O e a moral

Eles e elas


      O facto de em inglês serem duas palavras diferentes, moral e morale, devia levar os tradutores a reflectir na língua de chegada. Em português, a primeira será traduzível por «a moral» e a segunda por «o moral». Erro muito comum, o de confundir estas palavras. «To accept negative judgements about his decision to invade Iraq or his handling of the occupation would threaten something more vulnerable than troop morale.» Será então: «Aceitar juízos negativos sobre a sua decisão de invadir o Iraque ou sobre a forma como geriu a ocupação seria ameaçar algo mais vulnerável do que o moral das tropas.»

Topónimos

Altos e baixos

O Meia Hora convida-nos hoje a descobrir o «Douro superior»: «Marialva é o ponto de partida para descobrir e conhecer o Douro superior, as encostas e os vinhedos, os miradouros, a cozinha, os vinhos e a cultura local» («Descubra o Douro superior», Meia Hora/«Extra», 30.6.2006, p. 11). Ora, tratando-se de um topónimo, não será «Douro superior», mas Douro Superior, com maiúscula inicial. Tal como Alto Sabor, Europa Setentrional, África Oriental, Sudeste Asiático, Baixa Áustria, América Central, etc.

Pontuação

A quem interesse

Depois da Oficina de Pontuação, poder-se-ia publicar a respectiva acta. Mais modestamente, publico apenas um parecer da Academia Brasileira de Letras (ABL) sobre a pontuação de uma das frases, objecto de alguma controvérsia. A famosa frase 67: «Ao mesmo tempo, a gravação facultou à música uma história, não só das composições e tradições, mas também das execuções, mantendo-as disponíveis durante décadas.» Diz a ABL: «A vírgula depois de “história” se justifica por estar separando termos intercalados (“não só das composições e tradições,”); “história” não é o sujeito da oração; o sujeito é a “gravação”; “história” é o objeto direto de “facultou”.»

Selecção vocabular

Disse «alocução»?

«A Organização Mundial de Saúde recomendou ontem aos países africanos uma alocação mínima de 2% dos recursos nacionais para a saúde» («Recomendação», Metro, 27.6.2008, p. 4). Pergunto-me se, num jornal como este, distribuído nos transportes públicos, com o público-alvo que pretende atingir, faz sentido usar um termo como «alocação» sem qualquer explicação. Creio que não. O leitor comum pode intuir, mas vagamente, sem certezas, do que se trata. Seria, pois, melhor não usar o vocábulo e redigir a frase de outra maneira. Por exemplo: «A Organização Mundial de Saúde recomendou ontem aos países africanos que destinassem no mínimo 2 % dos recursos nacionais para a saúde.»

Recursos

Filologia

Está disponível, em linha, a Tonos Digital, que é uma revista electrónica de estudos filológicos. Ver aqui.

Um País Errado (1)

Em Estoi — Marta Santos © 2008

De lés a lés


Inicio hoje uma nova rubrica, «Um País Errado»: fotografias, da autoria de Marta Santos, de anúncios, avisos e todo o tipo de escritos que se podem ver pelo País fora que contêm erros ortográficos, sintácticos e outros. Não é uma mera brincadeira, antes uma chamada de atenção para a forma como se escreve.
Corrija: «Não lavar as betoneiras em frente do portão. Obrigado.»

«Água-ardente»

Mais água-ardente

Na posse de mais dados, rectifico o que afirmei acerca da variante «água-ardente»: a professora não disse que a forma não existe, mas que não está correcta. O que, repondo os exactos termos em que as coisas ocorreram, me parece mais grave. Ora, como é que se afere se um vocábulo está correcto? Analisando-o e consultando obras de referência. Já aqui referi que a variante justaposta, «água-ardente», está registada no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves. Hoje, mostro que também o Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, publicado em 1947, que constitui o «inventário das palavras básicas da Língua e o prontuário das alterações da escrita portuguesa consequentes» do Acordo Ortográfico de 1945, a regista. Podemos ler na página 16, 2.ª coluna, da referida obra: «água-ardente». Será sensato ou inteligente continuar a fazer finca-pé que esta forma não está correcta? Não me parece.

Valores do futuro do indicativo

Verbalizar

A propósito da publicidade ao mais recente livro de Margarida Rebelo Pinto, escrevi aqui ontem: «A pontuação da frase está incorrecta, e, para quem pretende ler o “romance inesquecível”, será bom que o revisor da obra tenha sido outro.» Um leitor simpático e sensato, como nem todos são, mandou o seguinte comentário: «Por favor, rectifique o seu lapso: “será bom que o revisor da obra tenha sido outro”. Claro que o correcto será “seria bom que o revisor da obra tivesse sido outro”.»
O futuro e o condicional têm, em português, grandes afinidades. O futuro do indicativo («será») tem também um valor modal. Como se pode ler Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, «o futuro do presente pode ainda exprimir [...] em lugar do presente, incerteza ou idéia aproximada, simples possibilidade ou asseveração modesta» (p. 279). Na minha frase, eu não sei se o revisor foi o mesmo, o que manifesto através do futuro do indicativo. Não anda longe do moderno uso jornalístico deste tempo: «Segundo as autoridades, o gangue terá assaltado oito gasolineiras nas últimas duas semanas pelo mesmo método.» Digamos que é um tempo «desresponsabilizador»: o facto reporta-se ao passado, mas o jornalista não sabe se foi assim ou não. Um pouco diferente de: «Segundo as autoridades, o gangue teria assaltado oito gasolineiras nas últimas duas semanas pelo mesmo método.»

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