Fluído e fluido, outra vez

E porquê?


      «O vírus é transmitido por contacto directo com secreções do nariz e boca, saliva, fluídos e bolhas, além de fezes de infectados» («País em alerta por vírus que mata sobretudo crianças», Meia Hora, 5.5.2008, p. 8). Nem o substantivo, como é o caso, nem o adjectivo levam acento agudo. Como a vogal tónica é o u, o i não leva acento. Já a forma com acento agudo, «fluído», é o particípio passado do verbo «fluir» (como puído, saído, caído, etc.) Como é óbvio, a prosódia destas formas (nominal e verbal) é diferente. Um exemplo em que se usa, respectivamente, o substantivo e o particípio passado: «O azeite, o precioso fluido mediterrâneo, tem fluído bem, apesar de um pouco coalhado por causa do frio.»



Suma ≠ súmula

Os melhores

Bem sumulado, o caso conta-se assim: dois alunos de Engenharia Informática da Universidade de Évora foram escolhidos para participar no Google Summer of Code 2008, uma iniciativa da Google para estimular o desenvolvimento do software livre. Um deles, Luís Rodrigues, que participa pela segunda vez, vai desenvolver novas funcionalidades para o Moodle, uma plataforma de apoio à aprendizagem, e afirmou ao Público: «É de súmula importância, uma vez que nos abre muitas portas.» Com este domínio do português, só nos resta ter esperança de que o seu trabalho não passe da programação informática.

Léxico: «oráculo»

Mais uma revelação

«Às vezes, pergunto-me se quem escreve os oráculos (as barras em movimento) dos noticiários tem a noção do que está a escrever e para quem» («O oráculo da cultura», Jorge Mourinha, Público/P2, 4.5.2008, p. 18). Numa deliberação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), leio o seguinte: «Durante o lançamento realizado pelo pivô do jornal, lê-se no oráculo que acompanha a emissão da peça o seguinte texto: “Luís Marques Mendes desmente Agostinho Branquinho”» (deliberação 1/DR-TV/2007).

Pontuação nas subordinadas

Vá lá, revejam

«Quando Sócrates começou o seu programa de “reformas” seduziu e comoveu a direita» («Cair pelo buraco», Vasco Pulido Valente, Público, 2.5.2008, p. 48). O leitor minimamente atento sabe que este é um erro muito comum, tanto nos livros como nos jornais: pontuação errada em algumas orações subordinadas adverbiais. Na frase de Vasco Pulido Valente, que começa com uma oração subordinada adverbial temporal, a vírgula é necessária depois do vocábulo «reformas». Porque não emendam os revisores? Porque estão inseguros, porque é um autor conhecido, porque já souberam o ano passado, mas hoje estão esquecidos.

Toscana

Não, não

      Desta vez, foi Eduardo Pitta que escreveu «Toscânia». Topónimo mal traduzido, já aqui o vimos várias vezes, do inglês Tuscany. Em português é Toscana. «É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da “pasta”), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro» («O escravo», Eduardo Pitta, Público/Ípsilon, 2.5.2008, pp. 40-42).

Uso dos parênteses

De outiva não vamos lá


      Há algum tempo, escrevia um anónimo o seguinte comentário: «Invoco, outra vez, o lema deste sítio e a condição de simples “tocador de ouvido” para dizer que não parece correcto fazer de um parêntesis um período. Ele há-de pertencer ao período cujos termos são clarificados pelo que for dito no parêntesis.» A frase era minha e o contexto era o seguinte: «Muito estranho, cara Luísa Pinto, que a professora de Português do seu filho tenha dito que a frase estava incorrecta. (Ou não estranho nada, isto é uma figura de retórica.)» O leitor já antes tinha deixado, noutro post, um comentário semelhante a uma frase estruturalmente igual. Claro que eu sabia que era correcto, e por isso assim escrevera. Sabia, até, que o consultor do Ciberdúvidas D’Silvas Filho era da mesma opinião. Ainda assim, consultei a Academia Brasileira de Letras, que ontem me respondeu: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.» Conselho que passo, inteirinho, e legitimamente, para o leitor anónimo. E da próxima vez, já sabe: estude e depois diga qualquer coisa.

Ortografia: «malvisto»

Bem visto

      Lê-se na edição de hoje do Público: «Da “Áustria dos nazis, onde todos se espiavam e denunciavam”, passou-se para uma Áustria onde olhar para a casa do vizinho, querer saber o que se passa com ele ou denunciá-lo é “muito mal visto”, diz Max Friedrich, da Universidade de Viena, médico de Kampusch, ao El País» («O homem que manteve a filha em cativeiro 24 anos remeteu-se ao silêncio», Andreia Sanches, 1.5.2008, p. 20). Dizia a notícia do El País: «La historia reciente del país ha agravado esta tendencia según Friedrich, que recuerda la “Austria de los nazis, en la que todos eran espías y se denunciaban unos a otros, con el resultado de que en la sociedad de hoy, la denuncia y el espionaje son asuntos muy mal vistos”» («Un país sentado en el diván», J. Gómez, El País, 30.4.2008). Em espanhol, «mal visto» é uma locução adjectival, tal como «bem visto». Em português, é uma só palavra, que é um adjectivo: malvisto. No caso, no grau superlativo absoluto analítico: muito malvisto.

Grafia dos nomes próprios

Ver em cada caso

Ao meu texto de ontem sobre o uso da barra deixou um leitor — Franco e Silva, que não conheço de mais lado nenhum que não dos comentários pertinentes e informados ao meu blogue e a outros — um comentário que interessa trazer para aqui. Escreve este leitor: «Se me é permitida a achega na correcção do texto transcrito, deveríamos ter MADAIL e não *“Madaíl”, não é verdade?» O texto é o que está mais abaixo, da autoria de João Villalobos: «[…] prometi ao Virgil Mihaiu do ICR grafar-lhe o nome como deve ser desta vez e troquei conversas com o casal de bloggers Eduardo Pitta/Jorge Neves, o Miguel Real, a Isabel Goulão, o Nuno Miguel Guedes, o Jorge Silva, os “nossos” Luís Naves e Fernando Madaíl, o Fernando Pinto do Amaral, o Fernando Sobral, eu sei lá.»
Seria preciso perguntar à pessoa visada, jornalista do Diário de Notícias, e, em todos os casos, a cada pessoa que tem esse apelido, porque a norma (Base L do Acordo Ortográfico de 1945) em vigor refere: «Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume, adopte na assinatura do seu nome.» Costume ou registo legal, na verdade. É o que me leva a grafar sempre o meu primeiro nome sem acento agudo: «Helder».
Não ignoro, naturalmente, que o apelido «Madail» ganhou grande visibilidade — e daí todas as elucubrações à volta dele — graças a Gilberto Madail, que ora se vê grafado com acento ora sem acento. Se alguma coisa me choca, é esta hesitação, nada mais. Para mim, a regra de que as palavras agudas terminadas em l não são graficamente acentuadas aplica-se somente aos nomes comuns. E será escusado lembrarem-me os nomes «Abigail», «Vermoil» e outros. Tão escusado, na verdade, como esgrimirem o argumento de que «Madail» está assim registado no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado. Em suma, a forma como cada um escreve o seu nome faz fé. Nisto, não estou com Cesare Pavese, que escreveu: Pensa mal, non ti sbaglierai. Se houver dúvidas ponderosas e em casos oficiais, peça-se ao visado prova do facto. Quanto ao resto, ocupemo-nos dos verdadeiros erros no uso da língua portuguesa, que não são poucos.

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