Uso do hífen com anti-

Oh, que desilusão!

Ana Gerschenfeld escreve hoje no caderno P2 do Público: «Um dia, os automobilistas poderão ter de usar um capacete ao volante. Só que não será para proteger a cabeça em caso de choque, mas para evitar que eventuais lapsos de atenção provoquem um acidente» («No futuro. Capacete anti-erro», 26.4.2008, p. 3). Lamentavelmente, o capacete ainda não existe nem, existindo já, se aplicaria aos erros ortográficos: o prefixo anti- só leva hífen antes de h, i, r e s. Logo, antierro.

Dicionários raros

Boa notícia

Esta sim, é uma óptima notícia: o sítio do Instituto de Estudos Brasileiros/Universidade de São Paulo acaba de pôr à disposição do público, em versão fac-similada, dois dicionários raros: o Diccionario de Medicina Popular, da autoria de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, publicado pela primeira vez em 1842, e que chegou à 18.ª edição em 1918, e o Vocabulario Portuguez & Latino, de Rafael Bluteau, cujos dez volumes foram publicados entre 1712 e 1728. O projecto é coordenado pela historiadora Márcia Moises Ribeiro. Ver aqui. Seguir-se-á, proximamente, segundo é ali anunciado, a publicação de outros dicionários.
Muito obrigado ao leitor Jeová Barros, que me chamou a atenção para este acontecimento.

Léxico: «capitular»

Hum…



      «Peculiar porquê? Porque é usada de uma forma não canónica, apesar de o escritor já fazer parte do cânone literário: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas» («Saramago, o escritor que brinca com a pontuação», Isabel Coutinho, Público/P2, 23.4.2008, pp. 4-6). Não é raro, é raríssimo ver-se o vocábulo «capitular» usado nesta acepção: maiúscula inicial. Habitualmente, reserva-se o termo para designar a maiúscula ornamentada e de grandes dimensões usada em início de capítulo. Também dita meramente capital se for apenas grafada num corpo superior ao usado no texto. Mais chãmente, mais terra-a-terra, diríamos então «assinalado por uma maiúscula».


Léxico: «tecnodoping»

Depois do doping

Todos os dias nascem novas palavras. «O novo fato da Speedo relançou o debate sobre as condições de igualdade entre os nadadores. O termo tecnodoping até já ganhou expressão em vários fóruns e blogues, embora João Paulo Vilas Boas, director do departamento de biomecânica da Faculdade de Desporto do Porto, diga que não se pode apelidar este caso de tecnodoping. “Doping é elevar ilícita e artificialmente a capacidade de rendimento”, refere Vilas Boas, para quem a “tecnologia tem lugar no desporto” e é um desafio para os fabricantes» («Tecnodoping ou tecnomarketing, os efeitos do novo fato na modalidade», Hugo Daniel Sousa, Público, 20.4.2008, p. 41).

Estada e estadia

E assim

«Herman José sente-se a regressar aos tempos da Roda da Sorte, do seu Com a Verdade M’Enganas e de Parabéns, concursos que apresentou na sua longa estadia na RTP, de onde saiu em 2000 para rumar à SIC» («Herman volta aos concursos», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 23.4.2008, p. 11). Ah, mas essa forma já está legitimada pelos *** (piores ou melhores?, não estou a ouvir) dicionários, clamam. Deixo que seja o crítico dos croquetes a responder: «Ainda sou novo, mas acontece — como foi o caso nesta apresentação de O Diário Português de Mircea Eliade — que gosto de rodear-me de pessoas com idade suficiente para saberem que não se diz “estadia” e sim “estada”, excepto se falarmos de barcos, comboios e assim» («O paraíso triste», João Villalobos, Diário de Notícias/Gente, 19.4.2008, p. 23).

Mega-, outra vez

É assim…

      Já aqui lamentei a praga do elemento de composição mega-, que hoje em dia nos atola. Há oito dias, lia-se no Diário de Notícias: «Transformar um estádio em megaigreja» (16.4.2008, p. 27). Hoje, a propósito da exposição saramaguiana, lê-se no Público: «A sensação que se tem quando se percorrem as salas desta mega-exposição (comissariada por Fernando Gómez Aguilera, da Fundação César Manrique, Lanzarote) é que, ao passar pelas vitrinas com os mais de 1200 documentos expostos, é o escritor que nos está a abrir as portas de sua casa e do Arquivo Fundação José Saramago, sem, na realidade, o ter feito» («Antipático? Não. “Sou um sentimental», Isabel Coutinho, Público/P2, 23.4.2008, p. 7). Mas no mesmo jornal já temos podido ler, por exemplo, isto: «É que, depois da megaoperação de fiscalização lançada pela autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) na última semana de Abril, que levou à apreensão de mais de 800 mil litros de combustível, oito bombas de gasolina, na maioria em Lisboa, foram encerradas entre sábado e quarta-feira» («Meia centena de postos de combustível fechados em Lisboa», Francisco Neves, 5.5.2006, p. 57). Ou isto: «Cabeçada de Zidane na final do Mundial inspira megaêxito músical [sic] do Verão em França» (Ana Navarro Pedro, 3.08.2006, p. 44). Ou ainda isto: «Mega-aliança GM-Renault-Nissan pode abrir perspectivas à fábrica da Azambuja» (10.07.2006, p. 41). Qual o critério subjacente, não querem dizer-nos?

Pontos cardeais

Perder a tramontana

Uma bússola portuguesa do século XVIII vai hoje, juntamente com outros objectos científicos ligados às viagens, a leilão em Londres. O Público dá conta do acontecimento, escrevendo: «Assinada por Manoel Ferreira, artesão de Lisboa, como tendo sido concebida em 1755, a bússola está finamente decorada com motivos florais em vermelho, verde, azul, amarelo e dourado e tem as armas da Coroa Portuguesa como indicador do Norte» («Bússola portuguesa do século XVIII é estrela em Londres», Bruno Manteigas, Público, 22.4.2008, p. 16). A norma ortográfica vigente estabelece, todavia, que «os nomes dos pontos cardeais e dos pontos colaterais, que geralmente se escrevem com minúscula inicial, recebe, por excepção, a maiúscula, quando designam regiões». E o texto do Acordo Ortográfico de 1990, na sua Base XIX, 1.º, al. e), também estabelece que se usa a minúscula inicial «nos pontos cardeais (mas não nas suas abreviaturas): norte, sul (mas: SW sudoeste)». Espíritos livres estes, libérrimos, que não acatam nenhuma ortografia nem convenção. Nas escolas, é claro, também se passa ao lado destas questões. Mas se os professores não sabem…

O erro na cidade

Histórias    


      Passei ontem, à pressa, pelo memorial à Matança da Páscoa, acabado de inaugurar no Largo de São Domingos. Muito digno e de elementar justiça. Do ponto de vista de um revisor, nem tudo está bem. Detectei um erro na legenda inscrita na semiesfera inclinada (a peça escultórica, da autoria de Graça Bachmann, de que mais gosto do conjunto), mas decerto com interesse apenas para revisores, pelo que hoje não digo mais nada. «Ó terra, não ocultes o meu sangue e não sufoques o meu clamor!» Citar Platão é um pouco mais complexo. Passem por lá, se puderem, e depois conversamos.
      E ainda a propósito deste monumento, pode ler-se hoje no Público: «Pode dizer-se “Lisabona, Orasul Tolerantei”? A frase significa “Lisboa, Cidade da Tolerância” e, desde ontem, é uma das 34* com o mesmo significado, em outras tantas línguas, que se lêem num mural no Largo de São Domingos, na capital. Português, hebraico, árabe, creoulo, tétum ou mandarim são algumas das línguas inscritas para evocar o massacre que, em 1506, matou entre 2000 e 4000 judeus» («Memorial do massacre de judeus afirma tolerância de Lisboa», António Marujo, 23.4.2008, p. 8). Deveria ter escrito «crioulo». Apesar de o vocábulo ter origem controversa, a ortografia actual manda-o escrever com i. Com e, só o navio-escola, antes lugre bacalhoeiro, Creola.
      Damos mais uns passinhos no texto e — zás! «A presidir, António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, e Eliezer Shai Di Martino, rabino judaico.» E há rabinos que sejam muçulmanos ou católicos, acaso?
      Damos mais uns passinhos e, ops!, lemos que «António Costa disse que, contra a “tentação dos negacionismos”, se deve a assumir a história “memória viva, crítica, activa e vigilante”, sublinhando o valor “simbólico” e “pedagógico” do memorial». O vocábulo «história» não merece uma maiúscula inicial, num jornal em que se escreve, por exemplo, a torto e a direito, «presidente» com maiúscula? Vejam lá isso. «Candidato da esquerda a Presidente paralisa Cidade do México» (Dulce Furtado, 1.08.2006, p. 19). A frase, de qualquer modo, não está muito escorreita.

* Fernanda Câncio também lá estava e escreve hoje no Diário de Notícias que serão «33 ou 34 (os dois designers responsáveis, Susana Figueiredo e Paulo Cardoso, não têm a certeza) línguas do mundo» («Três memoriais para um massacre sem memória», 23.4.2008).

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