«O Dicionário dos Dicionários»

Onde está?

Algum leitor encontrou, nas suas deambulações, O Dicionário dos Dicionários, de autoria de Dieter Messner, professor na Universidade de Salzburgo, na Áustria? O objectivo do autor é o de compilar, nos volumes que for necessário, e estão previstos 50, todos os verbetes da língua portuguesa, da maneira como cada um foi explicado nos principais dicionários da língua.

Norma-padrão e erro

Nem pensar

Há, mesmo entre professores, a crença de que a evolução da língua tudo desculpa e tudo justifica. É um erro. Enquanto houver uma norma-padrão — ainda que actualmente promanada pelo meio de difusão que é a televisão, por natureza menos cuidado —, haverá desvios e erros. Perguntaram-me recentemente se a construção «a gente vamos» não está correcta. Claro que não. «A gente vamos» está por «a gente vai». Contém um erro de concordância. Na análise de Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, este erro é «causado pela falsa impressão de que a gente é plural e pelo paralelismo com a construção nós vamos» (in Norma e Variação, colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa», Caminho, 2007, p. 41).

Relativas cortadoras (I)

Não cortes

Jornal Nacional da TVI, ontem, debate entre Bagão Félix e Carvalho da Silva. À pergunta de Manuela Moura Guedes sobre se concordava com as recentes alterações ao Código de Trabalho, de que foi o mentor, Bagão Félix respondeu: «Não tenho uma visão maniqueísta: há coisas que concordo e coisas que discordo.» A eliminação, nesta última oração — oração relativa, mais especificamente denominada relativa cortadora, aquela em que ocorre um “corte” do sintagma nominal relativizado e da preposição que precede o pronome relativo —, das preposições pode atender a um princípio de natureza pragmático-discursiva e está abundantemente estudado, sobretudo no Brasil, onde o fenómeno começou ainda no século XIX. Na oralidade, vai atingindo (?) o estatuto de regular. Na escrita, incide mais sobre outros verbos, como o verbo gostar (* Este é o livro que eu mais gosto).
Voltemos à frase de Bagão Félix. Na oralidade, a propensão para a agramaticalidade neste tipo de oração é ainda propiciado pelo facto de estarmos perante dois verbos com regência diversa: concordar rege a preposição com; discordar rege a preposição de. Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, na obra que tenho vindo a citar nos últimos dias, Norma e Variação (Caminho, 2007), escrevem: «Ora em 265 orações relativas analisadas em discursos de rádio, televisão e imprensa, 74 (portanto 28 % do total) têm supressão da preposição pedida pelo verbo. […] Esta alteração sintáctica aproxima as duas variedades do Português (Europeu e Brasileiro) numa questão que tem sido apresentada, nas gramáticas tradicionais, como uma das diferenças mais notórias entre ambas» (pp. 70-71).

Léxico: «borregar»

Abortar, pois



      «O avião já rolava na pista quando surge a ordem de “borregar”. O piloto aceita a ordem e acciona o sistema de travagem brusca, para susto dos passageiros e evidentes danos no aparelho que por ali teve de ficar, desembarcando os passageiros para uma penosa espera de 12 horas pelo avião que saído de Luanda os foi buscar a S. Tomé…» («Mandou parar avião para poder embarcar», Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 31). Neste sentido — abortar a descolagem —, nunca antes vi o verbo borregar ser usado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para o verbo borregar: «AERONÁUTICA abortar a aterragem». Num relatório de incidente do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, lê-se: «O aluno-piloto fez uma volta de pista e no momento da aterragem decidiu “borregar”.» O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, da Texto Editores, o tal que está «conforme Acordo Ortográfico», regista: «(Aeron.) corrigir uma aterragem malsucedida». Suponho que com corrigir se pretende dizer «abortar».

Léxico: «isoacrónimo»

BB, por exemplo

O leitor João P. Martins quer saber o que são isoacrónimos. São siglas dobradas e usam-se para designar pessoas famosas cujo nome e apelido têm a mesma letra inicial: BB por Brigit Bardot ou Baptista-Bastos, HH por Helenio Herrera, RR por Robert Redford, TT por Torquato Tasso, etc.

«Tombado» e «queijo-de-minas»

Bem feito

«Queijo-de-minas, gostoso e tombado» (Pedro Vieira, Jornal do Brasil, 8.5.2008, p. A6). Qual é o português que não se sente perplexo com um título destes? «Queijo-de-minas»? «Tombado»? Vá lá que, mesmo composto, o queijo é queijo: «Queijo de massa branca, crua e homogênea, baixo teor de gordura e cuja consistência varia conforme esteja mais ou menos curado, muito consumido no Brasil» (Aulete Digital). Os Brasileiros têm ainda o queijo-do-reino e, só de nome, o queijo-de-ovos, que é um doce não queijoso ou caseoso. Portugueses e Brasileiros temos os queijinhos-do-céu. E tombado não porque caiu do cincho sobre o trincho, mas porque foi «colocado sob a guarda do governo para proteção e conservação», na definição do citado dicionário.

Informação


Curso de Técnicas de Revisão

Entre 13 e 30 de Maio, vou estar novamente, ao final da tarde, na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (segundo curso de formação inicial). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

Ascendente e descendente

Altos e baixos

      Todos conhecemos colegas na escola que confundiam direita com esquerda. De alguma maneira, também parece ser dislexia o que levava outros colegas a confundirem ascendente com descendente. Nada de muito grave quando se tem 8 ou 10 anos. Era até divertido. Grave é que jornalistas confundam os conceitos, como se vê neste excerto de um artigo: «Espécie de enfant terrible da vida pública britânica da última década e meia, as raízes de Boris [Johnson, recém-eleito mayor da cidade de Londres] estão na Turquia. Basta recuar até final do século XIX para encontrar descendentes turcos na sua genealogia, membros da administração de um império otomano crepuscular» («O jornalista que quer chegar ao topo do mundo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 37). Descendentes turcos de Boris Johnson? O homem tem decerto algo de muito especial, mas ainda não consegue fazer tal. Digo eu. De resto, o artigo a que pertence o excerto tem erros crassíssimos de pontuação. Está a fazer falta um curso somente sobre pontuação, não acham?

Arquivo do blogue