Pronúncia: «Saragoça»

Ouçam e falem depois

       Tem sido notícia nos últimos dias que os Portugueses que irão visitar a Expo 2008, em Saragoça, a decorrer entre 13 de Junho e 14 de Setembro, não serão muitos. Andamos distraídos, preocupados, absorvidos por outros assuntos. A vantagem (há sempre vantagens e desvantagens) é que não vamos ouvir tantas vezes na rádio e na televisão, e por aí, nas ruas, o topónimo mal pronunciado: /Saragóça/. Há mais de trinta anos que eu ouço pronunciar, e bem, /Saragôça/. Vá lá, não inventem o que já foi inventado. O meu avô Manuel Maria, que não era filósofo mas feitor e comerciante, usava calças de saragoça (ora aqui está mais um exemplo de derivação imprópria, senhores professores), um tecido grosso de lã escura.

Erros e lapsos

É o nosso fado

«Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o Dia da Raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.»

Quando, há umas semanas, vários leitores me enviaram mensagens incitando-me a dizer alguma coisa sobre o lapsus linguæ de Cavaco Silva («nunca fiz, não faço nem nunca facerei»), não cedi, pois que se tratava disso mesmo, de um lapso de linguagem, que todos temos, ou não? Tanto mais que, ao que sei, o Presidente da República corrigiu de imediato a forma verbal. Com o «Dia da Raça», algo mais grave está em causa, e que é não se poder considerar um lapso, antes uma convicção pessoal. Convicção errada: não apenas essa designação é datada, do tempo do Estado Novo, como está cientificamente errada. Como afirmo tantas vezes em relação aos jornais, às televisões e às agências de comunicação, o Presidente da República devia ter a assessoria de um revisor. Uma fadista pode fazer falta na comitiva presidencial, mas não é o mesmo.

Classificação animal

O pirilampo mágico

Foi notícia em vários jornais a descoberta em Portugal de uma espécie de pirilampo até agora apenas conhecida em Espanha e França. O Global refere assim o caso: «A identificação deste [sic] espécie — Lamprohiza mulsanti Kieserwetter — foi feita a partir de “exemplares colhidos por um grupo de entomólogos no Parque Biológico de Gaia e noutras localidades do Norte de Portugal”, refere o parque» («Descoberta nova espécie de pirilampo», Global, 9.6.2008, p. 6). Não é nova, aqui no Assim Mesmo, a questão dos nomes científicos de animais e plantas, e sempre por maus motivos. Dois problemas, pelo menos: onde está o itálico a destacar a designação científica? Aquele último nome o que é?
Os primeiros nomes estão bem: porque são dois (o sistema de Lineu é binominal) e porque o primeiro começa com inicial maiúscula e o segundo com inicial minúscula. Muito bem, tanto mais que alguns jornalistas erram logo aqui. Temos então o nome do género (Lamprohiza) e o da espécie (mulsanti). E, repito, o terceiro o que é? Parece ser o nome de quem identificou. Se é, temos um problema, pois a notícia continua: «Esta espécie foi primeiramente classificada em 1850, por Ernest August Hellmuth von Kiesenwetter, um entomologista alemão cujas colecções encontram-se [sic] no Museu de História natural de Munique e no Staatliches Museum fur Tierkunde, em Dresden.» Kieserwetter ou Kiesenwetter, quem decide? Eu ajudo: Ernest August Hellmuth von Kiesenwetter (1820-1880), entomólogo alemão. Então, se o nome está tal qual (esqueçamos agora a gralha), não pode estar junto do género e da espécie. Se a designação do animal contivesse uma homenagem a Kiesenwetter, este nome tinha de sofrer uma transformação, porque, lembrem-se, a classificação é em latim. Assim, seria Lamprohiza mulsanti kieserwetteri. São muito perspicazes: o nome seria grafado com minúscula inicial e acrescentar-se-ia um i, porque é um homem. Se fosse uma mulher, acrescentar-se-ia æ: Lamprohiza mulsanti kieserwetteræ. Em trabalhos científicos, não num jornal, depois da classificação refere-se o nome de quem o descreveu pela primeira vez e a data entre parênteses: Lamprohiza mulsanti (Kiesenwetter, 1850).

Pronúncia: «líderes»

Abram!

Manuela Moura Guedes, no Jornal Nacional de sexta-feira, usou a palavra «líderes», e a pronúncia foi aquela a que já nos vamos habituando: /lídres/. Com o emudecimento completo, quase desaparecimento, na verdade, do e da segunda sílaba. A sílaba tónica, de facto, é a primeira, -lí-, mas a penúltima é acentuada, pois não há aqui nenhum fenómeno fonético como a metafonia. Basta lembrarmo-nos de palavras semelhantes, com a mesma vogal: cadáver(es), cárter(es), díspar(es), dólar(es), éter(es), repórter(es), revólver(es)… Como pronuncia Manuela Moura Guedes o plural destas palavras? Ora aí está. Uma jornalista tem obrigação de saber estas coisas sobre o seu instrumento de trabalho, a língua. Como vêem, não é preciso o Acordo Ortográfico para desvirtuar a língua.

Recursos

Dicionário de râguebi

Em catalão, temos em linha o Diccionari de rugbi, que recolhe 216 termos com a respectiva definição em catalão e os equivalentes em espanhol, francês e inglês. Os termos procedem do Diccionari general de l’esport, que o TERMCAT prevê publicar ainda este ano. Em português, tanto quanto sei, não há nada.

Nomes de personagens


Primeiro estranha-se

Não é exactamente como afirma, cara Luísa Pinto, pois há nomes de personagens de obras estrangeiras, livros e filmes, que foram adaptados ou traduzidos. De momento, apenas me recordo do Dr. Strangelove. Esta personagem, que pertence ao filme homónimo (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de 1964) de Stanley Kubrick, é mais conhecida em Portugal como Dr. Estranhoamor. (No Brasil, a personagem chama-se Doutor Fantástico, tal como o filme.) Neste caso, como os nomes são também inventados na língua original, acho bem que sejam traduzidos ou adaptados, desde que se encontre, como foi o caso, um equivalente eufónico. Neste filme, de resto, muitas das personagens tinham nomes assim construídos: general Jack D. Ripper, embaixador de Sadesky, general Turgidson...

Elemento «mega-»


Megalomanias

Já aqui falei, mais de uma vez, da verdadeira mania de usar o elemento de composição mega nos últimos tempos. Uma praga, é o que é. E, pior ainda, por vezes incorrectamente escrito. O exemplo de hoje é o pior dos piores: deixa o elemento pendurado na frase. Não é segredo nenhum que não é assim que se escreve, mas megaconferência.
Entretanto, se quiserem ir ao Pavilhão Atlântico, no dia 18, ouvir um dos co-autores de O Segredo, o filósofo, escritor e orador motivacional (motivational speaker) Bob Proctor, ainda estão a tempo. Só têm de pagar 30 euros pelo bilhete, mas deve valer a pena, já que Bob Proctor afirma: «Posso mostrar-vos como ganhar o dinheiro que precisam, para as coisas que querem, para viver da maneira que preferirem viver.» Ele sabe do que fala (ao contrário de quem traduziu a frase, num português pouco escorreito), pois afinal só em Portugal venderam-se, em 2007, 1450 exemplares da obra por dia, segundo dados do Bibliotecário de Babel…

Pontuação

Gramática em crise

A crise também já chegou à RTP. Só já tem um jornalista! Não acredita? Leia esta notícia do jornal gratuito Destak: «A jornalista da RTP, Fátima Campos Ferreira, vai ser homenageada pela Fundação Bernardo Coutinho com a medalha de ouro em Newark, EUA» («Televisão», Destak, 4.6.2008, p. 28). E que tal uma reciclagem em gramática, senhor jornalista?

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