Entrada e «couvert»

Assim não falham

Nem sequer um dos jornais em que li a notícia da sugestão da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (APDC) deixou de usar, no mesmo texto, as palavras «couvert» e «entrada». Todos têm a primeira, «couvert», no título, e todos se vêem na necessidade de lançar mão da segunda, «entrada». Isto é muito estranho. Todos parecem reconhecer que os termos se equivalem, mas todos receiam que haja quem não saiba o que é uma entrada. Alguns dos jornais até envolveram cuidadosamente a entrada em aspas, qual celofane, não venha aí a ASAE e lhes aplique uma coima.

Acabou-se o «plafond»

Ainda há esperança

      Nem tudo é mau. Nem tudo está perdido. Até os jornais gratuitos se esforçam agora por escrever correctamente. Ora veja-se: «Saúde. Os cheques-dentista, que terão tectos máximos anuais de 120 euros para as grávidas e de 80 euros para os idosos, podem ser usados a partir de 1 de Março» (Destak, 20.2.2008, p. 5). Sim, acabou-se o plafond, esse tão desnecessário galicismo. Tecto por tecto, temos o nosso, que abriga tão bem como os franceses, e é igualmente eficaz como limite de despesas permitidas. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista: «plafond. s. m. (Fr.). Fin. V. plafom.» Ou seja, sugeria-nos que escrevêssemos «plafom». Esqueceram-se de incontáveis palavras, mas não destas parvoíces.


Léxico: «limpa-trilhos»


The coupler, the vacuum pipe and part of the cattle guard of the loco KWV ZDM 4A #206.
(Engate, tubo de vácuo e parte do limpa-trilhos da locomotiva KWV ZDM 4A #206.)
Foto de Ashish Kuvelkar


Grelha? Guia?




      É, no mínimo, interessante este paralelismo: nem no português europeu nem no espanhol europeu existe uma palavra específica para designar a grelha que as locomotivas têm à frente, como a que se vê na imagem. Contudo, tanto o português do Brasil como o espanhol da América Latina têm um termo. No Brasil, essa grelha designa-se «limpa-trilhos». Na Argentina e no Uruguai, tem o nome de miriñaque — sim, o nosso merinaque, a crinolina, pelas semelhanças que apresenta com esta peça antiga do vestuário feminino. Parece ter sido Isaac Dripps, da Camdem & Amboy, quem concebeu esta peça. E para quê? A palavra que os Brasileiros criaram e usam é sugestiva: para limpar a via. Por isso também se chama «saca-boi». Aliás, também as locomotivas inglesas não tinham cattle guard, pois era uma peça mais adequada às condições naturais e da via nas Américas: grandes desfiladeiros, com derrocadas frequentes, animais selvagens a atravessar a via, etc. Até os corajosos e, no caso, ignorantes, índios eram varridos.


Tradução: «mentidero»

Por mim


      É verdade, não há como negá-lo, que a palavra espanhola mentidero tem no vocábulo português «soalheiro» um possível correspondente. Mas este não tem a ínfima parte da força sugestiva daquela. E, se temos largos milhares de palavras vindas directamente do espanhol, que se foram incrustando na nossa língua, não vejo problema em usar «mentideiro», de resto já dicionarizado. Por outro lado, «soalheiro» é palavra basto perigosa: não a confundem os nossos tradutores e jornalistas com «solarengo»? Então?

Léxico: «chapa»

Quase minimachimbombo

Polissémico, o vocábulo «chapa». Infelizmente, não há um dicionário da lusofonia digno desse nome que registe, a par de tudo o que conhecemos na variante europeia do português, os vocábulos em uso nos restantes países em que se fala o português. Mera utopia, eu sei. Em relação a isto, contentar-me-ia com uma tentativa. Adivinharam: tudo por causa dos recentes acontecimentos em Maputo, uma diferente acepção do vocábulo «chapa» entrou no nosso léxico. Os jornais registaram-no: «A caminho do trabalho, na terça-feira de manhã, apercebi-me [Dr.ª Inês Zimba, médica no centro de saúde do bairro de Benfica, nos subúrbios de Maputo] que estava a acontecer algo porque não havia chapas — transportes privados semicolectivos — e vi muitos estudantes a caminharem para a baixa de Maputo» («Um susto em Maputo», Paola Rolletta, Expresso, 9.2.2008, p. 48). E se o condutor de táxi é taxista, o condutor de chapa é chapista.

Léxico: «binómio»

A coisa mete cães



      Suponhamos que um extraterrestre — ou, para os maluquinhos da realidade, da verosimilhança, um brasileiro — topava com este trecho de uma notícia: «Desde o início da tarde até ao cair da noite as buscas — feitas no leito do rio até à foz por bombeiros e binómios da PSP — revelaram-se infrutíferas, mas vão prosseguir hoje» («Não chovia tanto há 24 anos», Carla Marina Mendes e João Moniz, Destak, 19.2.2008, p. 6). O que pensaria o nosso extraterrestre — ou o nosso brasileiro, para os maluquinhos da verosimilhança? Isto passou-se muito, muito depressa e debaixo do nosso nariz. Primeiro, eram os «binómios cinotécnicos»: equipas de um homem e um cão. Um guarda da GNR, por exemplo, e um golden retriever. Coisa esquisita, mas algum nome haviam de ter. Depois, há muito pouco tempo, passou a ser «binómio homem-cão». Agora, o vocábulo surge despojado de outro apoio: «binómio».


Tradução: «pescante»

Imagem: http://picasaweb.google.com/canibalitops10/Feria2/

Assim não


Nas traduções, acho sempre lamentável que se não acompanhe a riqueza lexical do original. Assim, se o original, espanhol, diz «pescante», porque havemos de empobrecer o texto traduzindo por «assento»? Será a intenção paternalista — que pessoalmente reputo execrável — de ajudar o leitor ou, mais simplesmente, a ignorância do tradutor? O espanhol, valha-me Deus, também tem «asiento»! Pescante é, em português, «boleia». Quanto a pescante, na definição do DRAE: «En los carruajes, asiento exterior desde donde el cochero gobierna las mulas o caballos.» Quanto a «boleia», na definição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Assento do cocheiro.»

Léxico: «maritorne»

Criada inglesa com crista

Minha senhora


Não, não, não: o vocábulo espanhol maritornes não tem de aparecer em itálico ou entre aspas num texto em português. Concedo: não estará o seu significado presente em nós como estará (estará?) na mente de um espanhol medianamente culto. Contudo, não é por esse padrão que se aferem as coisas. «Maritorne», regista o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, é a «criada suja, reles, ordinária». Mais marcantes na cultura universal são, como bem sabemos, as personagens de Dom Quixote e Sancho Pança, com vocábulos derivados há muito usados e dicionarizados. Ainda assim, a personagem Maritornes faz parte do elenco e serviu igualmente como estereótipo. No DRAE, lê-se: «maritornes. f. coloq. Moza de servicio, ordinaria, fea y hombruna.»
Há um estudo de 2004 do Instituto de la Mujer, De mujeres y diccionarios. Evolución de lo femenino en la 22.ª edición del DRAE, da autoria de Eulàlia Lledó Cunill (coord.), M.ª Ángeles Calero Fdez e Esther Forgas Berdet, no qual se inventariam as palavras que neste dicionário se referem às mulheres. As autoras lamentam que as mulheres dedicadas a servir não saiam muito bem paradas, e concretamente em relação a maritornes, consideram que a coisa sai agravada pela «sarta de tres adjetivos a cual más cruel». (Realmente, a enfiada de adjectivos da definição espanhola é mais cruel do que a da definição portuguesa: ordinária, feia e marimacho.) Lá encontramos também atropellaplatos, a criada ou fregona desajeitada, mondonga, a criada rude, chopa, a criada, mas com um sentido depreciativo, etc.
Quando li a obra Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, não pude deixar de reparar no facto de algumas criadas serem tratadas como gente inferior, destituída de inteligência, cuja existência apenas se compreende para satisfazer a comodidade dos patrões. Para a autora, os aspectos exteriores — inequivocamente marcas de um opróbrio, mas sem dúvida superficiais — eram mais significativos, pelo que afirma: «Em casa, andavam [as criadas] fardadas, embora sem exageros: não serviam à mesa de luvas, nem usavam “crista”» (p. 111).

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