Detenção e apreensão

Era o que faltava

Na primeira página da edição de hoje do Metro, pode ler-se que «a PJ revelou ontem uma nova detenção de fenproprorex, substância ilícita e perigosa que inibe o apetite». Tanto quanto sei, as pessoas são detidas e os bens apreendidos. Já é suficientemente mau que os operadores judiciários falem em «mandados» (como ainda ontem, a propósito de Vale e Azevedo), e os jornalistas digam que são «mandatos». Estão sempre com a cabeça no futebol e na política.

Uso do itálico

Nem eles sabem

A incoerência é uma coisa muito triste. Não há uma única vez em que o jornal Meia Hora não grafe em itálico o vocábulo «Knesset». Ao mesmo tempo, nunca grafa em itálico o vocábulo «Duma». Qual é o critério, podemos saber? Não são ambos nomes de instituições, parlamentos? «O Presidente francês pediu ontem no Knesset (parlamento israelita) para Israel “correr riscos pela paz”, referindo a aprovação de uma lei, por parte de “vários deputados”, que estimularia a saída dos colonos da Cisjordânia, “através da compensação e realojamento em Israel”» («Sarkozy pede “riscos pela paz” na região», Meia Hora, 24.3.2008, p. 8). Mas: «O Rússia Unida tem maioria no Parlamento (Duma) e criou recentemente o cargo de “presidente” especialmente para o entregar a Vladimir Putin» («Putin aceita presidir ao partido mais poderoso», Meia Hora, 16.4.2008, p. 9).

À custa de, outra vez

Lord have mercy!


      O líder da Comunhão Anglicana, Rowan Williams, arcebispo de Cantuária (topónimo que, felizmente, caiu nas boas graças dos jornalistas, que nunca usam Canterbury), está a ser criticado na Conferência Global para o Futuro Anglicano (GAFCON), a decorrer em Jerusalém. O Meia Hora dá alguns pormenores: «Os líderes africanos acusaram ainda Williams de “incapacidade” de unir os anglicanos e de adulterar a Bíblia. Num folheto dado aos conferencistas lia-se: “Queremos união, mas não às custas de reescrever a Bíblia para satisfazer as mais recentes modas culturais”» («Casamento gay ameaça cisão», Margarida Caseiro, Meia Hora, 24.3.2008, p. 7).
      Se o comunicado estivesse escrito em português, não valia a pena dizer nada. A culpa seria dos conferencistas. Assim, diga-se que «às custas» está errado. Deve dizer-se «à custa de». Custas só as judiciais. Lia-se no referido folheto: «We earnestly desire the healing of our beloved Communion, but not at the cost of re-writing the Bible to accommodate the latest cultural trend.» Até o pior dicionário inglês-português regista que a locução at the cost of se traduz pela locução prepositiva «à custa de», já registada em 1712 no Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau. Só no plural, costs, o vocábulo (e não já a locução) se refere ao Direito e, logo, terá como tradução «custas». Dois exemplos de uso deste dicionário: «Fizerão as suas exequias à custa do Publico» e «Se anda elle cheyroso, he à minha custa.»


Uso das aspas

Sem razão

Fico sempre perplexo quando vejo os jornalistas usarem aspas (ou plicas, como é, erradamente, o caso em apreço) em vocábulos menos usuais ou populares. É algum cordão sanitário? «José Marques Escada, também conhecido por Ti Zé Marques, um dos últimos tosquiadores de ovelhas da região da Guarda, já só faz tosquias “para matar o tempo” e por “gostar da arte”. […] O processo de tosquia começa com a separação do exemplar do resto do rebanho. O animal é dominado pelo método do ‘apernar’ [,] que consiste em colocar uma cinta de couro em redor das quatro patas para não se mexer e poder ser tosquiado» («Tosquiador de ovelhas ainda usa a tradicional tesoura manual», António Sá Rodrigues, Global, 23.6.2008, p. 10). Segundo registam muitos dicionários, apernar é prender um animal pelas pernas, que é o mesmo que pear.

Topónimo: Mindanau

De certeza?


      O tufão Fengshen fez estragos nas Filipinas e na ortografia portuguesa: «O gabinete da Protecção Civil filipina registou 26 mortos na ilha de Mindanao (Sul). “Este balanço vai aumentar muito quando dispusermos da lista de vítimas entre os passageiros do ferry”, sublinhou o presidente da Cruz Vermelha» («Tufão causou centenas de mortos», Global/Jornal de Notícias, 23.6.2008, p. 15). Ora, tanto quanto sei, há muito tempo que se escreve Mindanau, não há qualquer necessidade de macaquear o inglês. Já temos sorte que não escrevam «Philippines» ou «typhoon», não é?

Uso da maiúscula inicial

Sim, não, talvez

É quase fatal: nove em cada dez vezes que escrevem «sim» ou «não» a propósito de resultados de referendos ou eleições, os jornalistas grafam aquelas palavras com maiúscula inicial. E porquê? É um mistério. Não o tendo feito na notícia que cito a seguir, o Meia Hora está, pelo menos por isto, de parabéns. «A população de Tarija pronunciou-se ontem em referendo quanto à autonomia da pequena região boliviana, embora uma das mais ricas deste país sul-americano. Tal como nos anteriores referendos autonómicos, que se realizaram em Santa Cruz, Beni e Pando, também o “sim” à autonomia perante o Governo central do Presidente Evo Morales deverá vencer, segundo as primeiras projecções de ontem, à boca das urnas» («Tarija deverá dizer “sim” à autonomia», 23.6.2008, p. 8).

Verbo haver

Hão coisas terríveis

      No serviço noticioso da Antena 1, às 13 horas, tive a desdita de ouvir o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, afirmar que «vão haver» não sei o quê. Não ouvi o resto. Acho que vou emigrar com o verbo «pôr». O meu será um exílio voluntário.

Uso dos numerais ordinais

Sem afinidades electivas

      A propósito de coisas ridículas e da afinidade, lembrei-me de quão risível é ouvir os primeiranistas (e, às vezes, os quintanistas) de Direito usarem numerais ordinais em referência a números de artigos do Código Civil e de outras leis superiores a dez. «A cessação da afinidade», dizem eles, «está consignada no artigo milésimo quingentésimo octogésimo quinto.» Não seria melhor, mais inteligente, reservar os neurónios para tarefas mais úteis? E, sobretudo, pergunto, que lhes aconteceu no ensino básico?

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