Tesoura de tosquiar: partes


Vamos tosquiar!

O Global foi entrevistar o último fabricante de tesouras de tosquiar (esquilar ou tosar, como também se diz) em Portugal. Isto interessa-me. Mateus Filipe Miragaia tem 66 anos e mora em Donfins do Jarmelo, no concelho da Guarda. Produz entre 200 e 300 tesouras por ano, que vende a 12 euros cada.
«O fabrico de cada tesoura leva cerca de uma hora. O ferreiro começa por “cortar tiras de 20 ou 21 centímetros de uma chapa de dois metros por um”, numa máquina. Na fase seguinte leva a tira à forja “para lhe dar dois calores que se dão na fase inicial. Um na parte da folha [parte da tesoura que vai cortar a lã] e outro na parte da anca ou [do eixo para trás], seguindo-se a soldadura de uma peça mais fina, em ferro, que é para fazer a asa”. Utiliza um pequeno martelo para moldar o metal incandescente a seu gosto. “O segredo está nas pancadas”, diz, sorridente. Depois, puxa por uma barra de ferro e, também a quente, corta uma ponta daquele que vai ser o futuro eixo da tesoura.
Seguidamente, indica que vai passar com as duas partes da tesoura pelos vários “esmeriz” [esmeril — pedra dura que serve para polir metais] que possui na oficina. “Começo pelo mais grosso e termino no polidor, para a ‘folha’ da tesoura ficar totalmente lisinha”, esclarece. A última fase da concepção do utensílio é a colocação do eixo “quando se liga uma parte da tesoura com a outra”. Antes de dar a tarefa por concluída “tira-lhe o fio para a tesoura não morder [eriçar a lã]”, leva-a junto do ouvido para escutar o “toque” e experimenta a cortando um pedaço de lã. “Esta ainda mastiga um bocado”, observa. Pega no martelo e, três “pancadas” depois, afiança: “Está pronta!” A produção é dada por concluída com a gravação da sua marca, um “carimbo” semelhante a um “pé de pita [galinha]” que exara num dos lados da tesoura» («O último fabricante de tesouras de tosquiar», António Sá Rodrigues, Global, 4.2.2008, p. 14).

Chavões

Grilhetas semânticas


      Parece fazer parte da ordem natural das coisas: se alguém é detido, o aprendiz de jornalista já sabe que o indivíduo ou está nos «calabouços da PJ» ou numa «cela da PSP». Como temos várias polícias, o exercício pode ser empolgante. Proponho, assim, aos senhores jornalistas a seguinte tabela fixa: para a GNR, chilindró; para a ASAE, masmorras; para a Polícia Marítima, enxovia; para a Brigada Fiscal, cárcere; para a Polícia Militar, ergástulo; para o SEF, estarim; para a Polícia Municipal, cafua; para o SIS, tronco; para a PJM, séjana; para a Polícia Florestal, cubículo; para o SIED, cativeiro; para o SIEDM, enfiada. Se forem presos e não detidos — e muitas vezes os jornalistas metem os pés pelas mãos e trocam os conceitos —, espera-os, geridos pelos Serviços Prisionais, outros locais: cadeia, estabelecimento prisional ou prisão.

Tradução: «encombrants»

Coisas grandes…

A frase era «Le service des encombrants de la mairie». Ora, nem sequer os bons dicionários bilingues francês-português dão a definição que se ajuste ao contexto. Algures, porém, encontra-se a definição: «Encombrants : déchets des ménages trop volumineux pour être mis à la poubelle (matelas, meuble, réfrigérateur, cuisinière …).» São o que se deu em chamar, desde há não muito tempo, em Portugal «monstros»: todos os resíduos que, pelas suas dimensões ou características, não possam ser transportados pelos camiões de recolha das autarquias, como móveis, colchões, electrodomésticos grandes e resíduos verdes, como restos de limpeza de jardins. Também entre nós a acepção não está registada, e talvez nunca venha a estar, sendo que a palavra é largamente usada no dia-a-dia, em especial nas autarquias.

Léxico: «nateira»

Imagem: http://www.silvercollection.it/

Faz falta


Desconhecia, confesso, o vocábulo «nateira», a significar o recipiente em que se serve natas à mesa. Descobri-o neste artigo: «Em “O Código dos Wooster” (publicado originalmente em 1938) comparece a sua parelha mais memorável: o saudavelmente lúdico Bertie Wooster, que também narra, e o seu prestimosíssimo valete de quarto Jeeves. A perseguição de uma nateira de prata em forma de vaca, o roubo do capacete de um polícia, o desaparecimento de um caderno de apontamentos com observações perigosas sobre os ruídos que um velho magistrado produz a comer a sopa, eis algumas das terríveis “aventuras” aqui vividas pela dupla» («O pé ou o sapato?», Mário Santos, Público/Ípsilon, 11.1.2008, p. 40). O tradutor da obra recenseada, Ernesto Carvalho, optou por traduzir os termos ingleses cow-creamer e cream jug por «nateira». «They’ve got an eighteenth-century cow-creamer there that Tom’s going to buy this afternoon.” “The scales fell from my eyes.” “Oh, it’s a silver whatnot, is it?” “Yes. A sort of cream jug. Go there and ask them to show it to you, and when they do, register scorn.”» Não vejo a palavra registada em nenhum dicionário, o que não constitui, já sabemos, óbice ou erro. Está bem formada — à semelhança de açucareira, almoçadeira, azeitoneira, bolacheira, biscoiteira, bomboneira, cafeteira, chaleira, chocolateira, fruteira, leiteira, manteigueira, molheira, oveira, saladeira, sopeira, sorveteira, torteira… — e faz falta. Apenas no Novo Diccionario Francez-Portuguez, de José da Fonseca, uma obra publicada em Paris, em 1856, encontro a palavra «nateira», mas noutra acepção: «CREMIÈRE, s. f. (kremiére) cremeira, nateira (mulher, que vende nata).»

Os hidroaviões estacionam?

Olhe que não

Os aviões ficam estacionados na pista ou em hangares, isso é certo. E um hidroavião? Bem, se um hidroavião, pelas suas características, não aterra, antes amara, também não me parece que estacione. Não pensou assim o jornalista Eurico de Barros, que escreveu: «Em 1945, caiu um nevão enorme em Lisboa e arredores, tão intenso que as fontes e bicas da cidade gelaram e houve quem conseguisse fazer ski em certas zonas. Os aeroportos de Cabo Ruivo e da Portela ficaram praticamente paralisados. Há fotos desse tempo que mostram os hidroaviões estacionados no Tejo, cobertos de branco, sob um céu de chumbo, e a pista da Portela, completamente nevada, com muitos aviões parados e uma cortina de nevoeiro que não deixa ver nada a alguns metros de distância» («Outros tempos com outros aeroportos», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 12.1.2008, p. 23). Os hidroaviões, como os navios, atracam. Ficam atracados.

Léxico: «lágrimas-batávicas»

Coisas de vidro

      Já há muito tempo que não lia ou ouvia a palavra «lágrima-batávica». Sabem do que se trata? É um pingo de vidro, derretido em forma de lágrima, que se esfria subitamente mergulhando-o em água fria, como se pode ver neste vídeo. Descoberta que teve consequências para a indústria vidreira. Ter-nos-á vindo do francês larme Batavique. Em inglês tem pelo menos três designações: Prince Rupert’s Drops, Rupert’s Balls e Czar’s Tears. Batávica porque foi inventada nos Países Baixos, pois em latim Batavi (Batavos, em português) era o nome da tribo que habitava a área que corresponde actualmente àquele país. Já agora, seria injusto omiti-lo, em neerlandês diz-se bataafse traan.

Léxico: «grimório»

Espíritos do mal   


      Conhecem a palavra «grimório»? Bonita, não é? Era o nome que se dava antigamente ao livro de magia com o qual se evocavam (ver aqui a confusão babélica em que esta palavra anda envolvida) os espíritos. O étimo é o francês grimoire, com o mesmo significado. Interessante é que, nesta língua, a palavra se tenha formado, provavelmente, a partir de grammaire, «gramática», com influência de grimace, «careta, esgar», que importámos desnecessariamente: grimaça. De maneira que é neste ponto que ainda hoje nos encontramos: para alguns, a gramática não passa de feitiçaria e quem a usa devia ser queimado.

Pronúncia: «grés»

Escolhas erradas

No programa de entrevistas 1001 Escolhas, na Antena 1, Madalena Balça entrevistou hoje Susana Félix. É verdade que Madalena Balça não pronunciou o nome da sua entrevistada como defendo que deve ser: /Félis/, como também digo /cális/(cálix), /cóccis/(cóccix) e /fénis/(Fénix), e quem me apanhar a pronunciar de forma diversa pode dar-me um tiro. Mas não é disso que quero hoje falar. No decurso do programa, a palavra «grés» (a rocha sedimentar que é resultado da desagregação de diversas rochas e minerais, composta essencialmente por quartzo e feldspato) foi pronunciada com e fechado. Errado: «grés» (do francês grès), acentuado graficamente como é, só pode pronunciar-se com e aberto. Deve haver aqui confusão com a palavra «manganés», que tem a variante «manganês».

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