Acordo Ortográfico

Perfeito, perfeito…

No programa Opinião Pública, na Sic Notícias, debatia-se ontem o Acordo Ortográfico. O convidado era o Prof. Carlos Reis. A determinada altura — até para justificar o título do programa —, o jornalista Miguel Ribeiro apresentou uma telespectadora, Maria Pires, que participava por telefone, como sendo licenciada em «Línguas Românticas». O Acordo Ortográfico não pode resolver estes problemas.
E a propósito do que este acordo não pode dar, também interveio Rui Beja, responsável da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). Está contra este acordo em concreto, não contra qualquer acordo ortográfico, realçou. Viu-se, porém, pela argumentação, que estaria contra qualquer acordo que alterasse a língua… Ou seja, todos. Preferia um acordo que obrigasse os Portugueses a dizerem «mouse» ou os Brasileiros a dizerem «rato». Esse seria o acordo perfeito. Mas isso não é matéria para um acordo ortográfico, já reparou? E qual seria o objectivo pretendido?

Milhão e bilião

Ilusões

«Na Galp costuma ser tudo em grande. Da valorização em bolsa, que triplicou desde a estreia, até aos muitos milhões de barris que estarão algures no Atlântico Sul. Certamente contagiado por tanta grandeza, Ferreira de Oliveira apresentou esta semana os investimentos com referência a biliões. Só que os bi do gestor sãos os billions ingleses que em português correspondem a mil milhões. Uma “pequena” diferença de três zeros à direita» (Galp. A arte de multiplicar os zeros», Diário de Notícias/Bolsa, 14.3.2008, p. 5).

Acordo Ortográfico

Consonantização

Segundo o jornal Meia Hora, Vasco Graça Moura terá afirmado anteontem na Assembleia da República que «“a aplicar-se o acordo, não tardará a dar-se a supressão na grafia — e portanto também na pronúncia — das consoantes ‘c’ e ‘p’ nos casos em que continuam a ser pronunciadas ou semiarticuladas em Portugal”» («Opositores do Acordo Ortográfico têm “comportamentos autistas”», Maria Nobre, Meia Hora, 8.4.2008, p. 4).
Já Fernando Venâncio, no Expresso/Actual de sábado passado, escrevera: «Dá-se, no nosso português, desde há séculos, um lento processo de fechamento (os linguistas falam em elevação) das vogais que, num vocábulo, precedem a sílaba tónica. Veja-se como pronunciamos “despertador”, “adormecer”, “metamorfosear”, e como os pronuncia um brasileiro. Este processo de obscurecimento e consonantização da nossa fala vai seguramente prosseguir. E uma coisa parece certa: o novo Acordo Ortográfico vem dar-lhe um valente empurrão.» A conclusão, porém, admite matizes de tendência, no que coincide com a minha opinião: «Daqui a anos, num mesmo jornal, na mesma página, um jornalista escreverá “cepticismo”, “intelectual”, “característico” e o colega “ceticismo”, “inteletual”, “caraterístico”» («Caro Acordo», p. 60). O mesmo é dizer, continuará a ser um processo lento, demorará gerações. E, se o fenómeno já vem de trás, não podemos atribuir a culpa ao Acordo Ortográfico de 1990.

Acordo Ortográfico

Vá para casa estudar

O Público de hoje fala do debate sobre o Acordo Ortográfico na Assembleia da República, como não podia deixar de ser. Entre muitas outras imprecisões, a merecerem uma nova tiragem do jornal, lê-se isto: «As letras “k”, “w” e “y” são oficialmente acolhidas no alfabeto português. É mais uma oficialização do que uma mudança, já que a prática há muito consagrou o seu uso, designadamente em vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros. Os dicionários registam, por exemplo, as palavras “kafkiano”, “wagneriano”, ou “yoga”, esta última como alternativa legítima a “ioga”» («Letras que caem, duplas grafias que ficam», L. M. Q., Público, 8.4.2008, p. 3). Não é verdade. O Acordo Ortográfico de 1945, que está em vigor, estabelece: «O k, o w e o y mantêm-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros que se escrevam com essas letras: frankliniano, kantismo; darwinismo, wagneriano; byroniano, taylorista. Não é lícito, portanto, em tais derivados, que o k, o w e o y sejam substituídos por letras vernáculas equivalentes: cantismo, daruinismo, baironismo, etc.» (Base I) Logo, não foi o uso, foi a lei a estabelecê-lo.
Mais uma imprecisão grave, e um jornal responsável não devia deslizar nestas ligeirezas: «A generalidade dos topónimos mantêm a maiúscula, mas esta torna-se facultativa em nomes de ruas, praças, etc. Vai ser possível, portanto, escrever-se avenida dos aliados ou rua augusta.» Não é verdade. Pior: é ridículo. Consigna o texto do novo acordo na Base XIX, n.º 2, al. i): «Opcionalmente, em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente, em início de versos, em categorizações de logradouros públicos: (rua ou Rua da Liberdade, largo ou Largo dos Leões), de templos (igreja ou Igreja do Bonfim, templo ou Templo do Apostolado Positivista), de edifícios (palácio ou Palácio da Cultura, edifício ou Edifício Azevedo Cunha).» E será bom que na mente do jornalista aquela «generalidade» não signifique «a maioria»…
E fala o editorial — também sobre o debate — de desatenções e erros no texto do acordo… «O próprio texto do acordo de 1990 que a CPLP divulgou e que continua na Net (cheio de desatenções e erros, prova de pressa e mau trabalho) mantém, por assim existir em Portugal e no Brasil, duplas acentuações: antropónimos/antropônimos, tónicas/tônicas, bibliónimos/bibliónimos» («A língua que se fala e a língua que por aí se vende», Nuno Pacheco, 8.4.2008, p. 42).

Acordo Ortográfico

E os estrangeirismos?

      Ora bem. Exceptuando os topónimos, nada no Acordo Ortográfico de 1990 se diz sobre a substituição de estrangeirismos por formas vernáculas. Entretanto, cá e além-Atlântico, os falantes vão fazendo esse trabalho. Como estou a reler a obra Primeiro as Senhoras, de Mário Zambujal (a 3.ª edição, de 2006, publicada pela Oficina do Livro), aproveito para mostrar como este autor veste de português alguns vocábulos estrangeiros. E digam-me depois: alguém fica com dúvidas?

«Custou-me, mas perdi com ferplei.» (p. 14)

«Fez-se roda em torno do ilustre. Prossegui marginal, chupando o último cigarro do maço e atacando o quarto uísqui.» (p. 29)

«Enquanto a Bruna bulia para lá do balcão, a prima acomodou-se na mesa mais próxima, sozinha, boa perna traçada, joelho redondo, a sorver o seu coqueteile pela palhinha.» (p. 34)

«Tudo isto educadamente, o Falinhas é um gentlemane.» (p. 35)

«Alternativa, o setripetise.» (p. 36)

«Um pouco piroso, aceito, mas é preciso atender às exigências do marquetingue.» (p. 43)

«São estas aparentes minudências que me encantam no metiê.» (p. 45)

«Corri a entrepor-me enquanto a mãe arrancava um cortinado para que descesse o pano sobre o setripe.» (p. 72)

«E agora deixo-o, mergulhado nos seus dossiês.» (p. 73)

«Admitamos, inclusivamente, que o figurão do vídeo, esse que confundem comigo, foi quem fanou o automóvel e, enfim, sábado à noite, apeteceu-lhe um drinque naquele bar simpático.» (p. 111)

«Nesta altura é indispensável meter o flechebeque.» (p. 121)

«Depois, Franquefurte, Bona, Dusseldorfe.» (p. 126)

«Com o amealhado e empréstimo do banco, adquiriu o apartamento onde mora, dispondo de mansarda que funciona como ateliê musical.» (p. 126)

«Acharia atrevimento da minha parte sugerir pausa curta, para mastigação, talvez ervilhas com ovos escalfados, no seneque em frente?» (p. 127)

«Mas hoje, enfim, é esposa e mãe no seu dupléquece a oitenta quilómetros de Antuérpia, e não se entretém a atirar namorados antigos para dentro de carrinhas cor de tijolo.» (p. 138)

«Impensável era a cambalhota que riscou o epiende.» (p. 140)

«A mala tinha-a no chão, protegida entre as pernas vestidas de jines.» (p. 146)

«Apreciaria saber como vai encaixar as peças que sobram do pâzele do rapto, alegado rapto, digamos.» (p. 150)


Regência do verbo «acabar»

E a gramática?

Título de uma notícia no Público de hoje: «Passagem da chama olímpica por Londres acaba com 35 detenções» (7.4.2008, p. 17). Se não lesse o corpo da notícia, qualquer leitor poderia suspeitar que a simples passagem da chama olímpica fizera sair das prisões 35 pessoas. À passagem da tocha por Victoria Embankment, os polícias abriam as celas, obnubilados por tão extraordinária visão. Acabar com é pôr termo a, senhor jornalista. «Acabemos com estas digressões», escreveu Garrett nas Viagens na Minha Terra. Despeço-me com amizade, até um próximo programa. Post, quero eu dizer.

Dar ou fazer erros

Erro seu

Desta vez, caro A. M. L., discordamos: «fazemos» ou «damos» erros. Cometer, só pecados. Quando contactei de perto com a comunidade goense em Lisboa, reparei, com agrado, que todos, mais ou menos instruídos, diziam «fazer um erro». Vasco Botelho de Amaral também escreveu sobre este erro, mas não tenho à mão a obra. Valha outro Vasco: «O dr. Vasco Graça Moura e outras pessoas sensatas fizeram o erro de atacar o acordo ortográfico luso-brasileiro em pormenor. A essência dessa monstruosidade acabou por se perder numa discussão técnica por que ninguém se interessa e que ninguém consegue seguir» («Muito barulho para nada», Vasco Pulido Valente, Público, 21.3.2008, p. 52).

Revisão

Pior que gralhas

Dois aspectos a reter na recensão que Pedro Aires Oliveira faz, na Ípsilon (4.4.2008), da obra Massacres em África, da jornalista Felícia Cabrita (edição de A Esfera dos Livros): «O estilo adjectivado que a autora cultiva está nos antípodas do registo sóbrio e rigoroso que associamos ao “reporting” anglo-saxónico. […] Finalmente, um trabalho de revisão mais atento poderia ter corrigido algumas inconsistências, como o facto de num capítulo o assalto às cadeias de Luanda em Fevereiro de 1961 ser atribuído a simpatizantes da UPA, e noutros a mesma acção ser imputada ao MPLA» (pp. 52-53). A cada um o seu: o estilo fica para a autora, mas as incongruências devem ser assinaladas pelo revisor.

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