Elemento de composição «crio»

Crio-qualquer-coisa

      «Os polacos roubaram imediatamente a ideia e desataram a revigorar atletas de alta competição em crio-câmaras e um empresário checo achou que não havia razão para que a bizarria não servisse as massas. […] Abriu as crio-câmaras há ano e meio, e já se transformaram no último grito dos tratamentos de beleza» («Viagem a quatro minutos da morte», Ivete Carneiro, Global/Notícias Sábado, 24.3.2008, p. 12). Pois, pois, mas a verdade é que o antepositivo crio não se liga com hífen ao segundo elemento de composição: criobiologia, criobomba, criocautério, criocirurgia, crioconservação, crioextractor, criogenia, etc.

Elemento de composição «recém» (I)

Vejam lá

      «A recém-mamã Nicole Richie tem medo de já não ser divertida! A celebridade, que deu à luz a sua primeira filha a 11 de Janeiro, diz que a maternidade a fez querer assentar e deixar de ir a tantas festas» («Nicole Richie anda preocupada», Global, 24.3.2008, p. 23). Já o escrevi aqui um dia: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. O jornalista deveria, dando outra redacção à frase, ter usado o adjectivo ou o advérbio da mesma família: recente, recentemente.

Tradução: «juniper»

Imagem: http://www.licores-serrano.pt/

Juniperus communis

      Como vi duas vezes em pouco mais de uma semana, talvez valha a pena referir a forma como se traduz a palavra inglesa juniper. A primeira foi numa obra literária. Anteontem, ao rever A Paixão de Shakespeare (com tradução de Georgina Torres, da Moviola), lá vinha também o «junípero». Se usarmos o corpus CETEMPúblico, por exemplo, nem sequer uma ocorrência de «junípero» está registada. De «zimbro», há 18. À minha volta, ninguém conhece a palavra «junípero». Mesmo amigos da zona da serra da Estrela (e recordemo-nos de que a única empresa, tanto quanto sei, que produz licor de zimbro se situa no vale do Zêzere, entre a serra da Estrela e a serra da Gardunha) desconhecem o vocábulo. Só botânicos e biólogos a conhecerão. Ah, e tradutores. A razão é bem simples: em alguns dicionários bilingues inglês-português, no verbete juniper aparece em primeiro lugar «junípero»… É que o nome comum é Juniperus communis.

«Ponha-a a marinar no vinho, juntamente com as bagas de zimbro e os alhos esmagados, a pimenta em grão, e as ervas aromáticas» (in CETEMPúblico).

Topónimos

Colonos em Trás-os-Montes

      É interessante o que o Global hoje publica sobre a colonização interna na década de 1950. Ficamos a saber, entre outras coisas, que este movimento veio a dar nome a algumas localidades.
«Nos anos 50 do século passado, enquanto milhares de portugueses optavam pela emigração várias famílias aceitaram o desafio de colonizar as zonas mais desérticas do Portugal continental. Salazar mandou preparar, por intermédio da Junta de Colonização Interna, terrenos para 160 colonos que ocuparam 4355 hectares de terrenos baldios. O plano de acção da junta, que foi apresentado em 1937, tinha como objectivo o desenvolvimento da actividade agrícola nos distritos de Portugal com mais área de baldios.
      Segundo o professor catedrático Eugénio de Castro Caldas, em A Agricultura na História de Portugal, foram instalados 24 colonos no Alvão (Vila Pouca de Aguiar), 57 nos baldios de Boticas e Montalegre, 12 nos Milagres (Leiria), 36 na Colónia de Martin Rei (Sabugal), 10 na Boalhosa (Paredes de Coura) e 22 na Gafanha (Ílhavo). […] Na zona do Alvão foi incrementado o cultivo da batata entre os colonos, os quais viriam a dar nome às localidades onde foram instalados. Em Vila Pouca de Aguiar contam-se os Colonos de Soutelo, Colonos de Baixo ou Colonos do Campo de Viação» («Jovens agricultores foram colonos há meio século», Paula Lima, Global, 24.3.2008, p. 11).

Iliteracia

Ropa muy ponible



      Loja Gerard Darel, Rua Castilho. O programa Caras Notícias mostrou-nos a fina-flor, ou quem pretende alcandorar-se a tal, a escolher algumas peças de vestuário e adereços. Algumas têm a sorte de ser a marca a emprestar-lhes as peças. Como é o caso de Isabel Palmela, que, entrevistada, afirmou que a roupa da marca é muito «ponível e bonita». Está muito bem: faltava a palavra adequada, Isabel Palmela foi buscá-la ao espanhol e adaptou-a.
      Em contrapartida, durante o programa ficámos a saber que o nome da filha da actriz Halle Berry é Nahla Ariela Aubry, que na «língua muçulmana» significa «abelha que faz mel». Os responsáveis do programa deviam reflectir uns segundos antes de dizerem tais disparates. Está-se mesmo a ver: leram ou ouviram que «it’s a Muslim name that means»…

Acordo Ortográfico

O xibolete

O escritor e professor brasileiro Deonísio da Silva tem hoje no Jornal do Brasil uma crónica («O xibolete do português», 23.3.2008, p. A11) em que defende — em menos de meia dúzia de palavras — o Acordo Ortográfico. Pelo meio, lembra a história do xibolete. Conhecem? Vem no Livro dos Juízes. A tribo de Galaad estava em guerra com a de Efraim. A senha para identificar os efraimitas fugitivos era a palavra shibolet, «espiga». Os efraiditas, porém, pronunciavam uma variante dialectal da palavra, diferente no fonema inicial, sibolet, porque eram incapazes de pronunciar correctamente. Eram então presos e mais tarde degolados nos vaus do Jordão. E assim morreram, nesse dia, quarenta e dois mil homens de Efraim.
Deonísio da Silva afirma depois que o xibolete da língua portuguesa é o ditongo ão. Mas, neste caso, não de alguns falantes do português, mas de todos. Só funciona em relação aos estrangeiros, e por isso lembra mais uma história: «O poeta Mário Quintana, percebendo os atrapalhos de Sua Santidade para pronunciar o ditongo “ão”, escreveu ao Papa: “Sendo Vossa Santidade um poliglota notável, vejo que não consegue pronunciar o famoso ão da língua portuguesa. E tomo a liberdade de esclarecê-lo sobre esta pronúncia. Considere o ão como dois monossílabos, ã mais o, e tente pronunciá-los cada vez mais rapidamente. Assim obterá o nosso ão. Esperando sua bênção, respeitosamente. Mário Quintana.”»
Para concluir: «De todo modo, com a iminente vigência do acordo ortográfico, virão à tona xiboletes diversos, tantas são as sutis complexidades das diferenças com a língua portuguesa falada no Brasil, em Portugal, na África, e na Ásia. Camões já vaticinara: “Na quarta parte nova os campos ara/ E se mais mundo houvera, lá chegara.” Mas dos cerca de 300 milhões de falantes do português, dois terços deles vivem e falam no Brasil! Ocorre, porém, que os xiboletes são da fala. Na escrita, a unificação vem em boa hora.»

Iliteracia

D. Pedro, o Capacidónio

É muito engraçado — e muito revelador do que era a monarquia portuguesa — o que escreve João Ferreira sobre D. Pedro III (1717-1786). «A aristocracia era encabeçada pelo marido (e tio) da rainha, D. Pedro III, irmão de D. José. À falta de atractivos físicos aliava o rei consorte a pouca inteligência. Na corte puseram-lhe a alcunha de “capacidónio”: era uma das suas palavras preferidas e com ela se referia às pessoas a quem tencionava atribuir um cargo, depois de ter apanhado de ouvido que alguém era “capaz e idóneo” para determinado emprego…» («A rainha louca», João Ferreira, Notícias Sábado, 15.3.2008, p. 92).

Semântica: «matraca»

Matraca da Semana Santa: http://sarrabal.blogs.sapo.pt/

Santo matraquear


Um leitor brasileiro, Mário, pergunta-me a origem da palavra «matraca». E, para não haver equívocos, acrescenta: «Aquele instrumento barulhento que, na Semana Santa, se usa nas procissões?» Na verdade, seja qual for a acepção, o étimo é o mesmo: o árabe hispânico maṭráqa, e este do árabe clássico miṭraqah, «martelo». Na definição do Dicionário Houaiss: «peça de madeira com uma plaqueta ou argola que se agita barulhentamente em torno de um eixo, usada especialmente como instrumento litúrgico em substituição da sineta durante a quinta-feira e sexta-feira da Semana Santa». A definição do DRAE é menos politicamente correcta: «Instrumento de madera compuesto de un tablero y una o más aldabas o mazos, que, al sacudirlo, produce ruido desapacible.» Tão desagradável — simboliza os trovões que ensurdeceram o povo de Jerusalém após a morte de Jesus Cristo* —, na verdade, que «matraca» passou também a significar a pessoa tagarela que nos mói o juízo. Também chamada matraca-da-quaresma. Matraquear, matracolejar e afins, todos reforçam a justeza da definição espanhola.


* No Evangelho segundo São Lucas (23,44-45), lê-se: «Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde.
O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio.»

Arquivo do blogue