Glossário: golfe

Buracos



      Recentemente, saiu na revista Notícias Sábado um artigo («O puto maravilha», Tiago Salazar, NS, 15.03.2008, pp. 78-82) sobre o golfe com um pequeno glossário final. Embora tenha poucos termos, e nem sequer os mais conhecidos, tem a vantagem de estar mais bem escrito do que a generalidade dos glossários semelhantes que se encontram na Internet.

«Birdie — Quando o jogador termina um buraco com menos uma pancada do que o par respectivo (exemplo: jogador faz 3 pancadas num par 4).
Bunker — Obstáculo também conhecido por poço de areia.
Caddie — O carregador dos tacos e muitas vezes conselheiro do jogador em momentos cruciais.
Fairway — Zona de relva cortada entre o tee e o green e que é considerada zona jogável.
Green — Onde está o buraco e a bandeirola que o distingue à distância. A relva do green é mais aparada do que a restante e é nele(s) que se decidem as partidas de golfe.
Par — Número predeterminado de pancadas em que o jogador deve alcançar um buraco.
Pró — Profissional de golfe.
Putt — O taco que se utiliza no green e que tem zero graus de inclinação. Segundo as regras, cada jogador pode levar até 14 tacos no saco. Cada taco tem um loft ou grau de inclinação que varia, em média, entre os 0 graus do putt e os 60 graus do sand wedge (o taco usado particularmente no bunker ou nas pancadas de aproximação).
Swing — Movimento.
Tee — Pode ser o adereço onde se coloca a bola para a primeira pancada em cada um dos 18 buracos ou o torrão de relva onde começa cada buraco.»

Léxico contrastivo: «dezembro»

Assim o provo

«O Distrito Federal entrou na disputa para sediar a II Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Além de Brasília, Uberlândia também está na disputa. A cidade mineira foi visitada no começo do mês por membros da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que estudaram a acessibilidade e a capacidade da cidade de receber os participantes da conferência, que acontece em dezembro» («Brasília quer sediar encontro nacional», Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. R3). Havia muito para dizer sobre este parágrafo, mas o pretexto é para falar da inicial minúscula no nome dos meses. Antecipando-se ao Acordo Ortográfico, que enquanto não entrar em vigor é somente eventual, alguma imprensa portuguesa, descuidada, laxista, já escreve o nome dos meses com minúscula inicial. E não se envergonham. Nem os revisores que lá estão a fingir que revêem. Pois, só com o novo Acordo Ortográfico é que isso vai ser legítimo. Estabelece a Base XIX, n.º 1, al. b): «[A letra minúscula inicial é usada] Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera».
Quanto a sediar. Prefiro, para significar «ter sede em», a forma «sediado», que importámos do Brasil. A letra i, não há que estranhá-la: é uma vogal de ligação. Independentemente de gostos e teorias, a imprensa vai preferindo também usar esta grafia. No CETEMPúblico, por exemplo, encontramos 2182 ocorrências de «sediado» (e a forma feminina, «sediada») e somente 68 de «sedeado» (e a forma feminina, «sedeada»).

«A iniciativa será extensível a Guimarães, o outro pólo da Universidade do Minho, sediada em Braga» («Universidade distribui bicicletas», Global, 18.1.2008, p. 3).

«Mas há ainda quem o conheça como “o Melim dos Automóveis Clássicos”, clube sediado na região» («O maior coleccionador de postais da Madeira», Lília Bernardes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 8).

«Os serviços de mediação dependentes do Ministério da Justiça funcionam nos Julgados de Paz e em instalações cedidas pelos municípios. O IMAP está sediado em Lisboa, na Rua sidónio Pais, 20 r/c Esq.» («Como se pode recorrer aos serviços?», Isabel Stilwell, Destak, 20.2.2008, p. 4).

«A actividade dupla de Manuel (nome fictício), 41 anos, foi finalmente interrompida no passado sábado pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária (PJ), no decurso de uma investigação após a ocorrência de um assalto a uma agência bancária, sediada em Picoto, Santa Maria da Feira» («Vendia artesanato e assaltava bancos», André Barbosa, Metro, 19.2.2008, p. 4).

«A Hovione, empresa química sediada em Loures, adquiriu 75% de uma fábrica chinesa do sector químico e farmacêutico com 181 trabalhadores» («Hovione compra indústria química na China», Global, 28.2.2008, p. 8).

«Católicos de rito oriental, os caldeus — cerca de 550 mil — constituem a principal comunidade cristã do país [Iraque] que, no total, tem 700 mil cristãos. É também uma das mais antigas igrejas cristãs. O seu principal líder espiritual é o Patriarca Emmanuel III, que está sediado em Bagdad» («Papa e EUA condenam morte do arcebispo caldeu de Mossul», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 14.3.2008, p. 33).

«10 ME. Valor que a companhia sediada em Braga espera atingir com os negócios durante este ano» («Aeronorte compra dois aviões por 30 ME», Meia Hora, 18.3.2008, p. 9).


«Os resultados da BMW-Sauber — cujo outro piloto, Nick Heidfeld, partilha o segundo lugar do Mundial com Kimi Raikkonen, a três pontos de Hamilton — reabre a discussão sobre a possibilidade de a equipa sediada na Suíça se intrometer na luta entre Ferrari e McLaren» («O novo e magro Kubica sai da pole position, uma estreia do piloto polaco e da BMW», Hugo Daniel Sousa, Público, 6.4.2008, p. 32).

«Como explica Jim Weill, presidente do Food Research and Action Center, uma organização de combate à fome sediada em Washington, esta “avalanche” de pedidos de apoio alimentar explica-se pelo aumento do desemprego e crescente precariedade laboral, e ainda pela inflação dos preços dos combustíveis e do cabaz alimentar mais básico» («Americanos dependentes da ajuda alimentar à beira de recorde histórico», Rita Siza, Público, 6.4.2008, p. 42).

«E já vão três, em apenas uma semana. Depois da Ata Airlines e da Aloha Airlines (esta sediada no Havai), ontem foi a vez de a low-cost americana Skybus Airlines ter anunciado que iria terminar as suas operações. A culpa, dizem todas, é do aumento dos combustíveis» («Aumento dos combustíveis obriga a fecho de low-cost», Público, 6.4.2008, p. 43).


Léxico contrastivo: «pidão»

Pides e pidões


      «Ágeis, travessos e com cara de pidões, os micos viraram febre na cidade. Basta estar próximo a um aglomerado de árvores que rapidamente é possível escutar os assobios dos primatas. Mas, apesar do jeitinho doce, que rouba sorrisos e afeto de crianças e adultos, os animais estão deixando especialistas da área preocupados. O Rio testemunha uma proliferação desses macaquinhos e o desequilíbrio ambiental já é uma realidade na cidade» («Micos, a diversão que está virando problema», Janaína Linhares, Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. A15). Quanto a micos, deixei que os leitores percebessem o que é — mas pidões? Mais: «com cara de pidões»? Na rua dos meus pais morava um pide, um agente da PIDE. Por muito que me custe admiti-lo, não tinha uma cara patibular, antes uma cara aparvalhada. Dizia-se que, além do que se lhe pedia, uns tabefes, umas torturas, também tinha violado uma rapariga quando estava de serviço num posto fronteiriço. Teve de fugir no 25 de Abril, mas uns tempos depois já tinha um emprego. Um prémio pelo zelo. Mas sim, não me esqueço: pidão. É aquele que pede muito.

Acordo Ortográfico

É um argumento

«O ministro da Cultura disse ontem que o Acordo Ortográfico é uma “necessidade para a expansão da língua Portuguesa”, sustentando no Parlamento que as reformas anteriores “não destruíram a criatividade e a liberdade de escrita”. José António Pinto Ribeiro respondia a perguntas dos deputados da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa alcançado em 1991 e ratificado pelo Brasil, Cabo Verde e São Tomé» («‘É uma necessidade para a expansão da língua Portuguesa’», Global/JN, 20.3.2008, p. 6).

«Soundbite»

Língua mordida


      É quase uma praga. Toda a gente agora quer usar a palavra soundbite numa frase qualquer. «São famosas as metáforas de Lula da Silva. Frases jocosas, lapsos, gafes. Ou simplesmente metáforas. Desde a celebérrima “só nos falta encontrar o ‘ponto G’ da discussão” até ao “estuda, meu filho, se não ainda vai virar Presidente”, Lula demonstra ter tendência para o sound byte, conscientemente ou não» («Aforismos», Nuno Amaral, Sexta, 14.3.2008, p. 11). Mas — pergunto-me e pergunto aos leitores — isso não é, ao mesmo tempo, uma mordidela no inglês e no português? É que nos dicionários de língua inglesa só vejo registado, como substantivo, «sound bite» ou «soundbite». Luís Paixão Martins, no seu blogue Lugares Comuns, define-a: «Chamei “mordidelas silenciosas” à secção de citações deste blogue em jeito de trocadilho com a palavra “soundbite”. Como o blogue é por natureza silencioso, aqui os “bites” não produzem som. “Soundbite” é uma palavra relativamente antiga que tem a ver com a rádio. Quer dizer, literalmente, mordidela (ou dentada) sonora e designa uma frase curta e com impacto retirada do contexto. “Houston, we have a problem”, da missão Apolo XIII, é um “soundbite” ainda hoje frequentemente repetido. No mundo actual, quase tudo anda à volta dos bits e dos bytes, mas “soundbite” não…»
      No portal da American Bar Association (que vale a pena explorar, sobretudo nesta secção), encontro esta definição: «Soundbite: A short but complete and emphatic statement that is most likely to be incorporated into a news broadcast.»

Ortografia: «Lhasa» ou «Lassa»?

Costumes lassos

A capital do Tibete é Lhasa ou Lassa? E o que estabelece o novo Acordo Ortográfico sobre a matéria? Ambas as formas se podem encontrar na imprensa portuguesa. Dois exemplos: «Perante estas declarações, o primeiro-ministro chinês não só acusou o Nobel da Paz de potenciar os confrontos em Lhasa, como ainda referiu que o propósito seria “evitar a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim”» («Dalai Lama pode abdicar contra violência no Tibete», Margarida Caseiro, Meia Hora, 18.3.2008, p. 6). «Há quase duas décadas que Lassa, a capital do Tibete, não assistia a protestos com a dimensão dos verificados esta semana» («Protestos antichineses põem Lassa a ferro e fogo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 15.3.2008, p. 15).
Por uma vez, a redacção é inteligente: «Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente» (artigo 6.º da Base I). Abre-se a porta não apenas à tradição (e nem toda a tradição, lembrem-se, é respeitável), mas à adaptação consensualmente aceite. Assim, a tradição pode começar todos os dias. Prefiro a grafia Lassa.

Actualização em 28.3.2008

No Jornal de Notícias grafa-se, respeitando a ortografia vigente, como está registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, Lassa: «Os jornalistas estrangeiros escoltados pelo Governo chinês até Lassa descreveram a capital tibetana como uma cidade tensa, marcada pela violência e onde ainda cheira a fumo quase duas semanas depois dos primeiros protestos anti-China» («Duas semanas depois a capital do Tibete ainda cheira a fumo», Global/Jornal de Notícias, 28.3.2008, p. 11).

«Cava»?

Cella vinaria, com dolia enterrados: http://www.culturacampania.rai.it/

Antes cova

Tirando a de Viriato, a veia, a que se faz com uma enxada e pouco mais, para que precisamos nós da palavra «cava»? Para nada, parece-me. Fora disto, é como espanholismo que a usamos. «Portugal consumiu, em 2005, 800 mil garrafas de cava, o vinho espumante produzido, principalmente na região espanhola da Catalunha, o que representa um crescimento de 35 % face ao ano anterior» («Um espumante que quer ser conhecido», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 10.6.2006). Isto para dizer que underground cold-store se traduz por «cave» e não por «cava». O espanhol cava vem do latim cava, «cova», «fossa», e, para aquilo que aqui interessa, é, «en palacio, dependencia donde se cuidaba del agua y del vino que bebían las personas reales». Macacos me mordam se isso não é uma adega ou cave. Tanto mais que esse underground cold-store não serve para armazenar vinho, mas outras provisões. Já a 1.ª edição do Dicionário da Academia Francesa, de 1694, definia assim o vocábulo «cave»: «Lieu creux & soûterrain pour mettre du vin & autres provisions.» Para armazenar vinho, era a cella vinaria ou cauea vinaria dos Romanos.

Iliteracia

Acordo? Mas qual acordo?

Hospital Inglês, Campo de Ourique.
Uma recepcionista jovem atende uma chamada. Alguém a marcar uma consulta.
— Sim… Fale devagar…
Do outro lado da linha, soletram um nome.
— Esse, esse, hífen…
Perpassa-lhe uma sombra de dúvida pelo rosto. Pergunta à colega do lado:
— Hífen é ípsilon, não é?...
A colega não tem a certeza, vê-se, mas arrisca:
— É.
Quase em simultâneo, desinstalo-me do meu conforto e digo:
— Não é. É o tracinho, lembra-se?

Arquivo do blogue