Traduzir do espanhol

Ilusões

      «Doña Letizia terminou o seu discurso recordando que o príncipe Filipe também aprecia e valoriza a tarefa das mulheres empreendedoras e manifestou, por último, a sua admiração, respeito e apoio pelo esforço e ilusão que estas empresas têm pela frente em cada dia no sentido e contribuírem para o bem-estar económico e social de todos» («Letícia fala catalão em acto oficial», Diário de Notícias, 28.3.2008, p. 55).
      Dá muito jeito poder ir variando ao longo do texto, designando-a ora por «princesa das Astúrias», ora «princesa das Astúrias e Girona», ora «Letícia». Já não me parece bem é variar o próprio nome: Letizia. Pior: doña Letizia. A frase, de qualquer maneira, não é um primor. Aquela «ilusão», por exemplo. Não pretende ser a tradução da «ilusión» espanhola? Então, é uma ilusão pensar-se que está bem traduzido.
      Duas semanas antes desta notícia, tinha lido no Diário de Notícias o seguinte: «Ainda num tom ibérico vemos Sócrates a saudar telefonicamente — e em portonhol — a vitória do seu amigo José Luis Zapatero para um segundo mandato à frente de Espanha» («Sócrates, um homem banal preocupado com a maioria», Eva Cabral, Diário de Notícias, 14.3.2008, p. 20). Mas claro que se escreve «portunhol» — a língua, ou mescla de línguas, que o linguista norte-americano Steven Fischer prevê que se fale no Brasil dentro de 300 anos — e não precisa de ser grafado em itálico.

Iliteracia


Mancha da indignação

No Aspirina B, de onde a tirei, a imagem (que já tinha visto na televisão) tem a seguinte legenda: «Na foto, professor mostra conhecer bem a História de França». Talvez. Mas também mostra, e mais inequivocamente, que não sabe escrever. Como hão-de, pois, os alunos escrever correctamente se os próprios professores o não sabem fazer? Não será que isto também merecia ir parar ao You Tube?
Até o professor mais mal preparado devia saber que não se acentua o ditongo tónico iu precedido de vogal que ocorre na 3.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo de certos verbos: atraiu, caiu, contribuiu, distraiu, distribuiu, influiu, instruiu, redarguiu, ruiu, saiu, etc.
A regra mais geral, na formulação do Acordo Ortográfico de 1945, que rege a actual ortografia, consigna: «Dispensa-se o acento agudo nas vogais tónicas i e u de palavras paroxítonas, quando elas são precedidas de ditongo; nos ditongos tónicos iu e ui, quando precedidos de vogal; e na vogal tónica u, quando, numa palavra paroxítona, está precedida de i e seguida de s e outra consoante. Exemplos dos três casos: baiuca, bocaiuva, cauila, tauismo; atraiu, influiu, pauis; semiusto.
Quando as vogais tónicas i e u estão precedidas de ditongo, mas pertencem a palavras oxítonas e são finais ou seguidas de s, levam acento agudo: Piauí, teiú, tuiuiú; teiús, tuiuiús» (Base XVI).»

«Certamente que»

Palavra de imortal

      Um leitor perguntou-me se o nome do blogue de Paulo Querido — Mas certamente que sim! — está correcto. Só não fiquei admirado porque já outro leitor, pessoa que reputo muito sabedora, me tinha indicado os pecadilhos de certo escritor e crítico literário português, dando como exemplo a frase: «Evidentemente que num caso de naufrágio…» Ora, não descortinei então nem descortino hoje qualquer erro nessa construção, mas, prudente, não deixei de consultar a Academia Brasileira de Letras, que me respondeu: «As palavras derivadas costumam seguir a regência ou determinadas construções das palavras de que derivam. Assim: obedecer a, obediência a, obediente a. No seu exemplo, pode-se usar: É evidente que ou Evidentemente que; É certo que ou Certamente que. A análise de cada construção é bem diferente uma da outra, mas do ponto de vista semântico “é evidente” a correspondência.»

Léxico: «odontograma»


Ficha dentária

Nas séries televisivas como Bones e CSI ouvimos falar de fichas dentárias*, mas nunca o nome específico destas. Ficamos agora a saber. «É também nosso objectivo implementar um Plano Nacional de Intervenção para Grandes Catástrofes realçando a importância do correcto preenchimento da ficha clínica (odontograma) dos pacientes, que nunca deverá ser negligenciada. Uma das dificuldades das identificações em grandes catástrofes é a falta de informação das fichas clínicas ante-mortem» («“É também nosso objectivo implementar um Plano Nacional de Intervenção para Grandes Catástrofes”», La Salete Alves, presidente da Associação Portuguesa de Odontologia Forense (APOF), entrevistada por Gonçalo Curião, edição portuguesa da revista Dentistry, Março de 2008, p. 52). Nem o Dicionário Houaiss regista o vocábulo.

* E lemos na imprensa: «A Polícia Judiciária (PJ) está a investigar a possibilidade de homicídio de um seu alegado informador, cujo Ferrari 360 Modena se despistou e incendiou na madrugada de segunda-feira na A4, no sentido Porto-Amarante, em Ermesinde, Valongo. Carlos Emanuel Teixeira Oliveira Almeida, 29 anos, proprietário de um stand de automóveis no Porto, seria uma testemunha importante do processo “Noite Branca” e a sua identificação só foi possível pela ficha dentária, pois o corpo estava completamente carbonizado» («PJ investiga morte ao volante de ‘Ferrari’», Joana de Belém, Diário de Notícias, 5.3.2008).

Ortografia: «peras»

Imagem: http://www.teachartathome.com/

Ora peras!

«A pêra, uma fruta singela que pertence à família Pyrus, está no auge de sua safra, conferindo à casca uma textura firme sem cortes, rachaduras ou manchas pardas. Além de conter vitaminas A e C e todas do complexo B, é uma das frutas mais ricas em sais minerais e ideal para regimes, pelo baixo valor calórico. […] O filé mignon com balsâmico guarnecido de risoto de pêras e aspargos (R$ 39,50) vai entrar na próxima semana no cardápio de outono do Doce Delícia, como um dos hits. […] Tanto que na Itália há um ditado que diz: “Não diga ao fazendeiro como é gostoso queijo com pêras” — cita Massimo Torresan» («Em alta na estação, as pêras invadem o menu», Pat Zinger, Jornal do Brasil, 29.3.2008, p. R6).
Nisto são iguais, os jornalistas portugueses e os brasileiros: atropelam levianamente a língua. Com a pressa, esquecem as regras. Cá como lá, o plural do vocábulo «pêra» não tem acento — peras. Para que havia de ter, não me sabem dizer? Em «pêra» é um acento diferencial ou distintivo. Absolutamente desnecessário, é verdade, pois a palavra com que se podia confundir é a preposição pera, que já não se usa, é um arcaísmo (excepto para o jornalista Pedro Bicudo, mas duplamente mal, pois não apenas não se usa como nunca foi pronunciada com e fechado, mas mudo ou aberto). Logo, como as preposições não têm plural, «peras» não precisa de acento. Absolutamente desnecessário, dizia eu, e volto a dizê-lo, desta vez em relação ao substantivo «pólo», pois que a preposição «polo» é também arcaica. Incongruências que a reforma ortográfica de 1971 podia ter eliminado.
O Acordo Ortográfico de 1990 estabelece na Base IX (Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas), art. 9.º: «Prescinde-se, quer do acento agudo, quer do circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respectivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas. Assim, deixam de se distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e para, preposição; pela(s) (é), substantivo e flexão de pelar, e pela(s), combinação de per e la(s); pelo (é), flexão de pelar, pelo(s) (é), substantivo ou combinação de per e lo(s); polo(s) (ó), substantivo, e polo(s), combinação antiga e popular de por e lo(s); etc.»

Léxico: «filopátrico»

Já tinham pensado nisto?

«De facto, as águias-imperiais têm tendência a instalar-se perto do local onde nasceram — ou seja, são animais filopátricos» («Águia-imperial regressa ao interior de Portugal», Inês Santinhos Gonçalves, Público/P2, 7.3.2008, p. 4). Duas coisas. Primeira: o vocábulo «filopátrico» não aparece registado em nenhum dicionário da língua portuguesa. Segunda: grafar com hífen as palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas é algo que já toda a imprensa faz — antecipando-se em anos ao que o Acordo Ortográfico de 1990 estipula. Mesmo as almas cândidas que estão contra o acordo o fazem. Sem terem consciência, decerto. Devem estribar-se, forneço-lhes o argumento, na analogia…
«Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento: abóbora-menina, couve-flor, erva-doce, feijão-verde; benção-de-deus, erva-do-chá, ervilha-de-cheiro, fava-de-santo-inâcio, bem-me-quer (nome de planta que também se dá à margarida e ao malmequer); andorinha-grande, cobra-capelo, formiga-branca; andorinha-do-mar, cobra-d’água, lesma-de-conchinha; bem-te-vi (nome de um pássaro)» (Base XV (Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares), art. 3.º).
Sem acrimónia, agora: independentemente do valor deste acordo, faria sempre falta — na ausência de uma entidade pública competente que o faça no dia-a-dia, como sucede noutros países — um instrumento regulador destas questões do hífen. Pelo menos. Sim, uma coisa tão pequena… Só quem não lida, não luta, com a língua todos os dias é que pode subestimar a importância da questão. Lembram-se decerto da parte da entrevista de Evanildo Bechara ao jornal O Globo que aqui transcrevi: «A reforma estabelece 13 regras para utilização do hífen. É um avanço, já que hoje Portugal tem mais de quarenta regras e sub-regras. Mas isso ainda poderia ser resolvido com quatro ou cinco regrinhas muito simples, que tivessem como critério básico impedir pronúncias erradas.» Tantas e tão poucas. Na verdade, nesta matéria, o falante sente-se menos perdido com a complexidade do que com as lacunas.

Dois exemplos: «A praga de topillos, ratos-cegos-mediterrânicos que desde Julho assolam os campos de Castela e Leão, diminuiu 58 por cento, revelou ontem Sílvia Clemente, responsável de Agricultura do governo de Valhadolid. No combate aos roedores estão envolvidos especialistas da Alemanha, EUA, Reino Unido e França» («Praga de roedores em Castela diminuiu», Nuno Ribeiro, Público, 6.09.2007, p. 18).
«Todos os anos, quando chega Junho, o biólogo Jaime Ramos, de Coimbra, parte para as paradisíacas ilhas Seicheles, no Índico. Mas não vai de férias. Pelo contrário. É nessa altura do ano que se inicia a época reprodutiva das andorinhas-do-mar-róseas, cuja população o biólogo português estuda ali há dez anos» («Estudar andorinhas num paraíso tropical», Filomena Naves, Diário de Notícias, 12.1.2208, p. 42).

Mianmarense, mianmense ou mianmarês?

O mundo em mudança

«Mesmo que a noite já tenha caído há muito, o calor e a humidade tomam conta de Yangon, a maior cidade deste misterioso país que dá pelo nome de Myanmar. Duas palavras, aliás, que há alguns anos não fariam muito sentido, devido à decisão de alterar todos os nomes que “cheirassem” a colonialismo britânico. Yangon é a antiga Rangoon, Pagan é Bagan, Pegu é a actual Bago, o rio Irrawaddy é hoje chamado de Ayeyarwady e até o nome do próprio país foi substituído — Birmânia, em português, ou Burma, em inglês, transformou-se em Myanmar. E dei comigo em intrincados pensamentos antes de adormecer agarrado à almofada — se um natural da Birmânia é um birmanês, como se chamará um natural de Myanmar? Myanmarês? Myanmarense? Myanmano? Não dá jeito nenhum» («Navegar no rio dourado», Paulo Rolão, Global/Volta ao Mundo, 27.3.2008, p. 12). O jornalista podia ter usado um dicionário, ou não? Isso sim, dava jeito. O Dicionário Houaiss regista duas formas: mianmarense (a que prefiro) e mianmense. A forma mianmarês, a que chegamos por analogia, não é impensável, mas não está registada em nenhum dicionário nem — sobretudo — é usada. O jornalista, contudo, aflora uma questão importante: é necessário designarmos de outra forma um país que sempre conhecemos como Birmânia? É de admitir que durante algum tempo as duas designações sejam usadas quase na mesma medida, acabando por prevalecer a nova. Por muito que não gostemos.

Léxico contrastivo: «de quebra», «turbinar»

É longe

As famílias brasileiras que têm condições financeiras para isso mandam agora os filhos estudar para a Nova Zelândia. Ouçamos a estudante Camilla Pinto, de 18 anos, que já fez dois intercâmbios. Em 2006, esteve no Canadá. No ano seguinte, foi para a Nova Zelândia. «“Fiquei surpresa com a forma com que fui recebida. Além de aprimorar o inglês, conheci um país maravilhoso, vivenciei uma nova cultura, fiz amizades e, de quebra, ainda turbinei o meu currículo”, disse Camilla, que ficou hospedada durante um ano em casa de neozelandeses em Auckland» («Nova Zelândia vira uma opção», Flávia Lima, Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. R4). Segundo o jornal, «a média de preço é de cerca de R$ 3 mil por mês, valor que inclui escola, acomodação em casa de família e alimentação», o que equivale a cerca de 1100 euros. De quebra, isto é, «ao mesmo tempo, em acréscimo». Turbinar é «fomentar, desenvolver, incrementar».

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