Uso do latim

Nikkeis nos câmpus

      Em visita oficial ao Brasil, o príncipe-herdeiro do Japão, Naruhito, discursou em português perante os docentes e os estudantes da Universidade de São Paulo (USP), noticia o Jornal do Brasil de hoje. A reitora da universidade, Suely Vilela, que falou em inglês a pedido do protocolo do representante da Casa Imperial, revelou que 14 % dos alunos da USP e 8 % dos professores são nikkeis. Esta é a designação para os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão, tal como os isseis são os imigrantes japoneses, os nisseis os filhos desses imigrantes, os sanseis os netos, etc. Não é sobre isso, especificamente, que quero falar, mas de algo diferente. Diz ainda a notícia: «A platéia, formada por estudantes e docentes de diversos campi da universidade, se reuniu na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (centro de São Paulo), e ouviu num português claro e praticamente sem sotaque o agradecimento do príncipe» («Príncipe surpreende e discursa em português», Jornal do Brasil, 21.6.2008, p. A7). Uma pergunta que se impõe é: faz algum sentido que se use, sem qualquer destaque, o plural latino campi, quando este e outros jornais brasileiros adoptam profusamente aportuguesamentos de estrangeirismos?
      Há um parecer sobre o uso de campi da Universidade José do Rosário Vellano* que, em resumo, diz que no vernáculo português, a terminação ―i não é marca de plural; não ocorre um único caso que justifique a forma; aparece como desinência verbal, jamais como nominal; contraria, pois, o sistema da língua e o seu génio; o caso latino lexicogénico para o português é o acusativo, que, em nomes masculinos e femininos, termina, no plural, em ―s, desinência que se consagrou como marca do plural única, absoluta, a ponto de impor-se aos nomes neutros incorporados na língua; os substantivos anoxítonos terminados em ―s são invariáveis no plural (ex. os pires, os lápis, os ónibus), caso típico de «câmpus»; na língua inglesa, que introduziu o termo como denotativo de estrutura imobiliária universitária, o plural em i ocorre em escassos casos (genii, nuclei, alumni, etc.) por influência de correntes eruditas, tão escassos que o próprio idioma inglês, acomodando a forma do plural ao seu vernáculo, regista campuses com muito maior frequência do que campi. Conclui afirmando que «não se justifica, pois, que, no Brasil, para parecermos bons latinistas, usemos o barbarismo campi».

* Universidade que tem um serviço de Telegramática com algum interesse.

Portatilidade

Portátil… idade

A leitora Ana Martins pretende saber se deve continuar a usar o termo «portatilidade», tal como lhe foi aconselhado oportunamente pelo Ciberdúvidas, ou se deve optar por «portabilidade». No fundo, dá a resposta à própria pergunta, pois para usar o termo «portatilidade» encontra uma razão, que é a «lógica» na formação da palavra (portátil+idade), e para não usar apenas acha o «fazer alguma confusão» entre os colegas. Entre a resposta dada pelo consultor do Ciberdúvidas, José Neves Henriques, em 1999, e a actualidade algo aconteceu: temos, pelo menos, o Dicionário Houaiss a acolher a forma «portabilidade», cópia servil do inglês portability. Mas é como diz o Prof. Cláudio Moreno: «Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade.» É verdade que no âmbito da informática, das telecomunicações e até mesmo da gestão («portabilidade dos benefícios») o termo largamente usado é «portabilidade», mas só nos fica bem continuar a utilizar o ainda residual mas vernáculo portatilidade e a forma haplológica portalidade.

Léxico: «tiralô»


¡Tíralo fuera!

«Até agora, já usufruíram gratuitamente do “Praia Acessível a Todos” 552 banhistas, que puderam banhar-se com a ajuda dos tiralôs — as cadeiras de rodas de praia que possibilitam a deslocação na areia e o acesso ao mar, sempre com o acompanhamento de monitores» («Duas praias mais acessíveis», Global/Diário de Notícias, 18.6.2008, p. 4). Aí está o vocábulo e a definição. Já tinha visto, é verdade, e não sabia o nome. Só não publico a fotografia de um tiralô (mas vejam aqui) porque algo mais importante está em causa. Numa pesquisa na Internet, ocorre muito mais vezes a variante «tiraló». Ora, neste cartaz o ô aparece graficamente realçado. Até prova em contrário, para mim, que ignoro a etimologia, é tiralô.

Recursos

Desta é que é

VIH, VIH+, VIH–, VIH–1, VIH–2… Parece que foi ontem, tão célere corre o tempo, a discussão sobre se deveríamos usar «sidótico» ou «aidético». O tempo mostrou que, pelo menos para nós, eram ambas desnecessárias. Muita coisa, entretanto, há a fazer. Por exemplo, ainda não entrou na cabeça de toda a gente que a sigla de vírus da imunodeficiência humana é VIH e não HIV (que é a sigla de Human Immunodeficiency Virus). Que já não se tem de usar como acrónimo, SIDA, nem é um nome próprio, Sida, nem é do género masculino, o sida. Está substantivado, deve usar-se apenas sida. E VIH/sida. Não vou aqui historiar o uso do acrónimo SIDA e sucessivas metamorfoses, até porque esse trabalho já está feito e bem por Cristina Ponte em «A cobertura de epidemias na imprensa portuguesa. O caso da Sida» (ver aqui, na Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação). O que eu queria divulgar, contudo, é a Terminologia de la sida en línia, uma recolha de mais de 500 termos relativos à sida, em catalão, espanhol, francês e inglês.

Pronúncia: «estádio»

Por exemplo

Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina, talvez por ter sido ministra da Saúde, deturpa algumas palavras como os médicos. Diz, por exemplo, «estadio» em vez de «estádio», como ainda hoje de manhã fez aos microfones da TSF. «Estadio» simplesmente não existe. Se eu fosse dialogue coach dela (o profissional que ajuda actores a treinar a dicção e as inflexões adequadas à personagem que desempenham), dir-lhe-ia que é um erro. Como não sou, digo-lho na mesma. Sem cobrar honorários.

Género de «tesão»


Palavras erectas


      Esta noite sonhei com Veronica Lake. Como este não é, contudo, um blogue confessional, género de que nem sou leitor, quanto mais fazedor, não vou avançar nem mais um milímetro na narração onírica. Em vez disso, vou centrar-me noutra questão. Mas também mete, animem-se!, sexo — o sexo das palavras, o género. Não há praticamente semana em que não leia a palavra «ênfase» usada como se fosse do género masculino. Para aquelas criaturas permissivas que falam da legitimidade trazida pelo uso, breve ou longo, localizado ou estendido, a palavra já há-de ser de ambos os géneros, aposto. Não para mim. Nos últimos tempos, outra palavra me tem aparecido travestida: «tesão». Com vossa licença. É comprovadamente de um só género, e não é o feminino, mas sim masculino. É, com a palavra «tensão», divergente do latim tensiōne. Duplamente divergente: na acepção e no género. O tesão, pois.

Recursos

Siglas médicas

Sobretudo para tradutores, está disponível em espanhol o Diccionario de siglas médicas y otras abreviaturas, epónimos y términos médicos relacionados con la codificación de las altas hospitalarias. Pode descarregar o PDF aqui. Sabe-se lá quando pode vir a ser útil, não é?

Léxico: «fedora»

Imagem: http://images.usatoday.com/

Há muitos


No regresso triunfal de Sarah Bernhardt aos palcos de Paris, a actriz desempenhou o papel de princesa Fedora Romazoff no drama Fédora, escrito em 1882, propositadamente para ela, pelo dramaturgo Victorien Sardou (1831-1908). Nesta peça, a actriz usava um chapéu de feltro com concavidades na parte superior e na frente. Nascia o chapéu fedora. Mais tarde, este modelo de chapéu seria usado tanto por homens como por mulheres. Eduardo VIII, Humphrey Bogart, Indiana Jones, Frank Sinatra, Dick Tracy, Clark Kent… Assim, se no original inglês aparece «he wore a fedora», quero, como leitor, que a tradução não fique por «usava um chapéu».

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