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Detecção remota

Está disponível em linha o Dicionário dos Termos em Sensoramiento Remoto, com equivalências em português, espanhol, inglês e francês. Sensoriamento remoto ou percepción remota ou remote sensing ou télédétection.

Actualização

Trago para aqui o comentário de um leitor, Fernando Ferreira, pela importância de que se reveste: «Penso que a expressão mais adequada em português é “detecção remota”, até porque está já estabelecida como tal através do uso. Eu próprio faço parte de um grupo de investigação do Departamento de Física da UBI denominado precisamente “Unidade de Detecção Remota”.»

Regência do verbo «parecer»

Antigamente é que era

Recentemente, uma pessoa dizia-me que «antigamente o verbo “parecer” só tinha uma regência: parecer-se com». Não confirmei tal informação, claro, porque me lembrava de autores tão insuspeitos como Camilo Castelo Branco usarem a regência parecer-se a. Na acepção de assemelhar-se, dar ares de, ser semelhante, igual ou análogo, escreveu Camilo: «Mas os naufrágios do coração parecem-se aos do mar» (Consolação); «Corre perigo o lobo que ao pastor quer parecer-se» (apud Stringari). Sim, também usou a regência «parecer-se com»: «Nunca se parecera com o pai senão quando se riu assim» (Novelas, III). Todos os exemplos são do Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes (Globo, Rio de Janeiro, 36.ª edição, 1989, p. 449).

Pensar e escrever

As questões sintácticas

Entrevistado por Isabel Lucas para o Diário de Notícias («Quem escreve mal pensa mal», 4.6.2008), o escritor Mário Cláudio diz que tem assistido à discussão à volta do Acordo Ortográfico «com mais perplexidade do que preocupação, até porque não tenciono ser um fiel seguidor de qualquer acordo. Há coisas mais importantes em torno do português do que as ortográficas. Desde logo as de carácter sintáctico. A nossa língua está a ser abastardada. As questões sintácticas têm a ver com o raciocínio, são de carácter mental. As outras têm a ver com cartilha. Quem escreve mal pensa mal e o inverso também é verdadeiro. Escrever e pensar mal são a mesma coisa. E escrever mal não é escrever dança com “s”. É essa ganga do mau pensamento que associo hoje à escrita: gente que pensa mal e que escreve mal».

Léxico inadequado: «desadequado»

Olhe que não


      «O especialista em Bioética Rui Nunes defendeu ontem, no Porto, que a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez “está desadequada” do Código Deontológico dos Médicos, em vigor» («Lei do aborto desadequada do Código Deontológico», Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 20). Assim de repente não sei, mas quase de certeza que foi o meu professor de Latim, há mais de vinte anos, que me disse que não se deve usar «desadequado». Que o Dr. Rui Nunes use, não me surpreende nem interessa para aqui. Quando se trata da língua portuguesa, nunca consulto um médico. Grave é que o jornalista o tenha feito. Na substância, a explicação do meu professor não era muito diferente da que José Neves Henriques deu no Ciberdúvidas: «Dizer desadequado mostra ignorância. Tem razão no que diz, porque não é por uma palavra estar bem formada que é correcto empregá-la.»

Léxico: «maloca»

Grandes malocas

«Uma clareira no meio da floresta Amazónia, junto à fronteira entre o Brasil e o Peru, revela seis malocas (cabanas) e um grupo de 15 índios» («Uma tribo perdida na floresta amazónia», Susana Salvador, Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 26). O Dicionário de Caldas Aulete definia maloca* como uma «grande barraca, coberta de palmas secas, habitada por indígenas». E, longe do politicamente correcto, a segunda acepção era «aldeia de índios mansos ou não. (Nordeste)». Estes não eram mesmo nada mansos, pois desataram às flechadas ao Cessna Skylane que os sobrevoou. Como é «difícil imaginar que não saibam da existência dos “brancos”», como afirma Susana Dores de Matos Viegas, presidente da direcção da Associação Portuguesa de Antropologia (APA), entrevistada pelo DN, estão bem cientes do que fazem: o contacto com os brancos só lhes poderá trazer doenças, morte e depredação. Quem seria manso nesse cenário?

* Parece vir ou do vocábulo araucano malocan, «fazer hostilidade», ou do tupi mar’oca, «casa de guerra; ranchada de índios».

Classificação por ordem alfabética

Ordem!

O leitor Luís Martins pergunta-me como se ordena alfabeticamente, num índice, uma palavra começada com um algarismo árabe. No caso, 3D. O Word, como sabemos, faz anteceder os algarismos a todas as restantes palavras. Contudo, a melhor maneira talvez seja a que vejo em livros anglo-saxónicos, em que a ordenação corresponde ao numeral por extenso. Exemplifico:


Thompson, Tommy, 225, 226
thought management, 239–40, 287, 295–96
3B6-RA-7 of Star Wars (film), 262
Three Mile Island, 32
Tiananmen Square, 32


Não sei se se aplica alguma NP (Norma Portuguesa) especificamente à ordenação alfabética. Talvez algum leitor possa contribuir com alguma informação complementar.

Gujjares; Rajastão

Consultem uma gramática

«Pelo menos 35 pessoas morreram nos últimos três dias, em violentos confrontos entre manifestantes da etnia Gujjar e a Polícia indiana, na província do Rajastão, anunciaram ontem as autoridades. Num dos incidentes, em Bharatpur, a Polícia disparou sobre manifestantes, matando 15 pessoas, e em Sikandra outros 20 morreram. Os Gujjar exigem ser reconhecidos como grupo étnico, de forma a terem privilégios no acesso ao emprego e à educação» («Morrem 35 da etnia Gujjar em protestos», Meia Hora, 26.5.2008, p. 7).
«Nos subúrbios de Nova Deli e nas ruas de Jaipur, a capital do Rajastão indiano, reivindicava-se ontem a despromoção social. Os elementos de uma tribo que vive do pastoreio e da agricultura de subsistência, os gujjares, querem ser colocados na base da escala social. Assim, ganharão acesso às quotas na Administração Pública e no ensino criadas para as castas deserdadas» («Tribo indiana exige despromoção social», Global/Diário de Notícias, 30.5.2008, p. 11).
«Confrontos em vários pontos da província indiana do Rajastão provocaram ontem mais quatro mortos, elevando para 43 o número de vítimas desde que há mais de uma semana os gujjares iniciaram uma campanha exigindo o acesso a benefícios atribuídos às castas dos deserdados» («Violência prossegue na Índia», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 34).
Digamos que aproveito um pouco de cada um dos textos: do Meia Hora retenho as maiúsculas, porque se trata do nome de um povo, e do Global mantenho o plural, como acho que sempre se deve fazer, afeiçoando o vocábulo à língua portuguesa: Gujjares. No fundo, não muito diferente do inglês: «As protests of the Gujjars, who are demanding ST status, spread to fresh areas, the community living in the North-East will also take up the cudgels and launch an agitation in support of the cause» («Gujjars to protest in North East soon», 31.5.2008, The Times of India).
Apraz-me ver que a nossa imprensa tende a abandonar a grafia inglesa no nome do Estado. Rajastão se deve, de facto, escrever. E província ou Estado? Tanto quanto sei, foi sob Akbar, o imperador mogol, que o Rajastão foi criado como província unificada. Mas isso foi no período moderno do Rajastão. Na pós-independência, o Rajastão (que antes se chamava Rajputana) passou a ser um Estado, composto de 33 distritos. Vê-se, é verdade, indiferentemente ser referido como província ou Estado.

Neologismo: «crachar»

Avariados

      «O caso teve início em 2002, através de uma carta anónima, descobrindo-se então um modus operandi em que os empregados [da Torre Eiffel] crachavam as caixas para emissão de bilhetes, motivando a emissão de bilhetes não contabilizados pelo sistema» («Empregados obrigados a pagar», Global, 30.5.2008, p. 11). Confesso: tive de ler várias vezes, com atenção, até perceber do que se tratava. E não é para menos. Estar em itálico ainda me confundiu mais. Não se riam: eu sou rápido e tudo isto levou segundos. Menos do que leva a contar. De crash (to crash: to become inoperable because of a malfunction in the equipment or an error in the program) passou para crashar e deste, sub-repticiamente, para vestir umas roupagens mais nacionais, crachar. Por enquanto, pelo menos na imprensa, grafado em itálico. É possível substituir este termo bárbaro por outro? Não, por «avariar», como já me sugeriram, não pode ser, pois o conceito é diferente. Os francófonos usam os termos «plantage», «panne» e mesmo «incident». Nós aceitamos tudo acriticamente.

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