Tradução: «spade»


Troca de ferramentas

      Hoje, Matt James, dos Jardins por Medida, concebeu para os londrinos Lisa e Paul, proprietários de um jardim selvagem, um espaço ameno, com uma pérgula e um banco como elementos centrais. Teve de arejar, como quase sempre, a terra que o jardim já tinha, para que as novas plantas enraizassem bem. Além de enxada e de outras ferramentas, serviu-se de uma spade. Vi, com estes que a terra há-de comer ou o fogo cremar (ainda não decidi, se é que posso, com certezas, fazê-lo), uma spade semelhante à da imagem nas mãos de um ajudante de Matt James, e ouvimos dizer spade — mas a tradutora quis que fosse uma «espátula». Ora, «espátula», em inglês, seria, dependendo do uso, spatula ou palette-knife, ferramentas completamente diferentes.


«Decluttering a Backyard
Host Matt James meets Londoners Lisa and Paul, who have recently bought a new house in Northwest London. After forcing hoarder Pete to get rid of the junk in their cluttered backyard, James makes the most of their small space, creating a large seating area for the couple to relax in.»

Léxico: «dendrita»

Imagem: http://www.fromoldbooks.org/

Do alto da coluna


«Tal forma de comportamento, residir no cimo de um monte escarpado, a estela, por isso se chamavam estilitas, ou empoleirados numa árvore, ditos dentritas, fascinava os místicos orientais» («São Máron», A Guarda, n.º 5118, 7.2.2008, p. 23). Uma frase, vários problemas. Ao anacoreta que vivia sobre um pórtico ou sobre uma coluna, como o celebérrimo São Simeão, o Estilita (memória litúrgica em 5 de Janeiro), dava-se o nome de estilita. Sobre uma coluna, não no cimo de um monte escarpado. O autor do texto deve ter confundido com a bruxa de monte Córdova. Ao anacoreta que vivia no cimo de uma árvore, uma variante da forma de ascetismo representada pelos estilitas, dava-se o nome de dendrita e não «dentrita», pois o étimo é o grego dendron, «árvore». O santo, finalmente e para estarmos de acordo sobre alguma coisa, para a Enciclopédia Católica Popular e para Fr. Pantaleão de Aveiro é «Maron», mas para José Manuel de Castro Pinto e para mim é «Máron».

«Tomarão este nome de maronitas, de hum seu mestre antigo, que se chamou Maron, são sogeytos á igreja romana, ao menos da era do senhor Jesu de 1476 na qual sendo summo pontifice na igreja de Deos Xisto IV o patriarca do Monte Líbano, pastor, & superior dos christãos maronitas, mandou embayxadores ao dito papa, dando-lhe obediencia, & pedindo-lhe tivesse por bem mandar-lhe quem os ensinasse, doutrinasse & instruísse na doutrina catholica da santa madre igreja romana» (Frei Pantaleão de Aveiro, Itinerario da Terra Sancta e suas particularidades; dirigido ao illustrissimo e reverendissimo senhor D. Miguel de Castro, dignissimo arcebispo de Lisboa metropolitana, 7.ª ed., organizada por António Baião, Coimbra, Tipografia da Universidade, 1927, p. 502).

Tradução: «trellis»


Língua no estaleiro

Hoje, Matt James, dos Jardins por Medida, disse aos proprietários do jardim que estava a conceber que ia arranjar «a special trellis». O que se viu, mais tarde, foi algo semelhante ao que a imagem de cima mostra: uma treliça plana, enferrujada, semelhante às que se usam como elemento estrutural nas lajes de betão. Cristina Diamantino, a tradutora, da PSB, achou por bem traduzir trellis por «latada». Ainda que trellis tenha, remotamente, vindo do latim trichĭla,ae, que significa «latada», e, nos dicionários de inglês-português, seja esta a primeira acepção, tal não significa que se deva ficar por aí. De facto, a estrutura usada por Matt James era uma treliça das que se utilizam na construção civil, a que depois se aplicou uma moldura de madeira por pintar. Mas é sempre, no princípio e no fim, uma treliça. De resto, e mais uma vez, experimente ir ao Aki perguntar por «latadas». Ou encolhem os ombros ou dizem-lhe que «temos ali treliças, se também servir»…

Léxico: «barcoleta»

Fez-se ao mar

«Do “Rei dos Mares” à barcoleta. Para todos os gostos e feitios, mas só para alguns bolsos. Entre veleiros e iates, de maior ou menor dimensão, mais luxuosos ou recatados, avançados em tecnologia ou sem quaisquer inovações, são muitas as ofertas disponíveis» («Torne-se imperador dos sete mares», Meia Hora/suplemento «Hora Extra», 11.2.2008, p. II). Não aparece registado em nenhum dicionário, tanto quanto sei, e, no entanto, ela aí está, a ser usada todos os dias. Parece ter um sentido afectivo, diminutivo, como «barcote».

Acento nas palavras latinas


Para quê?

Veritas era, na mitologia romana, a deusa da verdade, filha de Saturno e mãe da Virtude. Família distinta, esta. É também, e isto interessa mais ao caso, o lema da Universidade de Harvard. Ainda mais perto do que pretendo, é também um dos lemas da Ordo fratrum Praedicatorum — os Dominicanos. Ora, já aqui falei, a propósito da Caritas, do erro que é grafar palavras latinas com acentos. Anteontem, estive mesmo em frente do edifício da empresa proprietária do jornal A Guarda. E lá está: Véritas. Está mal.
Será que estamos perante a boa intenção de ajudar o leitor a pronunciar bem a palavra? Ainda assim, não deixa de ser um erro. E isto faz-me lembrar os tribunais gacaca, no Ruanda. São tribunais populares, que, em sessões semanais, julgam os responsáveis pelos massacres de 1994. Gacaca é uma palavra do kinyarwanda, a língua oficial do país, que se pronuncia «gachacha». Pois na imprensa de todo o mundo passou a grafar-se a palavra como «gachacha». Também está mal.

Léxico: «recolho»

Imagem: http://www.cascadiaresearch.org/


Baleia



      Um leitor pergunta-me como se designa o jacto de água que as baleias lançam quando vêm à superfície. Primeiro que tudo: não se trata de um jacto de água, mas de ar. Como quando está muito frio e respiramos: é a condensação que faz aparecer a nuvenzinha. Com as baleias é o mesmo, mas em grande. O jacto de um cachalote pode atingir nove metros de altura. O orifício por onde sai esse jacto chama-se espiráculo. Em francês, les évents. Em inglês, blowhole. Ao próprio jacto, e era essa a pergunta, dá-se o nome de recolho (regressivo de «recolher»). Em inglês, diz-se blow, «sopro». Em francês, jet. Em espanhol, surtidor.

Léxico: «cápea»

Imagem: http://www.immaginaria.net/

Uma coisa, um nome



      À laje que encima algumas paredes e muros de alvenaria, cara Luísa Pinto, como o que se vê na imagem de cima, para os defender de derrubamento, dá-se o nome de cápea ou capeia. Capear é o nome que se atribui ao acto de cobrir as paredes ou muros com essas lajes, as cápeas.

Actualização em 25.11.2010


      «E também resolvia a grande obra da mina do pomar, perto de atuída por sucessivos alagamentos e que se fazia preciso romper de novo nalguns pontos, de terem cápeas cedido, consoante o parecer de mestre Cagoto, o mineiro» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 51).

Léxico: «borracheiro»

De borracha

«Das profissões e actividades dos bomboteiros à pesca do atum, às plantações da cana-de-açúcar, ao transporte das uvas às costas dos “borracheiros”, conhecidos pelo transporte tradicional do mosto em recipientes feitos de pele de cabra» («Recordações de duas ilhas desconhecidas», Lília Bernardes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 9). Os dicionários consultados registam o vocábulo «bomboteiro», mas com uma definição ligeiramente diferente: «borracheiro é aquele que transporta vinho em odres ou borrachas», regista o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado. Mais uma vez, não se percebe é por que razão aparece com aspas no texto do Diário de Notícias.

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