Léxico: «subducção»

Deslizamentos

Vulcões em Portugal? «Os vulcões existentes em Portugal continental estão extintos mas a Terra pode entrar num novo ciclo geológico, com uma zona de subducção a sudoeste da Península Ibérica, e a actividade vulcânica não está excluída. “Com base na distribuição dos sismos, há quem diga que podemos estar a entrar num novo ciclo geológico, que poderá ter como consequência o vulcanismo”, afirmou o geólogo José Francisco.» Como sempre preconizo, o jornalista explica o que é a subducção: «Na origem do processo estará um fenómeno de subducção — o mergulho de uma placa [tectónica] sob outra — neste caso da oceânica sob a continental, em cujo extremo está Portugal» («Vulcões à beira de um ataque de nervos», Meia Hora, 8.7.2008, p. 5). Do latim subductiōne, «deslizamento, tracção».

Ortografia: «imã»

Magnético

      «O príncipe Karim Aga Khan, líder institucional e espiritual de milhões de muçulmanos ismailis a viver em cerca de 25 países [,] vai estar em Portugal de 10 a 14 de Julho. O Aga Khan é o 49º Imam hereditário Shia Imami Ismailis e dirige uma comunidade de 15 milhões de muçulmanos» («Príncipe Aga Khan visita Portugal», Global, 7.7.2008, p. 6). Não percebo é porque não escrevem «imã», palavra portuguesa, e assim, com minúscula. Já temos sorte que o jornalista não tenha escrito, como li recentemente, «íman»… Não nesta notícia, mas em muitas outras, vejo que o título Aga Khan é erradamente interpretado, à semelhança de dalai-lama, como um nome. Quanto ao resto, o Diário de Notícias explica melhor: «“Um conceito central de tudo isto é o poder da arquitectura para ligar o passado ao presente e ao futuro”, disse o Aga Khan IV, o príncipe Karim al-Hussayni, após um momento musical interpretado pelo Silk Road Ensemble. O 49.º imã dos ismaelitas (uma comunidade muçulmana xiita minoritária) presidiu à cerimónia ao lado de Abdullah Ahmad Badawi, o primeiro-ministro da Malásia, num cenário em que a madeira predominava e o negro dos fatos dos homens contrastava com as cores fortes dos trajes tradicionais das mulheres na plateia» («Aga Khan premeia projectos que ligam passado, presente e futuro», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 5.9.2007).

Ortografia: «televangelista»

À distância

Caro L. M.: uso a forma «televangelista», que, tanto quanto sei, não está dicionarizada. Faço-o por analogia com o vocábulo «telescola», em que há supressão de um e. Ainda recentemente a vi usada por um dos nossos melhores jornalistas, Ferreira Fernandes: «Mais um escândalo político-religioso na América. O reverendo John Hagee, televangelista de San Antonio, Texas, disse que foi Deus, instrumentalizando Hitler, que decidiu o Holocausto. Os televangelistas falam por metáforas porque é o tipo de discurso que incentiva várias interpretações, pescando assim mais crentes. Para mim, o que Hagee disse deveria levar Deus a meter-lhe um processo por difamação. Mas muitos entenderam nas palavras do reverendo texano um insulto aos judeus — matéria sulfurosa em tempos de eleições... Daí que o candidato presidencial John McCain, a quem Hagee apoia, decidisse recusar o seu apoio. Depois do aborrecimento de Obama com o seu pastor Jeremiah Wright (também de metáforas loucas), o de McCain com o seu pastor. Eu se fosse candidato americano aproveitava para lembrar uma... metáfora. Mas, essa, boa: dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Isto é, em política, apoio de pastor é meio caminho para ficar tosquiado» («Separar os rebanhos dos eleitores», Diário de Notícias, 24.5.2008).

Acordo Ortográfico

Perceber para discutir

Ainda aqui não tinha divulgado o blogue oficial da Petição em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico, o que faço agora. Não por eu ser peticionário, uma vez que não estou contra o Acordo Ortográfico, mas por entender que só ganhamos em perceber os argumentos em discussão.

Títulos de filmes

Não é fácil?

É já a segunda vez que leio críticas à adaptação do título do filme Forgetting Sarah Marshall, actualmente em exibição nos cinemas do País. Adaptação, repito. Não se trata de tradução, como tenho lido.
Vejamos o que escreve Paulo Narigão Reis no Meia Hora: «Por esta altura ainda corre nas salas nacionais Forgetting Sarah Marshall, título que o exibidor resolveu chamar Um Belo Par... de Patins. Tente-se imaginar o dilema: Esquecer Sarah Marshall, tradução lógica — digo eu... — seria pouco chamativo para o público. Seria, além disso, pouco revelador do género do filme, uma comédia. Vá lá, pelo menos ninguém se lembrou de traduzir Forget Paris, de Billy Crystal, para Um Belo Par de Bolas... de Basquete... A tradução muito livre de títulos é um clássico da exibição nacional. Como esquecer o brilhante Grande Moca, Meu, título português com que foi brindado Harold & Kumar Go to White Castle. Admita-se: as dificuldades aqui eram mais sérias. Arranjar um título para um filme sobre dois consumidores de marijuana atacados pelos munchies e cheios de vontade de comer hambúrgueres da cadeia White Castle não é pêra doce, nem sequer um Sundae. Mas até os franceses, como seu Harold & Kumar chaissent le burger, conseguiram dar a volta à questão» («Que Belo Par de… Títulos Idiotas», Meia Hora, 4.7.2008, p. 12). Quanto a mim, acho que tais títulos revelam tanto de sentido comercial como de falta de imaginação.

Topónimo: «Michigão»

Usa-se

Quem disse que «Michigão» não se usa? Ei-lo: «Madonna Louise Veronica Ciccone nasceu a 16 de Agosto de 1958 em Bay City, Michigão, EUA» («À beira dos 50 anos», Pippa Smith, Certa, n.º 126, 1-13.7.2008, p. 12). Como, de resto, recomenda José Manuel de Castro Pinto no Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora).

Plural dos nomes próprios

Os Clappertons

Creio que foi Ellie Henderson que, no porto de Alexandria, perguntou a Hercule Poirot se tinha visto «os Clappertons». Foi assim, mesmo, no plural, que a tradutora Mafalda Eliseu escreveu nas legendas do episódio de hoje, intitulado «Problema a Bordo», da série televisiva Agatha Christie’s Poirot. Mais tarde, «Mrs. Clapperton» aparece morta no camarote 66. Ou terá sido «Mrs Clapperton»? «O manual de estilo da Universidade de Oxford, amplamente seguido no Reino Unido, tem muito a recomendar como solução de compromisso. A regra é: use um ponto apenas quando a palavra terminar de forma prematura. Ele deve ser omitido se a abreviação iniciar com a primeira letra da palavra e terminar com a última. Assim: Sra Bodoni, Sr John Adams Jr e Srta Lucy Chong-Adams, Dr McBain e Sto Tomás de Aquino; mas Prof. Czeslaw Milosz e Cap. James Cook» (BRINGHURST, Robert. Elementos do Estilo Tipográfico, versão 3.0, tradução de André Stolarski, Cosac Naify, São Paulo, 2005, pp. 99-100).
Quanto ao plural dos nomes próprios, Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa, escreve: «Os nomes próprios usados no plural fazem o plural obedecendo às normas dos nomes comuns, e a língua padrão recomenda se ponham no plural, e não no singular» (p. 125). Abona depois com uma citação da novela O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco.

Caldeirão ¶

Ao anónimo

Um leitor, daqueles que sabem tudo (mas que ainda assim lêem o meu blogue…), depois de aqui ter lido duas vezes a palavra «caldeirão» a designar o símbolo ¶, desafia-me a apresentar «uma abonação que seja». Aceito. Tenho aqui seis abonações, mas, como só pediu uma, é o que vai ter: «Nos documentos de carácter económico e nos formados por elementos distintos (como constituições, tratados, cartas de privilégio ou de foral, etc.), convém abrir parágrafo para cada um dos elementos introduzidos por Item ou pelo caldeirão, ¶ e, na falta destes, quando a divisão em artigos tornar o texto mais inteligível» (COSTA, Avelino de Jesus da. Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos Medievais e Modernos, 3.ª edição, Coimbra, 1993, IPD/FLUC, p. 43).

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