Léxico: «vioxene»

Estava-se mesmo a ver

No Ciberdúvidas, querem descobrir a pólvora. Um leitor perguntou se existe em português a palavra «bioxene». O consultor A. Tavares Louro começa por afirmar que «os sons da língua original não são facilmente adaptáveis à língua portuguesa», para concluir que, «no entanto, a grafia /viaxene/ parece-nos a mais adequada». Bem, a verdade é que o aportuguesamento do francês vieux-chêne já existe há muito tempo. E, correcto ou incorrecto, fixou-se em duas formas: bioxene e vioxene. Mais esta, na verdade, do que aquela. E foi munido desta última que eu, mais do que uma vez, fui à drogaria do Sr. Zé Mariano comprar o produto. «Queria 100 gramas de vioxene, Sr. Zé Mariano.» Nunca o homem, na dúvida, me pediu: «Escreva lá isso.» Não. Ia buscar, embrulhava numa folha das Páginas Amarelas e pesava.
São assim, os académicos. Para umas coisas, dão a voz ao povo, para outras, arvoram-se em porta-vozes do povo.

«Snorkel»!

A Lagoa de Sherman, de Jim Toomey, in Metro

De focinho no ar


Engano o vosso. Não quero imprecar o tradutor (não referido, de resto) que usa um estrangeirismo facilmente substituível. De passagem, ainda assim, digo-o: bem podia ter usado «tubo de respiração», que nós perceberíamos. Mas não, repito. O que quero dizer é que, já agora, se usam estrangeirismos, que os escrevam correctamente. Escreve-se «snorkel» e não «snorkle». E sim, é um tubo de respiração à superfície. Embora, ao que parece, inventado por mecânicos holandeses, o tubo — não para este fim, mas o tubo dos submarinos, e é a primeira acepção, cronologicamente — foi baptizado pela Marinha alemã no início da década de 1940: Schnorchel, da gíria dos marinheiros para «nariz», «focinho». Só em 1949 foi anglicizado para snorkel.

Léxico: «tremendismo»

Fiquem com esta

Depois de, no Fórum Novas Fronteiras, o primeiro-ministro ter usado a palavra «tremendismo», alguém tinha de vir explicar o seu sentido. Coube a vez a José Júdice, na sua coluna no Metro: «O primeiro-ministro, numa deambulação poética àquele rigor de linguagem próprio dos engenheiros, acusou os críticos do Governo de “tremendismo”. O vocábulo pode parecer novo no léxico dos insultos políticos nacionais e inusitado num homem com vasta experiência em pré-esforçados e resistência de materiais, mas tem um antigo registo de patente aqui ao lado em Espanha. Já em 1947 o filósofo castelhano Antonio de Zubiaurre reclamava para si a utilização pela primeira vez do vocábulo “tremendista”, nem “casual nem frívola”, explicava, uma vez que pretendia fundir num só conceito todos aqueles excessos que dantes exigiam um parágrafo inteiro de adjectivação. “Tremendismo”, assim, é simultânea e concomitantemente a expressão abrangente de tudo o que é abissal, horrível, espantoso, imenso, doloroso, explosivo, sideral, cósmico, com uns pós de “cruas ingerências anatómicas”, especificava Zubiaurre, como sangue, ossos, pele, veias, entranhas. Resumindo, dizia o filósofo, o tremendismo representa o “estalo, violentíssimo, do vulcão” («O tremendismo», José Júdice, Metro, 27.2.2008, p. 12).

Terminologia militar

Dicionário

Na Internet, por vezes, uma simples palavra conduz-nos a tesouros. Foi assim que encontrei o English-Portuguese Dictionary of Military Terminology, um projecto da Military Review. Tem 929 páginas e está aqui.

Acordo Ortográfico

Resolvam-se

“Gosto da minha língua tal qual a escrevo, mas não posso impor a 150 milhões de pessoas os meus gostos pessoais. Mas recordo que aprendi a escrever mãe com ‘e’, depois mandaram-me escrever com ‘i’ e depois voltaram a mandar escrever com ‘e’, quando a mãe era sempre a mesma”, sublinhou Saramago» («Acordo Ortográfico. José Saramago critica impasse», Global, 27.2.2008, p. 6).

Tradução: «pellet»

Imagem: http://www.duconsult.com/

Pastilhas para a lareira



       Ração para animais? Não. «Jack Murphy of Winchendon, Mass., has long burned wood in his home, but he was tired of buying and splitting the wood, feeding the stove and cleaning the ash. He switched to a pellet stove last year» («With Oil Prices Rising, Wood Makes a Comeback», Katie Zezima, The New York Times, 19.2.2008). Na tradução do Jornal do Brasil, ficou: «Jack Murphy de Winchendon, Massachusetts, há muito queima madeira em sua casa, mas cansou de comprar e partir a madeira, e de limpar a sujeira. Trocou, no ano passado, o fogão antigo por outro à base de pastilhas de madeira» («De volta aos aquecedores a lenha», 24.2.2008, p. E8). Muito bem: o tradutor optou por verter o vocábulo inglês pellet (bolinha de papel, de pão, etc., grão, pílula, pastilha…) por «pastilha de madeira». Em Portugal, em que é mais comum ver à venda briquetes (quase o mesmo que os pellets, apenas com a diferença de que os briquetes são o resultado da compactação de resíduos ligno-celulósicos, sob pressão e temperatura elevadas, tais como galhos e cascas de árvores, aparas de madeira, serragem, pó de lixa, maravalhas, bagaço de cana-de-açúcar, casca de arroz, palha e sabugo de milho, etc.), os pellets são vendidos sob o nome de… pellets. São usados como combustível em fogões, lareiras, salamandras, recuperadores de calor e caldeiras industriais e caseiras.

«Expulsação»?

Podia ser

Não há como negá-lo: podia existir. Mas não existe. Existe «expulsamento» e «expulsão». Esta é a acção de expulsar, de escorraçar, de pôr fora de um país, de um lugar, de uma companhia. É um despejo. Em medicina, é a acção de fazer sair, de fazer evacuar. Vamos a isto: «O presidente do Sudão, Omar el-Beshir, anunciou a expulsação de organizações dinamarquesas e o boicote de produtos daquele país nórdico» («Sudão expulsa e faz boicote de produtos», Destak, 25.2.2008, p. 25). E o jornal tem revisão…

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