Pronúncia: «estádio»

Por exemplo

Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina, talvez por ter sido ministra da Saúde, deturpa algumas palavras como os médicos. Diz, por exemplo, «estadio» em vez de «estádio», como ainda hoje de manhã fez aos microfones da TSF. «Estadio» simplesmente não existe. Se eu fosse dialogue coach dela (o profissional que ajuda actores a treinar a dicção e as inflexões adequadas à personagem que desempenham), dir-lhe-ia que é um erro. Como não sou, digo-lho na mesma. Sem cobrar honorários.

Género de «tesão»


Palavras erectas


      Esta noite sonhei com Veronica Lake. Como este não é, contudo, um blogue confessional, género de que nem sou leitor, quanto mais fazedor, não vou avançar nem mais um milímetro na narração onírica. Em vez disso, vou centrar-me noutra questão. Mas também mete, animem-se!, sexo — o sexo das palavras, o género. Não há praticamente semana em que não leia a palavra «ênfase» usada como se fosse do género masculino. Para aquelas criaturas permissivas que falam da legitimidade trazida pelo uso, breve ou longo, localizado ou estendido, a palavra já há-de ser de ambos os géneros, aposto. Não para mim. Nos últimos tempos, outra palavra me tem aparecido travestida: «tesão». Com vossa licença. É comprovadamente de um só género, e não é o feminino, mas sim masculino. É, com a palavra «tensão», divergente do latim tensiōne. Duplamente divergente: na acepção e no género. O tesão, pois.

Recursos

Siglas médicas

Sobretudo para tradutores, está disponível em espanhol o Diccionario de siglas médicas y otras abreviaturas, epónimos y términos médicos relacionados con la codificación de las altas hospitalarias. Pode descarregar o PDF aqui. Sabe-se lá quando pode vir a ser útil, não é?

Léxico: «fedora»

Imagem: http://images.usatoday.com/

Há muitos


No regresso triunfal de Sarah Bernhardt aos palcos de Paris, a actriz desempenhou o papel de princesa Fedora Romazoff no drama Fédora, escrito em 1882, propositadamente para ela, pelo dramaturgo Victorien Sardou (1831-1908). Nesta peça, a actriz usava um chapéu de feltro com concavidades na parte superior e na frente. Nascia o chapéu fedora. Mais tarde, este modelo de chapéu seria usado tanto por homens como por mulheres. Eduardo VIII, Humphrey Bogart, Indiana Jones, Frank Sinatra, Dick Tracy, Clark Kent… Assim, se no original inglês aparece «he wore a fedora», quero, como leitor, que a tradução não fique por «usava um chapéu».

Pronúncia: «Saragoça»

Ouçam e falem depois

       Tem sido notícia nos últimos dias que os Portugueses que irão visitar a Expo 2008, em Saragoça, a decorrer entre 13 de Junho e 14 de Setembro, não serão muitos. Andamos distraídos, preocupados, absorvidos por outros assuntos. A vantagem (há sempre vantagens e desvantagens) é que não vamos ouvir tantas vezes na rádio e na televisão, e por aí, nas ruas, o topónimo mal pronunciado: /Saragóça/. Há mais de trinta anos que eu ouço pronunciar, e bem, /Saragôça/. Vá lá, não inventem o que já foi inventado. O meu avô Manuel Maria, que não era filósofo mas feitor e comerciante, usava calças de saragoça (ora aqui está mais um exemplo de derivação imprópria, senhores professores), um tecido grosso de lã escura.

Erros e lapsos

É o nosso fado

«Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o Dia da Raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.»

Quando, há umas semanas, vários leitores me enviaram mensagens incitando-me a dizer alguma coisa sobre o lapsus linguæ de Cavaco Silva («nunca fiz, não faço nem nunca facerei»), não cedi, pois que se tratava disso mesmo, de um lapso de linguagem, que todos temos, ou não? Tanto mais que, ao que sei, o Presidente da República corrigiu de imediato a forma verbal. Com o «Dia da Raça», algo mais grave está em causa, e que é não se poder considerar um lapso, antes uma convicção pessoal. Convicção errada: não apenas essa designação é datada, do tempo do Estado Novo, como está cientificamente errada. Como afirmo tantas vezes em relação aos jornais, às televisões e às agências de comunicação, o Presidente da República devia ter a assessoria de um revisor. Uma fadista pode fazer falta na comitiva presidencial, mas não é o mesmo.

Classificação animal

O pirilampo mágico

Foi notícia em vários jornais a descoberta em Portugal de uma espécie de pirilampo até agora apenas conhecida em Espanha e França. O Global refere assim o caso: «A identificação deste [sic] espécie — Lamprohiza mulsanti Kieserwetter — foi feita a partir de “exemplares colhidos por um grupo de entomólogos no Parque Biológico de Gaia e noutras localidades do Norte de Portugal”, refere o parque» («Descoberta nova espécie de pirilampo», Global, 9.6.2008, p. 6). Não é nova, aqui no Assim Mesmo, a questão dos nomes científicos de animais e plantas, e sempre por maus motivos. Dois problemas, pelo menos: onde está o itálico a destacar a designação científica? Aquele último nome o que é?
Os primeiros nomes estão bem: porque são dois (o sistema de Lineu é binominal) e porque o primeiro começa com inicial maiúscula e o segundo com inicial minúscula. Muito bem, tanto mais que alguns jornalistas erram logo aqui. Temos então o nome do género (Lamprohiza) e o da espécie (mulsanti). E, repito, o terceiro o que é? Parece ser o nome de quem identificou. Se é, temos um problema, pois a notícia continua: «Esta espécie foi primeiramente classificada em 1850, por Ernest August Hellmuth von Kiesenwetter, um entomologista alemão cujas colecções encontram-se [sic] no Museu de História natural de Munique e no Staatliches Museum fur Tierkunde, em Dresden.» Kieserwetter ou Kiesenwetter, quem decide? Eu ajudo: Ernest August Hellmuth von Kiesenwetter (1820-1880), entomólogo alemão. Então, se o nome está tal qual (esqueçamos agora a gralha), não pode estar junto do género e da espécie. Se a designação do animal contivesse uma homenagem a Kiesenwetter, este nome tinha de sofrer uma transformação, porque, lembrem-se, a classificação é em latim. Assim, seria Lamprohiza mulsanti kieserwetteri. São muito perspicazes: o nome seria grafado com minúscula inicial e acrescentar-se-ia um i, porque é um homem. Se fosse uma mulher, acrescentar-se-ia æ: Lamprohiza mulsanti kieserwetteræ. Em trabalhos científicos, não num jornal, depois da classificação refere-se o nome de quem o descreveu pela primeira vez e a data entre parênteses: Lamprohiza mulsanti (Kiesenwetter, 1850).

Pronúncia: «líderes»

Abram!

Manuela Moura Guedes, no Jornal Nacional de sexta-feira, usou a palavra «líderes», e a pronúncia foi aquela a que já nos vamos habituando: /lídres/. Com o emudecimento completo, quase desaparecimento, na verdade, do e da segunda sílaba. A sílaba tónica, de facto, é a primeira, -lí-, mas a penúltima é acentuada, pois não há aqui nenhum fenómeno fonético como a metafonia. Basta lembrarmo-nos de palavras semelhantes, com a mesma vogal: cadáver(es), cárter(es), díspar(es), dólar(es), éter(es), repórter(es), revólver(es)… Como pronuncia Manuela Moura Guedes o plural destas palavras? Ora aí está. Uma jornalista tem obrigação de saber estas coisas sobre o seu instrumento de trabalho, a língua. Como vêem, não é preciso o Acordo Ortográfico para desvirtuar a língua.

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