Léxico: «bomboteiro»

Quase bomboneiro

«Sendo filho de “bomboteiro”, tinha acesso fácil ao marketing das companhias de navegação. “Bomboteiros” eram os homens que comercializavam os bordados da Madeira e artesanato de vime dentro de uma pequena embarcação que acostava aos grandes navios que fundeavam ao largo da baía» («Recordações de duas ilhas desconhecidas», Lília Bernardes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 9). Os dicionários consultados não registam o vocábulo «bomboteiro». Não se percebe é por que razão aparece com aspas no texto do Diário de Notícias.

Léxico: «artesa»

Imagem: http://www.euskonews.com/

Porque não te calas?



      Cinco pessoas presentes. Três professores, uma psicóloga e eu. Aparece na televisão uma imagem semelhante à que encima este texto. Pergunto que nome tem o objecto de madeira que estamos a ver. Dois dos presentes respondem desnecessariamente que serve para amassar o pão, outro confessou que tinha o nome debaixo da língua (atenção, Freud) e o quarto, o mais inteligente, calou-se. Podiam ter respondido «amassadeira» ou «masseira», e eu ficaria satisfeito. Mas não, nada. Na verdade, e era esta a resposta que eu pretendia, àquela caixa de madeira quadrilonga, que vai alargando de baixo para cima, chama-se artesa. «Só conhecia o parónimo», diz-me uma das professoras.
      José Pedro Machado dá como étimo de «artesa» o grego άρτος, «pão», mas o Diccionario de la Real Academia Española e o Dicionário Houaiss dizem, e bem, seguindo a lição de Corominas, ter o vocábulo etimologia obscura.

Determinação de topónimos: Maputo

Decidam-se

Uma revolução na Antena 1, entre o noticiário das 14 e o das 15 horas: no primeiro, a propósito dos acontecimentos em Moçambique, era «no Maputo», «do Maputo», «para o Maputo». De Maputo, o correspondente da Antena 1, Faustino Igrejas, ia dizendo: «em Maputo», «de Maputo», «para Maputo». No segundo noticiário, já era «em Maputo», «de Maputo», «para Maputo». Sempre a aprender. Sempre a desaprender. Sempre a aprender. Sempre a desaprender…


[Ver aqui também.]

Ortografia: «caixa-negra»

Registem

«Os dados registados pelas “caixas negras” existentes nos caças permitem complementar as audições de todos os envolvidos em situações como a registada terça-feira na zona de Penamacor» («‘Caixas negras’ provam existência de danos», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 18.1.2008, p. 3). Já sabemos que a caixa nem é negra nem é uma, mas justificará o facto que se usem as aspas? Trata-se de uma palavra composta, que o Dicionário Houaiss, por exemplo, regista: caixa-negra.

Léxico: «luvas cirúrgicas»


De pelica

«Nos carris onde circulam os comboios no sentido Sintra-Lisboa (onde se deu o acidente) várias manchas de sangue, uma sola de sapato aparentemente feminino e umas luvas de enfermagem relatam o triste fim de Nádia, filha de Pedro Mário da Silva, ex-comandante dos Bombeiros de Agualva-Cacém e recém-empossado vice-presidente da Associação Humanitária da corporação» («Conversa ao telemóvel causa atropelamento», Isaltina Padrão, Diário de Notícias, 12.1.2008, p. 38). Percebemos, sim senhor, mas não foram sempre designadas «luvas cirúrgicas»?

Tesoura de tosquiar: partes


Vamos tosquiar!

O Global foi entrevistar o último fabricante de tesouras de tosquiar (esquilar ou tosar, como também se diz) em Portugal. Isto interessa-me. Mateus Filipe Miragaia tem 66 anos e mora em Donfins do Jarmelo, no concelho da Guarda. Produz entre 200 e 300 tesouras por ano, que vende a 12 euros cada.
«O fabrico de cada tesoura leva cerca de uma hora. O ferreiro começa por “cortar tiras de 20 ou 21 centímetros de uma chapa de dois metros por um”, numa máquina. Na fase seguinte leva a tira à forja “para lhe dar dois calores que se dão na fase inicial. Um na parte da folha [parte da tesoura que vai cortar a lã] e outro na parte da anca ou [do eixo para trás], seguindo-se a soldadura de uma peça mais fina, em ferro, que é para fazer a asa”. Utiliza um pequeno martelo para moldar o metal incandescente a seu gosto. “O segredo está nas pancadas”, diz, sorridente. Depois, puxa por uma barra de ferro e, também a quente, corta uma ponta daquele que vai ser o futuro eixo da tesoura.
Seguidamente, indica que vai passar com as duas partes da tesoura pelos vários “esmeriz” [esmeril — pedra dura que serve para polir metais] que possui na oficina. “Começo pelo mais grosso e termino no polidor, para a ‘folha’ da tesoura ficar totalmente lisinha”, esclarece. A última fase da concepção do utensílio é a colocação do eixo “quando se liga uma parte da tesoura com a outra”. Antes de dar a tarefa por concluída “tira-lhe o fio para a tesoura não morder [eriçar a lã]”, leva-a junto do ouvido para escutar o “toque” e experimenta a cortando um pedaço de lã. “Esta ainda mastiga um bocado”, observa. Pega no martelo e, três “pancadas” depois, afiança: “Está pronta!” A produção é dada por concluída com a gravação da sua marca, um “carimbo” semelhante a um “pé de pita [galinha]” que exara num dos lados da tesoura» («O último fabricante de tesouras de tosquiar», António Sá Rodrigues, Global, 4.2.2008, p. 14).

Chavões

Grilhetas semânticas


      Parece fazer parte da ordem natural das coisas: se alguém é detido, o aprendiz de jornalista já sabe que o indivíduo ou está nos «calabouços da PJ» ou numa «cela da PSP». Como temos várias polícias, o exercício pode ser empolgante. Proponho, assim, aos senhores jornalistas a seguinte tabela fixa: para a GNR, chilindró; para a ASAE, masmorras; para a Polícia Marítima, enxovia; para a Brigada Fiscal, cárcere; para a Polícia Militar, ergástulo; para o SEF, estarim; para a Polícia Municipal, cafua; para o SIS, tronco; para a PJM, séjana; para a Polícia Florestal, cubículo; para o SIED, cativeiro; para o SIEDM, enfiada. Se forem presos e não detidos — e muitas vezes os jornalistas metem os pés pelas mãos e trocam os conceitos —, espera-os, geridos pelos Serviços Prisionais, outros locais: cadeia, estabelecimento prisional ou prisão.

Tradução: «encombrants»

Coisas grandes…

A frase era «Le service des encombrants de la mairie». Ora, nem sequer os bons dicionários bilingues francês-português dão a definição que se ajuste ao contexto. Algures, porém, encontra-se a definição: «Encombrants : déchets des ménages trop volumineux pour être mis à la poubelle (matelas, meuble, réfrigérateur, cuisinière …).» São o que se deu em chamar, desde há não muito tempo, em Portugal «monstros»: todos os resíduos que, pelas suas dimensões ou características, não possam ser transportados pelos camiões de recolha das autarquias, como móveis, colchões, electrodomésticos grandes e resíduos verdes, como restos de limpeza de jardins. Também entre nós a acepção não está registada, e talvez nunca venha a estar, sendo que a palavra é largamente usada no dia-a-dia, em especial nas autarquias.

Arquivo do blogue