Puro-sangue/puros-sangues

Falemos de cavalos

      «A Festa do Cavalo vai animar a Moita entre 3 e 6 de Julho. Estão previstos concursos de saltos, passeios de charrete, campeonato de equitação no trabalho, horse paper, espectáculo com a charanga a cavalo da GNR, campeonato de puro-sangues e concurso de traje à portuguesa» («Festa do Cavalo na Moita», Global, 26.6.2008, p. 3). O Dicionário Houaiss regista, tanto para o adjectivo como para o substantivo, o plural «puros-sangues», tal como regista «surdos-mudos».

Pontuação

Português suave

Numa falsa capa publicitária ao gratuito Global, a Oficina do Livro anunciou o novo romance de Margarida Rebelo Pinto, Português Suave. A editora faz um convite ao leitor: «Leia aqui em primeira mão, um excerto do 1º capítulo». A pontuação da frase está incorrecta, e, para quem pretende ler o «romance inesquecível», será bom que o revisor da obra tenha sido outro.
A vírgula (é isto que vou lembrar no sábado) nunca deve ser usada entre os elementos principais de uma oração, como é o caso do sujeito, predicado, complemento directo, complemento indirecto, predicativo do sujeito e predicativo do complemento directo, quando estes se encontrem seguidos. No caso, temos predicado (com sujeito nulo subentendido) e complemento directo posposto, como é normal na frase-tipo portuguesa. Acrescentou-se, porém, alguma circunstância: «aqui» e «em primeira mão». Assim, a introdução destas circunstâncias obriga a usar mais uma vírgula ou a não usar nenhuma: «Leia aqui, em primeira mão, um excerto do 1.º capítulo» ou «Leia aqui em primeira mão um excerto do 1.º capítulo». Faltou, claro, o ponto característico dos numerais ordinais, mas, em contrapartida, não escreveram «primeira-mão», como agora se vê tanto. Nem tudo está perdido.

Guerra Fria

Escaramuças

Cara Luísa Pinto: diga ao seu colega (se não teme ser frontal ou se prevê que ele não será um dia seu superior hierárquico) que está a ver mal as coisas. Em «Guerra Fria» não há nenhuma «unidade lexicalizada». O caso fica abrangido, isso sim, pelo uso da maiúscula inicial nas designações de factos históricos ou acontecimentos importantes e de actos ou empreendimentos públicos: Descobrimentos, Guerra Peninsular, Reforma, Renascimento, Restauração, Invasões Francesas, Segunda Guerra Mundial, Concordata, etc. Logo, Guerra Fria. Sim, lê-se de tudo: «guerra-fria», «guerra fria», «Guerra-fria». Quando deviam, não copiam do inglês: Cold War.

Lâmpada «LED», «led» ou «lede»?


Faz-se luz

      «O recurso às lâmpadas “ledes” nos moldes adequados levaria à poupança de 47,2 milhões de quilowatts/hora por ano, quase a energia consumida num concelho como o de Bragança, que tem cerca de 35 mil habitantes» («Lâmpadas “led” poupam 5,6 milhões de euros/ano», Meia Hora, 25.6.2008, p. 9).
      No mesmo texto escrever-se «led» e «ledes»? Há outras variantes, é verdade, e felizmente quiseram poupar-nos. Mas temos aqui um problema. Para já, mantemos a palavra como acrónimo, LED, ou não? Porque é, originalmente, um acrónimo do inglês Light Emitting Diode, ou Diodo Emissor de Luz. Podemos, de facto, passar a escrever «led», e já não será um acrónimo. Como substantivo comum que passará a ser, tem flexão. Ora, apesar de poucas, temos palavras acabadas em d: David, Madrid… Como podemos referir-nos a Pedros, também podemos referir-nos a Davides. Assim, o plural de led seria ledes. A minha previsão é a de que a vulgarização deste tipo de lâmpada nos obrigará a afeiçoar a palavra à nossa língua, pelo que «lede»/«ledes» poderá ser a forma predominante. De qualquer modo, tudo menos o plural LEDs. Pensem na transformação que o acrónimo SIDA, que referi aqui há pouco, sofreu.

Descriminar e discriminar

Todos sabem

      Foi prefeito da Congregação da Doutrina da Fé? Perfeito. Descriminar a marijuana? Porquê discriminar esta de outras drogas? Claro, são parónimos, e toda a gente sabe. Ainda assim, falo sempre nas possíveis confusões, porque há pessoas que sabem mas se enganam, ou não? Muito reveladores, esses sorrisinhos entendidos…
      «Contudo, passados estes anos e ganhos tantos avanços, a mulher em Portugal continua a ser descriminada» («Mulher continua a ser descriminada», António Manuel Pinho, Conversas de Café, n.º 38, 20.6.2008, p. 3). Neste caso, foi o próprio director do jornal a dar o erro. Segundo a ficha técnica, a publicação não tem revisor. Preferem pagar a um cão: «É o novo companheiro de redacção. Snooky, um animal entre o podengo e o rafeiro, torna este jornal o único do Mundo que tem um cão cronista.»

«Água-ardente» e «aguardente»

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Aulas de substituição

O caso que a seguir relato aconteceu no Porto e foi-me contado por uma leitora. Uma professora substituta do 6.º ano de escolaridade afirmou categoricamente, numa aula de Português, que a grafia «água-ardente» não existe. Já estamos habituados a estas atitudes: quanto menos se sabe, mais categórico se é. Será que esta professora alguma vez ouviu falar de Rebelo Gonçalves e do Vocabulário da Língua Portuguesa, publicado em 1967? Ou conhece a importância desta obra e a própria obra e esqueceu-se do que se lê na terceira coluna da página 42 e na primeira da página 43? Deve ser isso, mas eu relembro-a: «água-ardente, s. f. Var.: aguardente (àguar). Pl.: águas-ardentes.» Contudo, como decerto é adepta da dúvida metódica, publico também uma imagem da página 42.
Como, no limite, os professores de substituição podem ser docentes de outras disciplinas, imagino quantos disparates vão pelo País fora. Seria preferível mandarem os alunos para o recreio, em contacto com a Natureza. Ou para uma biblioteca, onde pudessem consultar estas obras que os professores não tiveram tempo de ler.

Livros

Olisipografia

Desde Abril que o Gabinete de Estudos Olisiponenses, com sede no Palácio do Beau Séjour, na Estrada de Benfica, disponibiliza na sua página na Internet um livro, que se pode descarregar em formato PDF, por mês. Os livros são, naturalmente, sobre olisipografia.

Selecção vocabular

Maçaricos

«Em condições normais, fracassadas as tentativas de localizar um foragido em Portugal, o Tribunal envia um mandado de captura para a Interpol portuguesa, sedeada no quartel-general da PJ, na Gomes Freire, que depois de verificar a não existência de erros se encarrega de o difundir na base de dados da Interpol internacional» («Mandado para Vale ainda não chegou a Londres», André Rito, Metro, 24.6.2008, p. 3). Nunca antes vi a sede da Polícia Judiciária referida como «quartel-general». Um quartel-general não é uma instalação militar? Peço aos meus leitores que sejam ou tenham sido militares ou polícias que contribuam com achegas para esclarecer esta questão.

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