Norma-padrão e erro

Nem pensar

Há, mesmo entre professores, a crença de que a evolução da língua tudo desculpa e tudo justifica. É um erro. Enquanto houver uma norma-padrão — ainda que actualmente promanada pelo meio de difusão que é a televisão, por natureza menos cuidado —, haverá desvios e erros. Perguntaram-me recentemente se a construção «a gente vamos» não está correcta. Claro que não. «A gente vamos» está por «a gente vai». Contém um erro de concordância. Na análise de Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, este erro é «causado pela falsa impressão de que a gente é plural e pelo paralelismo com a construção nós vamos» (in Norma e Variação, colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa», Caminho, 2007, p. 41).

Relativas cortadoras (I)

Não cortes

Jornal Nacional da TVI, ontem, debate entre Bagão Félix e Carvalho da Silva. À pergunta de Manuela Moura Guedes sobre se concordava com as recentes alterações ao Código de Trabalho, de que foi o mentor, Bagão Félix respondeu: «Não tenho uma visão maniqueísta: há coisas que concordo e coisas que discordo.» A eliminação, nesta última oração — oração relativa, mais especificamente denominada relativa cortadora, aquela em que ocorre um “corte” do sintagma nominal relativizado e da preposição que precede o pronome relativo —, das preposições pode atender a um princípio de natureza pragmático-discursiva e está abundantemente estudado, sobretudo no Brasil, onde o fenómeno começou ainda no século XIX. Na oralidade, vai atingindo (?) o estatuto de regular. Na escrita, incide mais sobre outros verbos, como o verbo gostar (* Este é o livro que eu mais gosto).
Voltemos à frase de Bagão Félix. Na oralidade, a propensão para a agramaticalidade neste tipo de oração é ainda propiciado pelo facto de estarmos perante dois verbos com regência diversa: concordar rege a preposição com; discordar rege a preposição de. Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, na obra que tenho vindo a citar nos últimos dias, Norma e Variação (Caminho, 2007), escrevem: «Ora em 265 orações relativas analisadas em discursos de rádio, televisão e imprensa, 74 (portanto 28 % do total) têm supressão da preposição pedida pelo verbo. […] Esta alteração sintáctica aproxima as duas variedades do Português (Europeu e Brasileiro) numa questão que tem sido apresentada, nas gramáticas tradicionais, como uma das diferenças mais notórias entre ambas» (pp. 70-71).

Léxico: «borregar»

Abortar, pois



      «O avião já rolava na pista quando surge a ordem de “borregar”. O piloto aceita a ordem e acciona o sistema de travagem brusca, para susto dos passageiros e evidentes danos no aparelho que por ali teve de ficar, desembarcando os passageiros para uma penosa espera de 12 horas pelo avião que saído de Luanda os foi buscar a S. Tomé…» («Mandou parar avião para poder embarcar», Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 31). Neste sentido — abortar a descolagem —, nunca antes vi o verbo borregar ser usado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para o verbo borregar: «AERONÁUTICA abortar a aterragem». Num relatório de incidente do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, lê-se: «O aluno-piloto fez uma volta de pista e no momento da aterragem decidiu “borregar”.» O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, da Texto Editores, o tal que está «conforme Acordo Ortográfico», regista: «(Aeron.) corrigir uma aterragem malsucedida». Suponho que com corrigir se pretende dizer «abortar».

Léxico: «isoacrónimo»

BB, por exemplo

O leitor João P. Martins quer saber o que são isoacrónimos. São siglas dobradas e usam-se para designar pessoas famosas cujo nome e apelido têm a mesma letra inicial: BB por Brigit Bardot ou Baptista-Bastos, HH por Helenio Herrera, RR por Robert Redford, TT por Torquato Tasso, etc.

«Tombado» e «queijo-de-minas»

Bem feito

«Queijo-de-minas, gostoso e tombado» (Pedro Vieira, Jornal do Brasil, 8.5.2008, p. A6). Qual é o português que não se sente perplexo com um título destes? «Queijo-de-minas»? «Tombado»? Vá lá que, mesmo composto, o queijo é queijo: «Queijo de massa branca, crua e homogênea, baixo teor de gordura e cuja consistência varia conforme esteja mais ou menos curado, muito consumido no Brasil» (Aulete Digital). Os Brasileiros têm ainda o queijo-do-reino e, só de nome, o queijo-de-ovos, que é um doce não queijoso ou caseoso. Portugueses e Brasileiros temos os queijinhos-do-céu. E tombado não porque caiu do cincho sobre o trincho, mas porque foi «colocado sob a guarda do governo para proteção e conservação», na definição do citado dicionário.

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Ascendente e descendente

Altos e baixos

      Todos conhecemos colegas na escola que confundiam direita com esquerda. De alguma maneira, também parece ser dislexia o que levava outros colegas a confundirem ascendente com descendente. Nada de muito grave quando se tem 8 ou 10 anos. Era até divertido. Grave é que jornalistas confundam os conceitos, como se vê neste excerto de um artigo: «Espécie de enfant terrible da vida pública britânica da última década e meia, as raízes de Boris [Johnson, recém-eleito mayor da cidade de Londres] estão na Turquia. Basta recuar até final do século XIX para encontrar descendentes turcos na sua genealogia, membros da administração de um império otomano crepuscular» («O jornalista que quer chegar ao topo do mundo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 37). Descendentes turcos de Boris Johnson? O homem tem decerto algo de muito especial, mas ainda não consegue fazer tal. Digo eu. De resto, o artigo a que pertence o excerto tem erros crassíssimos de pontuação. Está a fazer falta um curso somente sobre pontuação, não acham?

Disjunção da preposição e do artigo

Será, será

«Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois do filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980» («Alemã confessa ter morto três filhos», Global/24 Horas, 6.5.2008, p. 14).
A frase acima está correcta? Para o falante comum da língua, sim. Para as autoridades da língua, do ponto de vista da norma-padrão, não. Ou, pelo menos, oferecer-lhe-á matéria para alguma reflexão. Melhor: vou incluir-me, por um momento, nesse círculo restrito de falantes e antes direi: oferecer-nos-á.
Determina a Base XXXIV do Acordo Ortográfico de 1945: «Abolição do apóstrofo nas dissoluções gráficas de combinações da preposição de com formas do artigo definido, pronomes e advérbios, quando estas formas estão ligadas a uma construção de infinitivo. (Exemplo: Em virtude de os nossos pais serem bondosos.)» Logo, face à norma actual, a notícia acima devia estar redigida assim: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980.» O falante médio fala e escreve desta maneira, com esta correcção? Na verdade, não, o que nos obriga a aprofundar mais a questão.
A este propósito, escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral: «Disciplinadamente, ao anotar a base XXXIV do Acordo, exemplifiquei [em editorial de A Voz, n.º de 21 de Julho de 1945, quando se estava a preparar a Conferência Ortográfica]: “De e o ligam-se em do. Porém, se o artigo ou o pronome o se referem a um infinitivo seguinte, a regra actual manda separar a preposição do artigo ou do pronome. Portanto: 1. O livro do rapaz estragou-se com a chuva. 2. O prejuízo de o livro do rapaz se estragar com a chuva é grande.”
Isto, repito, expliquei eu disciplinadamente. Mas o que posso agora dizer, com objectividade de crítico, é diferente.
Na verdade, continua a ser obrigatório grafar:
“Em virtude de os nossos pais serem bondosos.”
Gramaticalmente, a disjunção do de e do os, em duas palavras, é compreensível. Mas na expressão natural há muita coisa que, não sendo gramatical, é idiomático.
A maior parte das pessoas cultas, tanto a falar como a escrever, ligam de os em dos, e escrevem: “Em virtude dos nossos pais serem bondosos.”
Ora, esta habitual ligação devia ser considerada correcta, pois, além de constituir uma irreprimível tendência de ligação fonética, é paralela, até, a um jeito tradicional (clássico e popular). Reparem os filólogos nisto:
Os clássicos, em vez de por o ver, escreviam “pelo ver”, apesar de hoje se ter por mais canónica a disjunção — por o ver. O povo dos nossos dias faz o mesmo. Paralelamente, quase toda a gente, apesar do que estipula a Lei (e eu afianço que tenho lido até em artigos de professores a infracção), liga a preposição de ao artigo o, a, os, as, mesmo naquelas frases em que a legal grafia (aliás, a legal sintaxe) determina de o, de a, de os, de as.
Erro! exclama-se… Será, será; mas é um erro tão frequente, tão teimoso, tão espontâneo, que amanhã a cláusula ortográfica abrigadora desta fusão será bem recebida por todos. É que o hábito está a forjar uma invencível forma de dicção e, consequentemente, de escrita social» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 381-382).
Ficaria a nossa autoridade satisfeita com a correcção introduzida na frase? Não. Segundo a norma-padrão, usa-se a forma regular (ou fraca) dos particípios duplos na constituição dos tempos compostos da voz activa, ou seja, acompanhada dos auxiliares ter ou haver. Logo, a nossa autoridade exigiria ainda outra emenda: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter matado em três ocasiões separadas na década de 1980.» Mais uma vez, contudo, se verifica que a tendência é contrária à norma, estando a cair em desuso a forma regular dos particípios de certos verbos, em que se incluir o verbo matar, acompanhada do verbo ter. Assim, é frequentíssimo ver ter pago, ter gasto, ter limpo, ter ganho, ter entregue, ter salvo, ter morto, ter aceite, etc. Todavia, como afirmam Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira na obra Norma e Variação, da colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa» (Caminho, 2007), a norma linguística não é democrática.

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