Disjunção da preposição e do artigo

Será, será

«Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois do filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980» («Alemã confessa ter morto três filhos», Global/24 Horas, 6.5.2008, p. 14).
A frase acima está correcta? Para o falante comum da língua, sim. Para as autoridades da língua, do ponto de vista da norma-padrão, não. Ou, pelo menos, oferecer-lhe-á matéria para alguma reflexão. Melhor: vou incluir-me, por um momento, nesse círculo restrito de falantes e antes direi: oferecer-nos-á.
Determina a Base XXXIV do Acordo Ortográfico de 1945: «Abolição do apóstrofo nas dissoluções gráficas de combinações da preposição de com formas do artigo definido, pronomes e advérbios, quando estas formas estão ligadas a uma construção de infinitivo. (Exemplo: Em virtude de os nossos pais serem bondosos.)» Logo, face à norma actual, a notícia acima devia estar redigida assim: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980.» O falante médio fala e escreve desta maneira, com esta correcção? Na verdade, não, o que nos obriga a aprofundar mais a questão.
A este propósito, escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral: «Disciplinadamente, ao anotar a base XXXIV do Acordo, exemplifiquei [em editorial de A Voz, n.º de 21 de Julho de 1945, quando se estava a preparar a Conferência Ortográfica]: “De e o ligam-se em do. Porém, se o artigo ou o pronome o se referem a um infinitivo seguinte, a regra actual manda separar a preposição do artigo ou do pronome. Portanto: 1. O livro do rapaz estragou-se com a chuva. 2. O prejuízo de o livro do rapaz se estragar com a chuva é grande.”
Isto, repito, expliquei eu disciplinadamente. Mas o que posso agora dizer, com objectividade de crítico, é diferente.
Na verdade, continua a ser obrigatório grafar:
“Em virtude de os nossos pais serem bondosos.”
Gramaticalmente, a disjunção do de e do os, em duas palavras, é compreensível. Mas na expressão natural há muita coisa que, não sendo gramatical, é idiomático.
A maior parte das pessoas cultas, tanto a falar como a escrever, ligam de os em dos, e escrevem: “Em virtude dos nossos pais serem bondosos.”
Ora, esta habitual ligação devia ser considerada correcta, pois, além de constituir uma irreprimível tendência de ligação fonética, é paralela, até, a um jeito tradicional (clássico e popular). Reparem os filólogos nisto:
Os clássicos, em vez de por o ver, escreviam “pelo ver”, apesar de hoje se ter por mais canónica a disjunção — por o ver. O povo dos nossos dias faz o mesmo. Paralelamente, quase toda a gente, apesar do que estipula a Lei (e eu afianço que tenho lido até em artigos de professores a infracção), liga a preposição de ao artigo o, a, os, as, mesmo naquelas frases em que a legal grafia (aliás, a legal sintaxe) determina de o, de a, de os, de as.
Erro! exclama-se… Será, será; mas é um erro tão frequente, tão teimoso, tão espontâneo, que amanhã a cláusula ortográfica abrigadora desta fusão será bem recebida por todos. É que o hábito está a forjar uma invencível forma de dicção e, consequentemente, de escrita social» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 381-382).
Ficaria a nossa autoridade satisfeita com a correcção introduzida na frase? Não. Segundo a norma-padrão, usa-se a forma regular (ou fraca) dos particípios duplos na constituição dos tempos compostos da voz activa, ou seja, acompanhada dos auxiliares ter ou haver. Logo, a nossa autoridade exigiria ainda outra emenda: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter matado em três ocasiões separadas na década de 1980.» Mais uma vez, contudo, se verifica que a tendência é contrária à norma, estando a cair em desuso a forma regular dos particípios de certos verbos, em que se incluir o verbo matar, acompanhada do verbo ter. Assim, é frequentíssimo ver ter pago, ter gasto, ter limpo, ter ganho, ter entregue, ter salvo, ter morto, ter aceite, etc. Todavia, como afirmam Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira na obra Norma e Variação, da colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa» (Caminho, 2007), a norma linguística não é democrática.

Fluído e fluido, outra vez

E porquê?


      «O vírus é transmitido por contacto directo com secreções do nariz e boca, saliva, fluídos e bolhas, além de fezes de infectados» («País em alerta por vírus que mata sobretudo crianças», Meia Hora, 5.5.2008, p. 8). Nem o substantivo, como é o caso, nem o adjectivo levam acento agudo. Como a vogal tónica é o u, o i não leva acento. Já a forma com acento agudo, «fluído», é o particípio passado do verbo «fluir» (como puído, saído, caído, etc.) Como é óbvio, a prosódia destas formas (nominal e verbal) é diferente. Um exemplo em que se usa, respectivamente, o substantivo e o particípio passado: «O azeite, o precioso fluido mediterrâneo, tem fluído bem, apesar de um pouco coalhado por causa do frio.»



Suma ≠ súmula

Os melhores

Bem sumulado, o caso conta-se assim: dois alunos de Engenharia Informática da Universidade de Évora foram escolhidos para participar no Google Summer of Code 2008, uma iniciativa da Google para estimular o desenvolvimento do software livre. Um deles, Luís Rodrigues, que participa pela segunda vez, vai desenvolver novas funcionalidades para o Moodle, uma plataforma de apoio à aprendizagem, e afirmou ao Público: «É de súmula importância, uma vez que nos abre muitas portas.» Com este domínio do português, só nos resta ter esperança de que o seu trabalho não passe da programação informática.

Léxico: «oráculo»

Mais uma revelação

«Às vezes, pergunto-me se quem escreve os oráculos (as barras em movimento) dos noticiários tem a noção do que está a escrever e para quem» («O oráculo da cultura», Jorge Mourinha, Público/P2, 4.5.2008, p. 18). Numa deliberação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), leio o seguinte: «Durante o lançamento realizado pelo pivô do jornal, lê-se no oráculo que acompanha a emissão da peça o seguinte texto: “Luís Marques Mendes desmente Agostinho Branquinho”» (deliberação 1/DR-TV/2007).

Pontuação nas subordinadas

Vá lá, revejam

«Quando Sócrates começou o seu programa de “reformas” seduziu e comoveu a direita» («Cair pelo buraco», Vasco Pulido Valente, Público, 2.5.2008, p. 48). O leitor minimamente atento sabe que este é um erro muito comum, tanto nos livros como nos jornais: pontuação errada em algumas orações subordinadas adverbiais. Na frase de Vasco Pulido Valente, que começa com uma oração subordinada adverbial temporal, a vírgula é necessária depois do vocábulo «reformas». Porque não emendam os revisores? Porque estão inseguros, porque é um autor conhecido, porque já souberam o ano passado, mas hoje estão esquecidos.

Toscana

Não, não

      Desta vez, foi Eduardo Pitta que escreveu «Toscânia». Topónimo mal traduzido, já aqui o vimos várias vezes, do inglês Tuscany. Em português é Toscana. «É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da “pasta”), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro» («O escravo», Eduardo Pitta, Público/Ípsilon, 2.5.2008, pp. 40-42).

Uso dos parênteses

De outiva não vamos lá


      Há algum tempo, escrevia um anónimo o seguinte comentário: «Invoco, outra vez, o lema deste sítio e a condição de simples “tocador de ouvido” para dizer que não parece correcto fazer de um parêntesis um período. Ele há-de pertencer ao período cujos termos são clarificados pelo que for dito no parêntesis.» A frase era minha e o contexto era o seguinte: «Muito estranho, cara Luísa Pinto, que a professora de Português do seu filho tenha dito que a frase estava incorrecta. (Ou não estranho nada, isto é uma figura de retórica.)» O leitor já antes tinha deixado, noutro post, um comentário semelhante a uma frase estruturalmente igual. Claro que eu sabia que era correcto, e por isso assim escrevera. Sabia, até, que o consultor do Ciberdúvidas D’Silvas Filho era da mesma opinião. Ainda assim, consultei a Academia Brasileira de Letras, que ontem me respondeu: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.» Conselho que passo, inteirinho, e legitimamente, para o leitor anónimo. E da próxima vez, já sabe: estude e depois diga qualquer coisa.

Ortografia: «malvisto»

Bem visto

      Lê-se na edição de hoje do Público: «Da “Áustria dos nazis, onde todos se espiavam e denunciavam”, passou-se para uma Áustria onde olhar para a casa do vizinho, querer saber o que se passa com ele ou denunciá-lo é “muito mal visto”, diz Max Friedrich, da Universidade de Viena, médico de Kampusch, ao El País» («O homem que manteve a filha em cativeiro 24 anos remeteu-se ao silêncio», Andreia Sanches, 1.5.2008, p. 20). Dizia a notícia do El País: «La historia reciente del país ha agravado esta tendencia según Friedrich, que recuerda la “Austria de los nazis, en la que todos eran espías y se denunciaban unos a otros, con el resultado de que en la sociedad de hoy, la denuncia y el espionaje son asuntos muy mal vistos”» («Un país sentado en el diván», J. Gómez, El País, 30.4.2008). Em espanhol, «mal visto» é uma locução adjectival, tal como «bem visto». Em português, é uma só palavra, que é um adjectivo: malvisto. No caso, no grau superlativo absoluto analítico: muito malvisto.

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