Uso da maiúscula inicial

Já era

Mesmo que eu concordasse, e não concordo, que se use maiúscula inicial em nomes como «presidente», «rei», «primeiro-ministro», e outros, para expressar grande deferência, acho um pouco desassisado que se use para ex-titulares. Acabo de ler no Meia Hora: «Após ter acusado sexta-feira a União Europeia de “hipocrisia” nas suas políticas em relação a Cuba, o antigo Presidente e líder histórico da ilha, Fidel Castro, escreveu ontem um artigo em que desmente haver “lutas internas” ou apoiar “alguma facção”, no Partido Comunista cubano» («Fidel desmente cisões no partido», Meia Hora, 23.6.2008, p. 7). Neste caso concreto, acho que só mudaria de opinião se tivesse de ir a Cuba para ser submetido a uma cirurgia oftalmológica. Contudo, como subitamente e como que por milagre o problema foi resolvido, nada me convence.
Agora a sério. Já viram, ó senhores jornalistas, como é ridículo escrever-se «antigo Presidente»? Até parece que aqui a «grande deferência» não cessa, como a dissolução do casamento não leva à cessação da afinidade. Uma vez sogra, sogra toda a vida. Uma vez «Presidente», presidente toda a vida. Dantes só se ouvia uma vez p… Chega. Já perceberam.

Verbos «colocar» e «pôr»


Outros perigos

O verbo «colocar», esse fura-vidas (ou hustler, para os anglófonos…), continua a sua gloriosa ascensão na língua portuguesa, tendo já conseguido escorraçar o verbo «pôr» da frequência da melhor sociedade. O verbo «pôr» pondera mesmo emigrar ou retirar-se para a província. («Só por causa do que as galinhas têm de fazer com os ovos», afirma com ironia. «Se no Palácio de São Bento ainda se criassem galinhas para vender os ovos ao Hotel Aviz, ficava em Lisboa. Assim, nada feito!») «Para “não colocar em perigo a vida dos apoiantes”, o líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) anunciou ontem a sua desistência à corrida da presidência, cuja segunda volta está agendada para esta sexta-feira» («Violência leva rival de Mugabe a sair da eleição», Margarida Caseiro, Meia Hora, 23.6.2008, p. 7).

Efeito de estufa

Com efeito!

Há um fenómeno que é o «efeito (de) estufa», não é assim? Muito bem. E há gases associados a este fenómeno, não é? Estabelecido isto, passemos a determinar se são os gases que causam o fenómeno ou se, pelo contrário, é o fenómeno que origina os gases.
O que os especialistas em climatologia afirmam é que certos gases, como o dióxido de carbono, o metano, o óxido de diazoto, o hexafluoreto de enxofre, o hidrofluorcarboneto, entre outros, criam uma espécie de cobertura, como a de uma estufa, sobre a Terra, deixando entrar a luz solar e impedindo a saída do calor. Uma estufa gigantesca, pois. São os gases, então, que criam o fenómeno, que por isso mesmo se designa por «efeito de estufa». E finalmente, «gases com efeito de estufa» ou «gases de efeito de estufa»?
É verdade que tanto a preposição «de» como a preposição «com» relacionam por subordinação, mas sempre lemos e escrevemos: «detergente com efeito ambientador», «ténis com efeito calmante», «chás com efeito relaxante», «casamento religioso com efeito civil», «plantas com efeitos medicinais», «agravos com efeitos suspensivos», «fármacos com efeito secundário» (quase todos)… Todavia, ultimamente, começou a aparecer muito a expressão «gases de efeito de estufa». Até pela repetição da preposição «de» se deveria evitar. «De acordo com a autarquia, a iniciativa pretende contribuir para a “beneficiação ambiental, através da redução de gases de efeito de estufa”» («Protocolo permite plantar 16 mil árvores em Loures», Meia Hora, 23.6.2008, p. 6).

Formação


Oficina de Pontuação


      Ainda há vagas para este curso intensivo de pontuação, que irei orientar na Booktailors no dia 28 (último sábado) deste mês. Trata-se de um curso intensivo, eminentemente prático, mas fortemente ancorado nas regras da gramática. Darei umas breves indicações de como era a pontuação dos Gregos, dos Romanos, na Idade Média, depois da invenção da imprensa e na escrita moderna. Não deixarei de abordar, naturalmente, pela sua singularidade, a virgulação de José Saramago. Com abundantes exemplos e exercícios. Inscrições aqui.

Uso do latim

Nikkeis nos câmpus

      Em visita oficial ao Brasil, o príncipe-herdeiro do Japão, Naruhito, discursou em português perante os docentes e os estudantes da Universidade de São Paulo (USP), noticia o Jornal do Brasil de hoje. A reitora da universidade, Suely Vilela, que falou em inglês a pedido do protocolo do representante da Casa Imperial, revelou que 14 % dos alunos da USP e 8 % dos professores são nikkeis. Esta é a designação para os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão, tal como os isseis são os imigrantes japoneses, os nisseis os filhos desses imigrantes, os sanseis os netos, etc. Não é sobre isso, especificamente, que quero falar, mas de algo diferente. Diz ainda a notícia: «A platéia, formada por estudantes e docentes de diversos campi da universidade, se reuniu na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (centro de São Paulo), e ouviu num português claro e praticamente sem sotaque o agradecimento do príncipe» («Príncipe surpreende e discursa em português», Jornal do Brasil, 21.6.2008, p. A7). Uma pergunta que se impõe é: faz algum sentido que se use, sem qualquer destaque, o plural latino campi, quando este e outros jornais brasileiros adoptam profusamente aportuguesamentos de estrangeirismos?
      Há um parecer sobre o uso de campi da Universidade José do Rosário Vellano* que, em resumo, diz que no vernáculo português, a terminação ―i não é marca de plural; não ocorre um único caso que justifique a forma; aparece como desinência verbal, jamais como nominal; contraria, pois, o sistema da língua e o seu génio; o caso latino lexicogénico para o português é o acusativo, que, em nomes masculinos e femininos, termina, no plural, em ―s, desinência que se consagrou como marca do plural única, absoluta, a ponto de impor-se aos nomes neutros incorporados na língua; os substantivos anoxítonos terminados em ―s são invariáveis no plural (ex. os pires, os lápis, os ónibus), caso típico de «câmpus»; na língua inglesa, que introduziu o termo como denotativo de estrutura imobiliária universitária, o plural em i ocorre em escassos casos (genii, nuclei, alumni, etc.) por influência de correntes eruditas, tão escassos que o próprio idioma inglês, acomodando a forma do plural ao seu vernáculo, regista campuses com muito maior frequência do que campi. Conclui afirmando que «não se justifica, pois, que, no Brasil, para parecermos bons latinistas, usemos o barbarismo campi».

* Universidade que tem um serviço de Telegramática com algum interesse.

Portatilidade

Portátil… idade

A leitora Ana Martins pretende saber se deve continuar a usar o termo «portatilidade», tal como lhe foi aconselhado oportunamente pelo Ciberdúvidas, ou se deve optar por «portabilidade». No fundo, dá a resposta à própria pergunta, pois para usar o termo «portatilidade» encontra uma razão, que é a «lógica» na formação da palavra (portátil+idade), e para não usar apenas acha o «fazer alguma confusão» entre os colegas. Entre a resposta dada pelo consultor do Ciberdúvidas, José Neves Henriques, em 1999, e a actualidade algo aconteceu: temos, pelo menos, o Dicionário Houaiss a acolher a forma «portabilidade», cópia servil do inglês portability. Mas é como diz o Prof. Cláudio Moreno: «Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade.» É verdade que no âmbito da informática, das telecomunicações e até mesmo da gestão («portabilidade dos benefícios») o termo largamente usado é «portabilidade», mas só nos fica bem continuar a utilizar o ainda residual mas vernáculo portatilidade e a forma haplológica portalidade.

Léxico: «tiralô»


¡Tíralo fuera!

«Até agora, já usufruíram gratuitamente do “Praia Acessível a Todos” 552 banhistas, que puderam banhar-se com a ajuda dos tiralôs — as cadeiras de rodas de praia que possibilitam a deslocação na areia e o acesso ao mar, sempre com o acompanhamento de monitores» («Duas praias mais acessíveis», Global/Diário de Notícias, 18.6.2008, p. 4). Aí está o vocábulo e a definição. Já tinha visto, é verdade, e não sabia o nome. Só não publico a fotografia de um tiralô (mas vejam aqui) porque algo mais importante está em causa. Numa pesquisa na Internet, ocorre muito mais vezes a variante «tiraló». Ora, neste cartaz o ô aparece graficamente realçado. Até prova em contrário, para mim, que ignoro a etimologia, é tiralô.

Recursos

Desta é que é

VIH, VIH+, VIH–, VIH–1, VIH–2… Parece que foi ontem, tão célere corre o tempo, a discussão sobre se deveríamos usar «sidótico» ou «aidético». O tempo mostrou que, pelo menos para nós, eram ambas desnecessárias. Muita coisa, entretanto, há a fazer. Por exemplo, ainda não entrou na cabeça de toda a gente que a sigla de vírus da imunodeficiência humana é VIH e não HIV (que é a sigla de Human Immunodeficiency Virus). Que já não se tem de usar como acrónimo, SIDA, nem é um nome próprio, Sida, nem é do género masculino, o sida. Está substantivado, deve usar-se apenas sida. E VIH/sida. Não vou aqui historiar o uso do acrónimo SIDA e sucessivas metamorfoses, até porque esse trabalho já está feito e bem por Cristina Ponte em «A cobertura de epidemias na imprensa portuguesa. O caso da Sida» (ver aqui, na Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação). O que eu queria divulgar, contudo, é a Terminologia de la sida en línia, uma recolha de mais de 500 termos relativos à sida, em catalão, espanhol, francês e inglês.

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