Léxico: «maloca»

Grandes malocas

«Uma clareira no meio da floresta Amazónia, junto à fronteira entre o Brasil e o Peru, revela seis malocas (cabanas) e um grupo de 15 índios» («Uma tribo perdida na floresta amazónia», Susana Salvador, Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 26). O Dicionário de Caldas Aulete definia maloca* como uma «grande barraca, coberta de palmas secas, habitada por indígenas». E, longe do politicamente correcto, a segunda acepção era «aldeia de índios mansos ou não. (Nordeste)». Estes não eram mesmo nada mansos, pois desataram às flechadas ao Cessna Skylane que os sobrevoou. Como é «difícil imaginar que não saibam da existência dos “brancos”», como afirma Susana Dores de Matos Viegas, presidente da direcção da Associação Portuguesa de Antropologia (APA), entrevistada pelo DN, estão bem cientes do que fazem: o contacto com os brancos só lhes poderá trazer doenças, morte e depredação. Quem seria manso nesse cenário?

* Parece vir ou do vocábulo araucano malocan, «fazer hostilidade», ou do tupi mar’oca, «casa de guerra; ranchada de índios».

Classificação por ordem alfabética

Ordem!

O leitor Luís Martins pergunta-me como se ordena alfabeticamente, num índice, uma palavra começada com um algarismo árabe. No caso, 3D. O Word, como sabemos, faz anteceder os algarismos a todas as restantes palavras. Contudo, a melhor maneira talvez seja a que vejo em livros anglo-saxónicos, em que a ordenação corresponde ao numeral por extenso. Exemplifico:


Thompson, Tommy, 225, 226
thought management, 239–40, 287, 295–96
3B6-RA-7 of Star Wars (film), 262
Three Mile Island, 32
Tiananmen Square, 32


Não sei se se aplica alguma NP (Norma Portuguesa) especificamente à ordenação alfabética. Talvez algum leitor possa contribuir com alguma informação complementar.

Gujjares; Rajastão

Consultem uma gramática

«Pelo menos 35 pessoas morreram nos últimos três dias, em violentos confrontos entre manifestantes da etnia Gujjar e a Polícia indiana, na província do Rajastão, anunciaram ontem as autoridades. Num dos incidentes, em Bharatpur, a Polícia disparou sobre manifestantes, matando 15 pessoas, e em Sikandra outros 20 morreram. Os Gujjar exigem ser reconhecidos como grupo étnico, de forma a terem privilégios no acesso ao emprego e à educação» («Morrem 35 da etnia Gujjar em protestos», Meia Hora, 26.5.2008, p. 7).
«Nos subúrbios de Nova Deli e nas ruas de Jaipur, a capital do Rajastão indiano, reivindicava-se ontem a despromoção social. Os elementos de uma tribo que vive do pastoreio e da agricultura de subsistência, os gujjares, querem ser colocados na base da escala social. Assim, ganharão acesso às quotas na Administração Pública e no ensino criadas para as castas deserdadas» («Tribo indiana exige despromoção social», Global/Diário de Notícias, 30.5.2008, p. 11).
«Confrontos em vários pontos da província indiana do Rajastão provocaram ontem mais quatro mortos, elevando para 43 o número de vítimas desde que há mais de uma semana os gujjares iniciaram uma campanha exigindo o acesso a benefícios atribuídos às castas dos deserdados» («Violência prossegue na Índia», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 31.5.2008, p. 34).
Digamos que aproveito um pouco de cada um dos textos: do Meia Hora retenho as maiúsculas, porque se trata do nome de um povo, e do Global mantenho o plural, como acho que sempre se deve fazer, afeiçoando o vocábulo à língua portuguesa: Gujjares. No fundo, não muito diferente do inglês: «As protests of the Gujjars, who are demanding ST status, spread to fresh areas, the community living in the North-East will also take up the cudgels and launch an agitation in support of the cause» («Gujjars to protest in North East soon», 31.5.2008, The Times of India).
Apraz-me ver que a nossa imprensa tende a abandonar a grafia inglesa no nome do Estado. Rajastão se deve, de facto, escrever. E província ou Estado? Tanto quanto sei, foi sob Akbar, o imperador mogol, que o Rajastão foi criado como província unificada. Mas isso foi no período moderno do Rajastão. Na pós-independência, o Rajastão (que antes se chamava Rajputana) passou a ser um Estado, composto de 33 distritos. Vê-se, é verdade, indiferentemente ser referido como província ou Estado.

Neologismo: «crachar»

Avariados

      «O caso teve início em 2002, através de uma carta anónima, descobrindo-se então um modus operandi em que os empregados [da Torre Eiffel] crachavam as caixas para emissão de bilhetes, motivando a emissão de bilhetes não contabilizados pelo sistema» («Empregados obrigados a pagar», Global, 30.5.2008, p. 11). Confesso: tive de ler várias vezes, com atenção, até perceber do que se tratava. E não é para menos. Estar em itálico ainda me confundiu mais. Não se riam: eu sou rápido e tudo isto levou segundos. Menos do que leva a contar. De crash (to crash: to become inoperable because of a malfunction in the equipment or an error in the program) passou para crashar e deste, sub-repticiamente, para vestir umas roupagens mais nacionais, crachar. Por enquanto, pelo menos na imprensa, grafado em itálico. É possível substituir este termo bárbaro por outro? Não, por «avariar», como já me sugeriram, não pode ser, pois o conceito é diferente. Os francófonos usam os termos «plantage», «panne» e mesmo «incident». Nós aceitamos tudo acriticamente.

Nova ortografia

Protesto? Não parece.



      O semanário Independente de Cantanhede decidiu comemorar o seu 14.º aniversário com uma edição, a de 28 de Maio, totalmente redigida segundo o Acordo Ortográfico de 1990. «Com base nas regras», avisam, «apresentadas no livro “Atual — O novo acordo ortográfico”, de João Malaca Casteleiro e Pedro Dinis Correia, publicado pela Texto Editora.» Se é assim, o jornal poderá ter reproduzido alguns erros.
      É uma forma bonita de dar as boas-vindas às novas regras. Ah, não? Afinal, é um protesto: «A equipa redactorial teve a feliz ideia de apresentar a primeira edição de aniversário (a segundo será na próxima semana) com os textos escritos de acordo com as futuras regras de ortografia, saídas de um acordo que ocupou os tempos livres de muitos dos nossos agentes culturais e que, à luz do nosso entendimento, era de todo desnecessário. E se por acaso o não fosse, não consigo entender porque há-de ser a língua mãe a aproximar-se dos facilitismos brasileiros, afastando-se da sua própria raiz latina que lhe deu vida, a suportou e cultivou durante séculos. Não virão longe os tempos em que, escreva-se como se escreva, está tudo certo. É a própria Cultura a ceder aos interesses», escreve o director-adjunto do semanário, Lino Vinhal, no editorial. Como protesto não se percebe, pois o jornal continua, pese embora a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, legível. Como suspeitávamos…
      Nesta mesma edição, o Independente de Cantanhede decidiu também divulgar o seu «Pequeno Livro de Estilo», que contém regras que tomaram todos os jornais. Cito somente, pelo interesse que pode ter para os meus leitores, os «Princípios e regras gerais»:
      «Os textos do Independente de Cantanhede têm habitualmente antetítulo, título, entrada, “lead” e subtítulo. Um ou mais destes elementos podem, no entanto, ser omitidos voluntariamente, até porque, por página, apenas um texto apresenta entrada.
      Todos os textos, sem exceção, devem ser redigidos com clareza, simplicidade e exatidão, respeitando escrupulosamente as regras da Língua Portuguesa.
      Os textos de opinião devem ser bem identificados como tal.
      São assinados todos os textos que resultem do trabalho de recolha dos seus autores.
      Não são assinados os textos comerciais, nem os que resultem de comunicados de imprensa enviados à redação.
      Os números até nove deverão ser grafados por extenso e só a partir de 10 se usarão algarismos.
      As horas devem ser grafadas segundo a norma 15H30 e não 15.30h, 15.30 ou 15h30m.
      As datas são escritas por extenso. Hoje, por exemplo, é dia 28 de maio de 2008.
      Os cargos políticos ou administrativos são grafados com iniciais em caixa baixa, com exceção do Presidente da República.
      “Governo” escreve-se com maiúscula, mas “primeiro-ministro”, “ministro”, “secretário de Estado”, “presidente da Câmara” e as demais formas de tratamento escrevem-se com minúscula.
      As citações de declarações ou de documentos são grafadas entre aspas.»

Vocativo e pontuação

A Lagoa de Sherman, de Jim Toomey, in Metro

Elementar




      Parece e é, de facto, elementar: o vocativo é isolado por vírgulas. Contudo, vejam como é de todos os dias o erro de faltar a pontuação. A indiciar que a pessoa que traduziu não sabe, eis que logo na primeira vinheta aos dois vocativos, em dois balões, falta a vírgula: «Que fazem no meu navio seus cães tinhosos?» «Aaaah! Não nos mate senhor pirata!» Grave, grave é a mesma deficiência encontrar-se em livros revistos. Alguns exemplos ao acaso:

«— Pronto Cat, agora podes trazer-nos umas cervejinhas “apimentadas”, se fazes favor» (Anjos em Sarilhos, de Annie Dalton. Difel, Lisboa, 2.ª ed., 2005. Tradução de Maria Amélia Santos Silva e revisão tipográfica de Sofia Graça Moura, p. 50). «— Porque não te sentas aqui um bocadinho Cat, ainda por cima hoje estás especialmente bonita… — disse Nick, em tom malandro» (idem, ibidem, p. 51).
«— Tu fizeste alguma coisa terrível, não foi Henrique? — perguntou o pai» (Henrique, o Terrível, Francesca Simon, tradução de Rómina Laranjeira. Gailivro, Vila Nova de Gaia, 2.ª edição, 2007, p. 17).

Júri e jurado, de novo

Ler e pensar, e vice-versa

Por vezes, tenho a ingénua pretensão (só para mim, contudo, o que é uma forte atenuante) de que, depois de falar de determinado erro, já ninguém o dará. Ainda ontem, no programa Megaphone, da Sic Radical, ao falar de um novo reality show da BBC2, Maestro, a apresentadora, Sílvia Mendes, disse que «os concorrentes serão todas as semanas avaliados por um painel de júris». Ainda que, como apresentadora, se limite a ler o teleponto, não pode corrigir? E não tem, como comunicadora, obrigação de saber uma coisa tão simples? Se quiserem, digam-lhe como é: silviamendes.cc@kanguru.pt.

O novo jornalismo

O resto é paisagem

      Na Antena 1, a concisão jornalística, para não lhe chamar outra coisa, está a atingir limites intoleráveis. António Macedo disse que se podia ir hoje ouvir a «escritora Lídia Jorge falar sobre Faulkner, William Faulkner, na FLAD». Não faltam aqui elementos essenciais à notícia? E que dizer de usar um acrónimo sem o desdobrar? Agora parte-se do princípio de que todos os ouvintes sabem que FLAD é o acrónimo de Fundação Luso-Americana? E nem se diz que a instituição fica em Lisboa? E a que horas se realiza a iniciativa? Ou é como no Cinema Olímpia, em sessão contínua? Ou, mais absurdo ainda, de cada vez que entrar uma pessoa na sala, Lídia Jorge reiniciará a palestra, correndo o risco de nunca a acabar? Valha-me Deus!
      A escritora Lídia Jorge irá proferir hoje, às 18.30, no auditório da Fundação Luso-Americana, em Lisboa (Rua do Sacramento à Lapa, 21), uma palestra dedicada à obra de William Faulkner, inserida no ciclo de conferências «Asas sobre a América/Wings over America», destinado a promover o encontro das literaturas portuguesa e americana. A palestra terá uma introdução feita por Laura Fernanda Bulger, Professora de Teoria da Literatura e Literatura Inglesa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. A entrada é livre, mas, devido à capacidade limitada do auditório, convém fazer uma inscrição prévia por correio electrónico: fladport@flad.pt.

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