Tradução

Imagem: http://www.snell-pym.org.uk/

Mais barrotes


      Se pensam… estão bem enganados. Matt James estava hoje em Shepherds Bush, Londres, a transformar um quintal cheio de ervas daninhas em jardim. Logo à saída da porta de casa para o quintal, estava um estrado de madeira, deck, em inglês, a que a tradutora julga não poder dar-se outro nome que não deck. Estrado, pois. Matt James construiu também uma airosa pérgula com tubos de aço de secção quadrada (steel square tube), a que a tradutora mais de uma vez chamou «barrotes».

Léxico: «nominho»

Nominho ao Algarve


    Tenho uma prima em 2.º grau, moçoila rural vai para dez anos transplantada para uma cidade do interior, que, ainda que não particularmente atreita a «inhar» a realidade (perdoe-se-me o neologismo, acabado de inventar: com ele pretendo significar o uso de diminutivos), nunca diz «até logo», mas sempre «até loguinho». A prima R., sorte a nossa, não escreve para os jornais e revistas. Não escreve nada. Talvez nunca tenha escrito, mas isso não o afianço, sequer uma carta à revista Maria («O meu namorado tem dois pénis. Que me aconselham a fazer?»).
Há, contudo, diminutivos com um significado pleno, autónomo da palavra de que derivam. Atente-se neste exemplo: «Para aliviar os pais, José trouxe para Lisboa a irmã Conceição, que logo caiu nas graças de Salazar e lhe deu o nominho de Micas» («A filha adoptiva de Salazar», José Pedro Castanheira, 17.11.2007, Expresso/Actual, p. 62). Em Cabo Verde (ver aqui, aqui e aqui) e no Brasil, é comum usar o vocábulo «nominho» para hipocorístico. A ter tradução, a palavra inglesa nickname teria em «nominho» a correspondência perfeita. Mais uma vez, não o vejo dicionarizado, excepto na MorDebe.

Ortografia: «cartunista»

Tapeçaria de Portalegre sobre desenho de Almada Negreiros (1962)
no topo da Sala de Audiências principal do Palácio da Justiça de Aveiro

Antes isso


Primeiro, era cartoonista, um aportuguesamento tolerável — ou quase. Depois, alguém achou que se devia dar o passo seguinte, e ficou cartunista. Pois, claro: os dois oo valiam como u. Agora, porém, leio no Meia Hora: «Polícia prende cinco suspeitos de planear morte de cartonista». Na verdade, quando li a palavra «cartonista», lembrei-me de Almada Negreiros, que, à semelhança de outros grandes artistas plásticos portugueses, fez modelos de cartão para a execução posterior de diversos trabalhos artísticos, como tapetes, mosaicos, etc., que é o que significa a palavra. Só depois de ter lido o início da notícia decidi o começo do texto: «As autoridades dinamarqueses [sic] detiveram ontem cinco homens em Aarhus suspeitos de planear um ataque ao cartonista que desenhou as caricaturas de Maomé, publicadas num jornal da Dinamarca em Setembro de 2005 e desencadeando uma onda de protestos em todo o Mundo entre a comunidade islâmica» (Meia Hora, 13.2.2008, p. 6). Vejo-me, pela primeira vez, na contingência de desejar que seja meramente desleixo, que não convicção de quem escreveu e de quem reviu.

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Imagem: http://www.bumblebeeauctions.co.uk/
Hum…

      Se pensam que hoje… estão bem enganados. Matt James estava a construir um jardim na cidade de St Albans, Hertfordshire, a norte de Londres. O desafio era que o jardim agradasse ao casal, Arif e Rakhshinda, e aos seus três filhos. Matt estava hoje muito propenso a trocas: quis o abrigo de jardim (shed, no original, que eu nunca optaria por traduzir, como o fez a tradutora, por «casota», mas sim «abrigo de jardim») que ali encontrou e trouxe da sua casa uns aros (bore rings?) que, abertos e chumbados no chão, serviriam para as crianças brincarem. A tradutora quis que fossem «aros de barril» (ou arcos), mas via-se à distância que eram aros de rodas de carros de parelha, que em Portugal também se usam para muitos fins. Os arcos dos barris, pipas, dornas, mesmo os arcos de bastição, os que servem para a fase de construção do próprio barril, são simples cintas de chapa, actualmente chapa galvanizada ou de aço inox, inadequados para o fim pretendido por Matt, ao passo que os aros das rodas servem efectivamente para esse objectivo.

«Synopsis: Matt James is challenged to design a family-friendly garden in St Albans catering to everyone’s needs. Rakhshinda loves order and formality, husband Arif wants something a bit more relaxed and their three children want a space they can play in, rather than the DIY dumping ground it is at the moment.»

«Gourmet» e «gourmand»

Se há quem…

A leitora Bárbara Godinho pede-me que explique a diferença entre gourmet e gourmand, pois são palavras usadas na imprensa portuguesa e nunca percebeu a diferença, se a há. Tem razão, são usadas na imprensa. Mas não apenas usadas: recentemente, a revista Actual, do Expresso, publicava um texto do crítico literário Vítor Quelhas a que pertence o seguinte trecho: «A palavra gourmet é de origem francesa (etimologicamente próxima da palavra “gourmand”, guloso, glutão), mas na Antiguidade significava apenas um bom encarregado e conhecedor de vinhos. O gourmet aprecia e desfruta a qualidade, o gourmand adora a substancial sensação da quantidade» («O bom gourmet», Vítor Quelhas, Expresso/Actual, 22.12.2007, p. 37).
De facto, originalmente, segundo Le Trésor de la Langue Française Informatisé, gourmet era «celui qui sait goûter et apprécier les vins; connaisseur en vin». Por extensão de sentido, passou a ser também, e agora quase exclusivamente, «celui qui apprécie la qualité, le raffinement d’une table, d’un mets particulier». Quanto a gourmand, antigamente era apenas aquele «qui mange avec avidité et avec excès», passando depois a ser também aquele «qui aime la bonne nourriture et qui sait l’apprécier». Diferenças? Bem…

Tradução

Errar o alvo

Quando se traduz de línguas muito próximas da nossa, como o espanhol, tem-se muitas vezes a tentação fácil de seguir a literalidade do que se lê no original. Duas línguas diferentes? Mas parecem a mesma, uma só… E então, o grupo partiu, sedento de sangue, com «la identidad del culpable impresa en sus retinas como único blanco». Os dedos do tradutor vão atrás, afeitos já a tanta e tão mirífica facilidade: «a identidade do culpado impressa nas suas retinas como único branco». Calma, calma… Fácil, mas não tanto. Semelhantes, mas diferentes. O que é que em qualquer língua, sendo pormenor, minúcia, não tem a máxima importância?
O espanhol blanco significa em português — qualquer pessoa que lide minimamente com a língua espanhola não o pode ignorar — «alvo», o ponto de mira que se procura atingir com algo, como um tiro, uma flecha, etc. Blanco é «todo objeto sobre el cual se dispara un arma». O nosso «branco» e o blanco espanhol têm o mesmo étimo: o germânico blank. O nosso «alvo», em contrapartida, vem do latim albus, «branco», que, de adjectivo substantivado, passou a substantivo. Também em catalão «alvo» se diz blanc: «Punt o objecte al qual hom intenta d’adreçar un tir. Tirar al blanc.» O nosso polissémico «branco» já significou antigamente, é verdade, «alvo», mas integrado numa locução (talvez castelhanizante…): branco de pontaria. Mas isso foi há muito, muito tempo, ainda o tradutor era poeira cósmica.

Tradução

Imagem: http://www.glendaleagriculture.co.uk/


Parecido, não haja dúvida



      Se pensam que hoje não houve nada a assinalar no episódio dos Jardins por Medida, estão bem enganados. Além da parvoíce de se confundir «soalheiro» com «solarengo», regiões com pontos cardeais, a estocada letal foi mostrarem algo semelhante ao que se pode ver na imagem de cima e a tradutora afirmar que era uma… manjedoura! Não ouvi, por ter o volume baixo, a palavra em inglês, mas podia ter sido a expressão pig trough ou food trough ou, sei lá, até feed box. A proprietária do jardim, numa casa vitoriana em Liverpool, gostava de antiguidades e velharias, pelo que Matt James foi a uma casa da especialidade, onde encontrou o objecto, de chapa, que adaptou para fazer um «riacho» no jardim. Ora o objecto era claramente um comedouro não uma manjedoura.


«Matt James, attempts to liven up a lack lustre backyard in Liverpool. Owner Laura wants a garden with a rustic feel and a contemporary twist. Matt’s solution is an ambitious sunken garden.»

Léxico: «haček»

Diacríticos

O leitor A. M. L. pergunta-me que designação tem o acento, uma espécie de acento circunflexo invertido, sobre certas palavras, como no r do antropónimo Dvořák. Chama-se haček, termo da língua checa que significa «ganchinho». Este diacrítico serve para indicar, na escrita latina da língua checa, a qualidade da pronúncia.

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