Plural dos nomes próprios

Os Clappertons

Creio que foi Ellie Henderson que, no porto de Alexandria, perguntou a Hercule Poirot se tinha visto «os Clappertons». Foi assim, mesmo, no plural, que a tradutora Mafalda Eliseu escreveu nas legendas do episódio de hoje, intitulado «Problema a Bordo», da série televisiva Agatha Christie’s Poirot. Mais tarde, «Mrs. Clapperton» aparece morta no camarote 66. Ou terá sido «Mrs Clapperton»? «O manual de estilo da Universidade de Oxford, amplamente seguido no Reino Unido, tem muito a recomendar como solução de compromisso. A regra é: use um ponto apenas quando a palavra terminar de forma prematura. Ele deve ser omitido se a abreviação iniciar com a primeira letra da palavra e terminar com a última. Assim: Sra Bodoni, Sr John Adams Jr e Srta Lucy Chong-Adams, Dr McBain e Sto Tomás de Aquino; mas Prof. Czeslaw Milosz e Cap. James Cook» (BRINGHURST, Robert. Elementos do Estilo Tipográfico, versão 3.0, tradução de André Stolarski, Cosac Naify, São Paulo, 2005, pp. 99-100).
Quanto ao plural dos nomes próprios, Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa, escreve: «Os nomes próprios usados no plural fazem o plural obedecendo às normas dos nomes comuns, e a língua padrão recomenda se ponham no plural, e não no singular» (p. 125). Abona depois com uma citação da novela O Bem e o Mal, de Camilo Castelo Branco.

Caldeirão ¶

Ao anónimo

Um leitor, daqueles que sabem tudo (mas que ainda assim lêem o meu blogue…), depois de aqui ter lido duas vezes a palavra «caldeirão» a designar o símbolo ¶, desafia-me a apresentar «uma abonação que seja». Aceito. Tenho aqui seis abonações, mas, como só pediu uma, é o que vai ter: «Nos documentos de carácter económico e nos formados por elementos distintos (como constituições, tratados, cartas de privilégio ou de foral, etc.), convém abrir parágrafo para cada um dos elementos introduzidos por Item ou pelo caldeirão, ¶ e, na falta destes, quando a divisão em artigos tornar o texto mais inteligível» (COSTA, Avelino de Jesus da. Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos Medievais e Modernos, 3.ª edição, Coimbra, 1993, IPD/FLUC, p. 43).

Pontuação e cognomes

Dona Tareja

Afinal, parece que D. Teresa não era má pessoa, vem assegurar-nos Marsilio Cassotti. «Na novíssima biografia D. Teresa — A Primeira Rainha de Portugal [ed. Esfera dos Livros], o investigador Marsilio Cassotti deita por terra um dos maiores mitos da História de Portugal, apresentando a mãe de O Conquistador como uma mulher injustiçada. Depois de ano e meio de trabalho em arquivos, às voltas com documentação medieval portuguesa e leonesa, Marsilio Cassotti defende a tese de que a filha de Afonso VI, mulher de D. Henrique de Borgonha, está envolta em mitos» («Biografia revela “nova” D. Teresa», Ana Filipa Baltazar, Meia Hora, 2.7.2008, p. 12).
Numa caixa, ao meio, é reproduzida uma entrevista ao autor da obra. Para título da entrevista, aproveitaram uma frase do entrevistado («Se não fosse ela, este território havia-se perdido.»), mas uma pequena transformação correu mal: «Sem ela este território havia-se perdido». Se há inversão da ordem directa, a vírgula é necessária: «Sem ela, este território havia-se perdido.» Ah, e outra coisinha: mesmo aparecendo o cognome isolado, e não como aposto ou modificador apositivo do nome, o artigo escreve-se com minúscula: o Conquistador.

Abuso de «onde»

Onde?
     

      O moderno abuso do pronome relativo e advérbio de lugar «onde», em vez de «no/na qual», «em que», está a tomar proporções impensáveis. Vejamos só alguns exemplos mais recentes.

  1. «A história alternativa, onde se especula sobre cenários históricos diversos, e paralelos, dos que aconteceram na realidade (os what if…?, “e se?”), é um dos subgéneros mais populares da ficção científica, amplamente explorado pelos autores anglo-saxónicos» («E se D. Carlos não tivesse sido assassinado?», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 18.1.2008, p. 34);

  2. «Mesmo assim, os níveis de precipitação forma muito inferiores aos registados nas cheias de 1967, onde morreram mais de 700 pessoas» («Mais temporais e mais fortes são inevitáveis para especialistas», Global/DN, 19.2.2008, p. 6);

  3. «Tanto doce até fez com que voltasse atrás nas declarações que fez anteriormente, onde acusou a RTP de ainda não ter decidido o seu futuro» («Merche Romero vestiu-se de chocolate mas RTP não lhe liga», Global, 25.2.2008, p. 23);

  4. «A maior amplitude de opiniões foi encontrada no jornal Público onde Zapatero venceu para 45,7% contra 30,1% que deram a vitória a Rajoy» («Zapatero vence Rajoy à tangente», Global/DN, 27.2.2008, p. 14);

  5. «A 27 de Janeiro, um raide da polícia, em Urumqi, a capital de Xinjiang, originou um tiroteio onde foram mortos dois rebeldes» («Atentado contra Jogos Olímpicos», Global/DN, 10.3.2008, p. 15);

  6. «Os reformados e os operários são quem mais adere aos Alcoólicos Anónimos (AA), onde os membros têm uma média de idades de 47 anos, segundo uma sondagem desta organização que apoia na recuperação do alcoolismo» («Alcoólicos Anónimos traçam perfil», Global, 19.3.2008, p. 3).


Logradouros públicos

Escolham

Depois de a obra actual [sic] — O novo acordo ortográfico, publicada pela Texto Editores, ter vindo afirmar que o Acordo Ortográfico de 1990 vem estabelecer, o que não é verdade, que se podia passar a escrever «Avenida da Liberdade ou avenida da liberdade» (p. 12), vi, com espanto, que também Guia Prático do Acordo Ortográfico, da prestigiada Porto Editora, afirma que se passará a escrever «Rua da Restauração ou rua da restauração» (p. 27). A especialista em dicionários, porém, deu-se entretanto conta do erro ou recebeu reclamações, pois já vi uma reimpressão da mesma obra em que se lê «Rua da Restauração ou rua da Restauração». Cabe assim ao leitor escolher o exemplar sem mácula. Contudo, de preferência, leia o próprio texto do Acordo Ortográfico de 1990.
Base XIX, n.º 2, al. i): «Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente, em início de versos, em categorizações de logradouros públicos: (rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo dos Leões), de templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo ou Templo do Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou Palácio da Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).»

«Marca umbrella»

Debaixo do mesmo tecto

      «A Sonaecom vai adoptar uma estratégia monomarca nas telecomunicações, já a partir deste mês, descontinuando a marca Novis, com que operava na rede fixa, e passando a utilizar a marca Optimus em todos os segmentos do negócio» («Optimus vai ser marca-umbrella da Sonae», OJE, 30.6.2008, primeira página). Em marketing, costuma dar-se o exemplo da Lactogal, que comercializa vários produtos (iogurte, leite, manteiga, natas e queijo) com a marca Mimosa, que não corresponde à denominação social da empresa. Costuma ver-se sem hífen: marca umbrella.


Adaga ou óbelo

Já vi

Cara Luísa Pinto: Sim, há editoras que usam a adaga, cruz ou óbelo (que é este símbolo: ) a anteceder as notas de rodapé. Tal como algumas usam, por exemplo, o caldeirão (que é este símbolo: ) para o mesmo fim. Na edição de textos clássicos, a adaga era usada para assinalar trechos tidos como duvidosos. Há também a adaga dupla, também chamada obelisco duplo ou diesis: ‡.

Léxico da fruta



aciniforme adj. 2 gén. Que tem forma de bagos.
amerim adj. Diz-se de uma pêra serôdia, muito estimada. Também se diz amorim.
apintar v. intr. Pop. Começar a tomar cor (uvas e outros frutos).
baguim m. Nome de duas variedades de pêra.
baionesa adj. Diz-se de uma espécie de maçã grande.
barbosa f. Variedade de pêra.
beringel adj. Diz-se de certa casta de figo.
bofes m. pl. Enfiadas de quartos ou rodelas de pêra ou maçã, seca ao sol.
boleco adj. Diz-se do fruto arejado ou que amadureceu de forma anormal.
boneca f. Castanha chocha ou sem polpa; folecra.
branil m. Lugar onde os frutos crescem muito.
camoesa adj. e f. Diz-se de certa casta de maçã.
campuda f. Variedade de maçã.
candicante f. Casta de uva branca, de bagos pequenos.
canelas f. Variedade de maçã minhota.
capendua f. Espécie de maçã, que tem a casca vermelha e também conhecida por almofada; o m. q. capandua.
carcérula f. Fruto encerrado em pericarpo, que não se abriu no tempo da maturação.
carcha f. Rodela, talhada.
castrodaire f. Variedade de pêra.
chupa f. Laranja descascada e não partida, para se lhe sorver o suco.
colaça f. Variedade de manga, na Índia.
coruche f. Variedade de pêra muito saborosa.
cuchário m. Bot. Variedade de figo temporão, no Algarve.
domingas f. Variedade de pêra semelhante à amerim.
dona-inês f. Variedade de pêra sumarenta e aromática.
dona-joana f. Variedade de pêra.
dona-joaquina f. Variedade de pêra.
dona-maria f. Variedade de pêra.
engana-rapazes adj. e f. Diz-se de uma pêra mediana e fina, assim chamada porque estando madura parece verde.
ensoar v. intr. Recozer a fruta com o calor, antes de ter amadurecido.
enxertas adj. e f. pl. Provinc. Diz-se das castanhas, quando longas ou compridas.
escurial f. Variedade de pêra muito apreciada.
esgana-cão m. Variedade de ameixa ordinária.
ferro-pau m. Casta de uva do Algarve.
fichoa f. Variedade de maçã.
figueiroa f. Variedade de pêra, o m. q. coxa-de-freira.
flamenga f. Variedade de pêra portuguesa.
focinho-de-burro m. Variedade de maçã.
fofa f. Variedade de maçã.
fonte-cal f. Variedade de uva. O m. q. fonte-canal.formosa-de-darei f. Variedade de pêra portuguesa.
fragma m. Bot. Parede transversal de um fruto.
fragosão m. Casta de uva do Alentejo.
gretamento m. Doença das peras e das maçãs.
gronho m. Variedade de pêro, muito conhecido no Norte do País.│Variedade de maçã.
gulosa f. Prov. trasm. Vara comprida, rachada e aberta na extremidade de cima, com que se colhem frutos; ladra.
junhães f. Antiga variedade de pêra portuguesa.
junhal f. Variedade de maçã do Minho.
laborjeiro m. Casta de uva.
labrusca f. Variedade de uva preta; o m. q. casteloa.
lameira f. Casta de uva de Trás-os-Montes.
lâmpados adj. pl. Mad. Diz-se dos primeiros frutos que aparecem.
lampo adj. Que vem antes do tempo, temporão; diz-se dos frutos, e, especialmente, de certa casta de figo.
languedor m. Variedade de uva preta do Algarve.
leitoa f. Variedade de pêra.
longais f. Antiga variedade de pêra.
machurra adj. f. Diz-se da planta tardia em dar flor ou fruto.
macletão m. Bot. Prov. trasm. Variedade de pêssego rosado.
maria-antónia f. Variedade de pêra.
maria-gomes f. Variedade de maçã.
melápio m. Variedade de pêro doce.
melgotão m. Prov. trasm. Nome vulgar do pêssego.
mouzinho adj. Diz-se de uma espécie de pêra, o m. q. mouzinha.
mozinha adj. Dizia-se de uma variedade de ameixa.
mulato m. Variedade de pêssego grande, no distrito de Leiria.
outoniço m. Aborto parcial dos bagos das uvas.
padre-francisco m. Variedade de maçã.
parida adj. Diz-se da amêndoa quando tem dois miolos.
pincre adj. Prov. alg. Diz-se do estado que atingiu o figo na árvore, quando, já muito amadurecido, dobra o pé e se encontra apto para a colheita e para a secagem: ramos carregados de figo pincre, pronto para se colher.
promagem f. Prov. alg. Nome genérico que se aplica aos figos que não são de toque.
pruína f. Pó céreo que cobre certos frutos.
pruinoso adj. Em que há pruína.
prumageira f. Macieira que nasceu de pevide e cujos frutos são em geral travosos.
rangel f. Variedade de pêra.
reguenga f. Variedade de maçã.
reiriz f. Bot. Variedade de pêra.│Variedade de maçã.
rio-frio m. Bot. Variedade de pêra parecida com a pêra-correia.
riscadinha f. Variedade de maçã cultivada desde o século XIX na região de Palmela.
rodrigo-afonso m. Espécie de uva branca, também conhecida por camarate, carrega-bestas e baldoeira.
rouval adj. Prov. beir. Diz-se de uma variedade de pêra muito apreciada para secar; o m. q. ruival.
rual m. Bot. Certa casta de uva de Azeitão.
sã-bento f. Variedade de pêra portuguesa.
safaria adj. Diz-se de uma casta de romãs de bagos grandes e quadrados.
salgada f. Bot. Variedade de fruta-manga da Índia.
santana f. Variedade de pêssegos grandes, de pele amarelo-rosada e polpa sucosa.│Variedade de pereira.
santiago m. Variedade de maçã e de pêra excelente.
sobrego m. Ant. Variedade de pêra, hoje desconhecida.
soldar adj. Diz-se de uma espécie de cereja, vermelha e mole.
sousa m. Variedade de pêro esverdeado.
soutar v. tr. Prov. Apanhar castanhas.
tachim m. Prov. alent. A primeira rodela de casca que se corta ao partir uma melancia.
talhada f. Porção cortada de alguma coisa, especialmente de frutos grandes.
vrancelhas f. pl. Variedade de uva tinta do Minho.
zesto m. Membrana que divide o interior da noz em quatro partes.

[glossário em construção: 86 entradas]

Arquivo do blogue