Tradução

Imagem: http://www.bumblebeeauctions.co.uk/
Hum…

      Se pensam que hoje… estão bem enganados. Matt James estava a construir um jardim na cidade de St Albans, Hertfordshire, a norte de Londres. O desafio era que o jardim agradasse ao casal, Arif e Rakhshinda, e aos seus três filhos. Matt estava hoje muito propenso a trocas: quis o abrigo de jardim (shed, no original, que eu nunca optaria por traduzir, como o fez a tradutora, por «casota», mas sim «abrigo de jardim») que ali encontrou e trouxe da sua casa uns aros (bore rings?) que, abertos e chumbados no chão, serviriam para as crianças brincarem. A tradutora quis que fossem «aros de barril» (ou arcos), mas via-se à distância que eram aros de rodas de carros de parelha, que em Portugal também se usam para muitos fins. Os arcos dos barris, pipas, dornas, mesmo os arcos de bastição, os que servem para a fase de construção do próprio barril, são simples cintas de chapa, actualmente chapa galvanizada ou de aço inox, inadequados para o fim pretendido por Matt, ao passo que os aros das rodas servem efectivamente para esse objectivo.

«Synopsis: Matt James is challenged to design a family-friendly garden in St Albans catering to everyone’s needs. Rakhshinda loves order and formality, husband Arif wants something a bit more relaxed and their three children want a space they can play in, rather than the DIY dumping ground it is at the moment.»

«Gourmet» e «gourmand»

Se há quem…

A leitora Bárbara Godinho pede-me que explique a diferença entre gourmet e gourmand, pois são palavras usadas na imprensa portuguesa e nunca percebeu a diferença, se a há. Tem razão, são usadas na imprensa. Mas não apenas usadas: recentemente, a revista Actual, do Expresso, publicava um texto do crítico literário Vítor Quelhas a que pertence o seguinte trecho: «A palavra gourmet é de origem francesa (etimologicamente próxima da palavra “gourmand”, guloso, glutão), mas na Antiguidade significava apenas um bom encarregado e conhecedor de vinhos. O gourmet aprecia e desfruta a qualidade, o gourmand adora a substancial sensação da quantidade» («O bom gourmet», Vítor Quelhas, Expresso/Actual, 22.12.2007, p. 37).
De facto, originalmente, segundo Le Trésor de la Langue Française Informatisé, gourmet era «celui qui sait goûter et apprécier les vins; connaisseur en vin». Por extensão de sentido, passou a ser também, e agora quase exclusivamente, «celui qui apprécie la qualité, le raffinement d’une table, d’un mets particulier». Quanto a gourmand, antigamente era apenas aquele «qui mange avec avidité et avec excès», passando depois a ser também aquele «qui aime la bonne nourriture et qui sait l’apprécier». Diferenças? Bem…

Tradução

Errar o alvo

Quando se traduz de línguas muito próximas da nossa, como o espanhol, tem-se muitas vezes a tentação fácil de seguir a literalidade do que se lê no original. Duas línguas diferentes? Mas parecem a mesma, uma só… E então, o grupo partiu, sedento de sangue, com «la identidad del culpable impresa en sus retinas como único blanco». Os dedos do tradutor vão atrás, afeitos já a tanta e tão mirífica facilidade: «a identidade do culpado impressa nas suas retinas como único branco». Calma, calma… Fácil, mas não tanto. Semelhantes, mas diferentes. O que é que em qualquer língua, sendo pormenor, minúcia, não tem a máxima importância?
O espanhol blanco significa em português — qualquer pessoa que lide minimamente com a língua espanhola não o pode ignorar — «alvo», o ponto de mira que se procura atingir com algo, como um tiro, uma flecha, etc. Blanco é «todo objeto sobre el cual se dispara un arma». O nosso «branco» e o blanco espanhol têm o mesmo étimo: o germânico blank. O nosso «alvo», em contrapartida, vem do latim albus, «branco», que, de adjectivo substantivado, passou a substantivo. Também em catalão «alvo» se diz blanc: «Punt o objecte al qual hom intenta d’adreçar un tir. Tirar al blanc.» O nosso polissémico «branco» já significou antigamente, é verdade, «alvo», mas integrado numa locução (talvez castelhanizante…): branco de pontaria. Mas isso foi há muito, muito tempo, ainda o tradutor era poeira cósmica.

Tradução

Imagem: http://www.glendaleagriculture.co.uk/


Parecido, não haja dúvida



      Se pensam que hoje não houve nada a assinalar no episódio dos Jardins por Medida, estão bem enganados. Além da parvoíce de se confundir «soalheiro» com «solarengo», regiões com pontos cardeais, a estocada letal foi mostrarem algo semelhante ao que se pode ver na imagem de cima e a tradutora afirmar que era uma… manjedoura! Não ouvi, por ter o volume baixo, a palavra em inglês, mas podia ter sido a expressão pig trough ou food trough ou, sei lá, até feed box. A proprietária do jardim, numa casa vitoriana em Liverpool, gostava de antiguidades e velharias, pelo que Matt James foi a uma casa da especialidade, onde encontrou o objecto, de chapa, que adaptou para fazer um «riacho» no jardim. Ora o objecto era claramente um comedouro não uma manjedoura.


«Matt James, attempts to liven up a lack lustre backyard in Liverpool. Owner Laura wants a garden with a rustic feel and a contemporary twist. Matt’s solution is an ambitious sunken garden.»

Léxico: «haček»

Diacríticos

O leitor A. M. L. pergunta-me que designação tem o acento, uma espécie de acento circunflexo invertido, sobre certas palavras, como no r do antropónimo Dvořák. Chama-se haček, termo da língua checa que significa «ganchinho». Este diacrítico serve para indicar, na escrita latina da língua checa, a qualidade da pronúncia.

Tradução: «spade»


Troca de ferramentas

      Hoje, Matt James, dos Jardins por Medida, concebeu para os londrinos Lisa e Paul, proprietários de um jardim selvagem, um espaço ameno, com uma pérgula e um banco como elementos centrais. Teve de arejar, como quase sempre, a terra que o jardim já tinha, para que as novas plantas enraizassem bem. Além de enxada e de outras ferramentas, serviu-se de uma spade. Vi, com estes que a terra há-de comer ou o fogo cremar (ainda não decidi, se é que posso, com certezas, fazê-lo), uma spade semelhante à da imagem nas mãos de um ajudante de Matt James, e ouvimos dizer spade — mas a tradutora quis que fosse uma «espátula». Ora, «espátula», em inglês, seria, dependendo do uso, spatula ou palette-knife, ferramentas completamente diferentes.


«Decluttering a Backyard
Host Matt James meets Londoners Lisa and Paul, who have recently bought a new house in Northwest London. After forcing hoarder Pete to get rid of the junk in their cluttered backyard, James makes the most of their small space, creating a large seating area for the couple to relax in.»

Léxico: «dendrita»

Imagem: http://www.fromoldbooks.org/

Do alto da coluna


«Tal forma de comportamento, residir no cimo de um monte escarpado, a estela, por isso se chamavam estilitas, ou empoleirados numa árvore, ditos dentritas, fascinava os místicos orientais» («São Máron», A Guarda, n.º 5118, 7.2.2008, p. 23). Uma frase, vários problemas. Ao anacoreta que vivia sobre um pórtico ou sobre uma coluna, como o celebérrimo São Simeão, o Estilita (memória litúrgica em 5 de Janeiro), dava-se o nome de estilita. Sobre uma coluna, não no cimo de um monte escarpado. O autor do texto deve ter confundido com a bruxa de monte Córdova. Ao anacoreta que vivia no cimo de uma árvore, uma variante da forma de ascetismo representada pelos estilitas, dava-se o nome de dendrita e não «dentrita», pois o étimo é o grego dendron, «árvore». O santo, finalmente e para estarmos de acordo sobre alguma coisa, para a Enciclopédia Católica Popular e para Fr. Pantaleão de Aveiro é «Maron», mas para José Manuel de Castro Pinto e para mim é «Máron».

«Tomarão este nome de maronitas, de hum seu mestre antigo, que se chamou Maron, são sogeytos á igreja romana, ao menos da era do senhor Jesu de 1476 na qual sendo summo pontifice na igreja de Deos Xisto IV o patriarca do Monte Líbano, pastor, & superior dos christãos maronitas, mandou embayxadores ao dito papa, dando-lhe obediencia, & pedindo-lhe tivesse por bem mandar-lhe quem os ensinasse, doutrinasse & instruísse na doutrina catholica da santa madre igreja romana» (Frei Pantaleão de Aveiro, Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades; dirigido ao illustrissimo e reverendissimo senhor D. Miguel de Castro, dignissimo arcebispo de Lisboa metropolitana, 7.ª ed., organizada por António Baião, Coimbra, Tipografia da Universidade, 1927, p. 502).

Tradução: «trellis»


Língua no estaleiro

Hoje, Matt James, dos Jardins por Medida, disse aos proprietários do jardim que estava a conceber que ia arranjar «a special trellis». O que se viu, mais tarde, foi algo semelhante ao que a imagem de cima mostra: uma treliça plana, enferrujada, semelhante às que se usam como elemento estrutural nas lajes de betão. Cristina Diamantino, a tradutora, da PSB, achou por bem traduzir trellis por «latada». Ainda que trellis tenha, remotamente, vindo do latim trichĭla,ae, que significa «latada», e, nos dicionários de inglês-português, seja esta a primeira acepção, tal não significa que se deva ficar por aí. De facto, a estrutura usada por Matt James era uma treliça das que se utilizam na construção civil, a que depois se aplicou uma moldura de madeira por pintar. Mas é sempre, no princípio e no fim, uma treliça. De resto, e mais uma vez, experimente ir ao Aki perguntar por «latadas». Ou encolhem os ombros ou dizem-lhe que «temos ali treliças, se também servir»…

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