formas estão correctas e bem formadas. Se me inclino para alguma, é para a última, «citopático», porque é, de longe, mais comum em português. Cit- ou cito- é um prefixo de origem grega que exprime uma relação com as células. Pat-, pato- são prefixos (a que devemos acrescentar o sufixo -patia) de origem grega que exprimem uma relação com a doença ou com um estado anormal.

Solarengo ≠ soalheiro


Já que pedem


      A pedido de várias pessoas, retomo então a famigerada questão do «solarengo». O que até apetece, pois amanheceu chuvoso aqui em Lisboa. Uma vez que estamos no Verão, esperemos que ainda venha aí um dia soalheiro. Ou ensolarado. País de anglófonos proficientíssimos, toda a gente sabe que em inglês é «sunny». Só ignoram como é em português, língua e cultura em que tiveram (ou tivemos) a desdita de terem nascido.
      Quanto a «solarengo», eis um contexto em que é usado com propriedade: «As casas solarengas de traça setecentista [isto é, as moradias de famílias nobres ou importantes], as quintas ladeadas de cerejeiras e arvoredo de Anreade, S. Martinho de Mouros ou Resende permanecem hoje quase inalteráveis, evocando a época em que Eça de Queirós as descreveu, habitadas pelas personagens dos enredos da Ilustre Casa de Ramires» (Douronet, Portal Turístico do Douro).

«Solarengo» e «música orelhuda»

Depois conto


      Há erros persistentes. Como as nódoas. Na Ípsilon, precisamente: «Com o Verão, vêm os “blockbusters e as comédias românticas. […] O filme baseado na extensa banda sonora orelhuda* do grupo sueco contém 24 números musicais filmados numa Grécia solarenga» («“Mamma Mia”: quando os Abba voltam a atacar», Público/Ípsilon, 27.6.2008, p. 4). «Solarengo, adj. Relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre).│Que é moradia solar ou tem o aspecto de solar.│Que vive em solar; que é dono de solar.│ S. m. Senhor de solar.│Aquele que, como serviçal ou lavrador, viva no solar ou herdade de outrem» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).
      A pressa justificará tudo? Vou agora testar a teoria indo trabalhar como revisor, durante algum tempo, lá para o final do dia, para a melhor publicação desportiva. Ah, está informado: para o Record, justamente. Faltava-me esta experiência de trabalho numa redacção, com outros revisores. Depois da prática, a teoria na Booktailors, para mais um curso de Técnicas de Revisão (iniciação), em meados de Outubro.


* Nesta acepção, que me parece simples cópia do inglês, o vocábulo ainda não está dicionarizado. Além da acepção mais óbvia, «que tem orelhas grandes», em sentido figurado significa «estúpido, teimoso».

Léxico: «livro-êxito»

Alternativas

      Livro-êxito. Como alternativa a «bestseller», já se usava no Brasil e começa agora a usar-se em Portugal: «Baseado no livro-êxito de Nicholas Sparks, um filme comovente de Nick Cassavetes que conta a história de um homem que todos os dias lê a uma mulher, no lar de idosos onde ambos vivem, o diário da história de amor de dois jovens» («O Diário da Nossa Paixão» [The Notebook], Público/P2, 27.6.2008, p. 19).

Pontuação

Excrescências

Lia-se no Meia Hora de ontem: «Preço dos cereais, pobreza e clima são prioritários, segundo a ONU» («África em debate no início da cimeira», Margarida Caseiro, Meia Hora, 8.7.2008, p. 6). Nem pensar. A vírgula só faria falta se o termo «segundo a ONU» viesse anteposto: «Segundo a ONU, o preço dos cereais, a pobreza e o clima são prioritários.» É típico: os jornalistas não usam a vírgula quando é obrigatória e, ao mesmo tempo, abusam das vírgulas facultativas.

G-8 ou G8?

Ideologias

Num texto publicado ontem, Ricardo Nobre dizia no seu blogue que, perante a sigla G8, na comunicação social portuguesa se faz indiferentemente a concordância verbal no plural ou no singular, o que condena, pois «sendo um grupo (ou seja, um substantivo colectivo), na gramática portuguesa, os adjectivos e verbos que concordam com o substantivo vão para o singular (como acontece com turma, molhe, cáfila, manada, e outros nomes), e não para o plural (como se ouve e lê na comunicação social portuguesa)».
Podemos estar, todavia, perante um caso de concordância semântica e não morfossintáctica, o que se designa por silepse ou concordância ideológica, que não ocorre apenas em textos literários. Assim, ao fazerem a concordância, os jornalistas poderão estar a pensar no vocábulo subentendido «países»: «O[s países do] G8 (Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) estão reunidos numa localidade termal de Tokayo, nas montanhas do Norte do Japão, desde segunda-feira.»
Como revisor, outra coisa me faz espécie: é o uso indiferente no mesmo texto das siglas G-8 e G8. «O primeiro dia da cimeira que até amanhã reúne os líderes do grupo dos sete países mais industrializados do Mundo e a Rússia (G8), na estância japonesa de Tokayo, foi dominado pela definição dos desafios da comunidade internacional para combater a escassez de alimentos nos países pobres, bem como pela condenação, reafirmada sobretudo pelos representantes da União Europeia — ao Presidente do Zimbabué e à violência que o país africano atravessa sob o seu regime. […] Na sua intervenção, o secretário-geral da ONU defendeu que o G-8 tem “desafios interligados”» («África em debate no início da cimeira», Margarida Caseiro, Meia Hora, 8.7.2008, p. 6). Ora, a forma G-8 não faz qualquer sentido, pois se desdobrarmos a sigla, Group of Eight ou Grupo dos Oito, não vemos nenhum hífen. Donde vem o inútil tracinho, não querem explicar-me?

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