O uso do vocábulo «luso»

Isto não é normal

      Antigamente, os únicos Lusos conhecidos eram os garrafões da água mineral com esse nome. Hoje, em especial com os jornais gratuitos, os jornalistas começaram a desbastar no uso do substantivo «português» (e no plural, «Portugueses»). É o estilo e a falta dele. «Cerca de 1800 lusos presos no estrangeiro» (Meia Hora, 28.1.2008, p. 5). Com variações no Destak: «Quase 1800 lusos detidos no estrangeiro» (28.1.2008, p. 6). E ainda neste jornal: «Lusos divorciam-se mais após idade adulta de filhos» (Destak, 28.1.2008, p. 6). «O Campeonato da Europa de Maio é o momento decisivo da época, porque é a derradeira oportunidade para os lusos estarem em Pequim, o que seria a sexta participação consecutiva nos Jogos («Portugal em estágio com os melhores», Meia Hora, 25.1.2008, p. 19). «Doenças inflamatórias afectam 12500 lusos» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 5). «Lusos discretos no mundial de Finn» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «O piloto luso vai disputar seis das oito provas pontuáveis possíveis: Suécia, Grécia, Turquia, Nova Zelândia, Japão e Grã-Bretanha» («A caminho do penta sem rival», Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «Pintasilgo recordada como “figura política do catolicismo” luso» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 23). «Maria Carrilho, do Instituto de Estudos Estratégicos, diz que a comunidade islâmica lusa ambiciona a paz e o desenvolvimento» (Meia Hora, 21.1.2008, p. 1). E por aí fora.

Léxico contrastivo: «lousa electrónica»

Zulus e Brasileiros

«O bom e velho quadro negro já ficou verde, virou branco e agora é multicor. Uma das últimas novidades em relação a lousas utilizadas em salas de aula é a tela eletrônica interativa (Smart Board) que permite, ao mesmo tempo, a exibição de imagens de computador, incluindo filmes e animações, e a escrita manual. Além disso, tudo o que acontece na lousa, durante as aulas, pode ser gravado em CD ROM, além da própria voz do professor. ­A lousa torna as aulas mais atrativas e a possibilidade da gravação em CD ROM permite a avaliação da qualidade das aulas pela direção da escola e também pelos próprios pais dos alunos, que podem levar a aula inteira para casa» («Lousa eletrônica torna aula interativa», Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil, 28.1.2008, p. A24). É um processo muito comum: a partir do que se conhece, atribui-se, por analogia, nome a novos objectos: os Zulus chamam ao telemóvel ’uMakhalekhukhwini, «grito no bolso».

Tradução: «bière blanche»

C’est top!

Cara Luísa Pinto: bière blanche não é, como qualquer pessoa com umas tinturas de francês alvitraria ser, «cerveja branca». Esta é a bière blonde. A preta, já que de cervejas falamos, é a bière brune. A bière blanche há-de ter cor ― mas é conhecida, pelo menos largamente no Brasil e um pouco em Portugal, como «cerveja de trigo». Como tradução, está óptima, até porque a alternativa é usarmos estrangeirismos: Weissbier (ou Weizenbier) e wheat beer. E ainda não estamos com os copos, não é? Hic!

Léxico: «cachimbada»

Só fumaça

      Sérgio H. Coimbra, director do Meia Hora, entre dois rabiscos, teve tempo para se insurgir contra Fernando Rosas: «Parece que o Dr. Fernando Rosas teve tempo, entre duas cachimbadelas, para questionar o ministro da Defesa sobre a participação da Fanfarra e Lanceiros do Exército, e de representantes do Colégio Militar na homenagem ao rei D. Carlos no centésimo aniversário do seu assassinato e do filho D. Luís Filipe, em Lisboa, esta sexta-feira» («Ceci n’est pas une historien», Meia Hora, 28.1.2008, p. 23). Ora, a fumaça aspirada de cada vez num cachimbo é uma cachimbada e não uma cachimbadela. E que os cachimbistas do Cachimbo Clube de Portugal não o leiam, ou vão voar fornilhos, calcadores, boquilhas e escovilhões. É facto: cachimbadela também anda por aí.

Nome de povos


Há alguma dúvida?

Xan Rice, correspondente do jornal The Guardian na África Oriental, começa por escrever que «ethnic clashes were spreading across Kenya’s Rift valley last night with at least 19 people burned in their homes or hacked to death in the popular tourist town of Naivasha, 65 miles from Nairobi». Também o Meia Hora se refere, numa breve, ao facto: «Pelo menos 69 pessoas morreram este fim-de-semana em Naivasha, no Vale do Rift, a 60 km da capital, Nairobi, após ataques com catanas e fogo posto em habitações. Seis das vítimas morreram carbonizadas e as restantes com golpes.» Mas continua Xan Rice: «The month-long violence, in which nearly 800 people have died, was sparked by the disputed re-election of President Mwai Kibaki, has now changed into a raw ethnic conflict pitting mainly Kalenjins and Luos, who supported the opposition, against Kibaki’s Kikuyu community.» Lá está: Kalenjins e Luos. O Meia Hora — e todos os jornais portugueses, tanto quanto sei — prescindem da gramática quando se referem a povos: «Os conflitos, que num mês já fizeram 750 mortos, travaram-se entre os kikuyu, a etnia do Presidente acusado de fraude eleitoral Mwai Kibaki e a tribo Luo, do opositor Raila Odinga.» Mas qual é a dúvida? Claro que devemos escrever Kikuyus, Luos, Kalenjins, e o mesmo para o nome de cada uma das setenta diferentes comunidades étnicas quenianas ou quaisquer outras no mundo.

Léxico contrastivo: «logomarca»

Publicidade

«Carnaval é mesmo o momento chave para as empresas “desfilarem suas marcas” aos consumidores. Em um curto espaço de tempo, circulam pelo país quase 1 milhão de turistas, entre os quais 20 % de estrangeiros» («Festa regada a propaganda e desfile de logomarcas», Cláudia Dantas, Jornal do Brasil, 27.1.2008, p. E7). Segundo o dicionário Aulete Digital, «logomarca» é a designação que na publicidade se dá ao «conjunto do nome e de algum símbolo gráfico que constitui a representação visual de uma marca (de produto, empresa, etc.)».

Glossário escatológico


Língua viajante


      Em que outro país civilizado, ao fazer uma obra, se se verificava a meio, no fim ou passados seis meses que estava mal feita esta não era corrigida? A imagem mostra um desnecessário aviso sobre o que é cada coisa numa casa de banho numa área de serviço concessionada à Galp. Mas quem escreveu só tinha como referência o vocábulo «alcoolismo», daí — autocolismo. Vá lá, podia ter sido pior: o homem podia ter escrito «autocoolismo».


Aquela parte loc. Eufemismo de «merda».
Arriar a carga loc. Defecar.
Arriar o calhau loc. Defecar.
Arriar o pastel loc. Defecar.
Badalhocas f. pl. Prov. beir. e trasm. Bolas de excremento e terra, pendentes, como badalos, entre as pernas das ovelhas e carneiros.
Bestoiro m. Prov. trasm. Porção sólida de excremento humano.
Bloida f. Ant. Excremento.
Bolico m. Excremento de burro. O m. q. belisco, bolisco, bonico; bolico.Bolisco m. Prov. Excremento de burro.
Borrado adj. Sujo de fezes.
Boseira f. Bosta│Excremento mole das aves de capoeira.
Bosta f. O excremento de animais, como boi, cavalo, mais propriamente do boi.
Bosteira f. Bosta.│Acervo de bosta.
Bozerra f. Bras. Monte de excremento.
Burrisco m. Nome vulgar dado ao frago dos burros.
Buzeira f. Prov. trasm. Excremento mole de galinhas ou de outras aves grandes.
Buzeirada f. Prov. trasm. Grande porção de buzeira.
Buzeiro m. Pleb. Acervo de excrementos.
Caca f. Inf. Excrementos. Imundície.
Cagaçal m. Pleb. Sítio onde se deitam excrementos.
Cagalhão m. Pleb. Porção consistente de excremento.
Caga-merdeira f. Ant. Excremento.
Caganeira f. Evacuação descontrolada de fezes, geralmente muito pastosas ou líquidas; diarreia.
Caganita f. Pleb. Excremento de certos animais, em forma de pequeninas bolas.
Cascarria f. Excremento seco que se agarra à lã das ovelhas e ao pêlo de outros animais.
Castanha f. Chul. Excremento de burro.
Cerilhoto m. Prov. minh. Diminuta porção de excrementos sólidos humanos, recentemente expelidos.
Cíbalo m. Excremento duro e arredondado; escíbalo.
Cocó m. Inf. Excremento.
Coprófago adj. Diz-se dos animais que vivem de excrementos.
Coprólito m. Excremento fóssil.
Coprosclerose f. Endurecimento dos excrementos, nos intestinos.
Coprostasia f. Retenção dos excrementos; obstipação.
Corrença f. Ant. Diarreia.
Defecar v. int. Expelir naturalmente os excrementos.
Dejecção f. Evacuação de matérias fecais; as próprias matérias evacuadas.
Dejecto m. Matérias fecais evacuadas de uma vez.
Desarranjo m. Pop. Diarreia.
Diarreia f. Evacuação de fezes líquidas e abundantes, com aumento da frequência normal.
Escarnhida f. Gír. Excremento.
Escíbalo m. Excremento duro e arredondado.
Esfoura f. Trás-os-Montes. Diarreia, caganeira.
Estrabo m. Excremento de animais.
Fazer efeito loc. Defecar.
Fezes f. pl. Restos de produtos ingeridos que não foram aproveitados e resíduos que são eliminados pelo intestino.
Fluxo m. Soltura, corrença, diarreia.
Foeira f. Prov. beir. Diarreia, corrença.
Forrica f. Prov. minh. Dejecções quase líquidas.
Frago m. Estrabo, excremento de animais silvestres.
Giota f. Prov. dur. Excremento humano.
Grelos m. pl. Ter. de Algodres. O m. q. excrementos.
Larada f. Pop. Porção de excremento, um tanto líquido, soltura.
Merda f. Pleb. Matérias fecais; fezes que o intestino expele normalmente pelo ânus; excremento.
Merdança f. Pleb. Muitas matérias fecais; caganeira.
Merdimbuca f. Ofensa, ultraje, vulgar na Idade Média, que consistia em meter excrementos na boca de alguém.
Poia f. Pop. Acervo de dejectos.│Dejecção.
Pona-âmbar m. Excremento de certa ave marítima oriental.
Respo m. Gír. Excremento humano.
Rilhoto m. Prov. Pequena e dura porção de excremento.
Soltura f. Diarreia.
Sorete m. Bras. de gaúchos. Matéria fecal, quando dejectada em pedaços secos e duros.
Torcida f. Chul. Excremento em forma de torcida, duro e consistente.
Torcilhão m. Prov. Porção de excremento mais ou menos estriado ao sair do ânus.
Trampa f. Pleb. Excremento.
Zicheira f. Trás-os-Montes. Fezes líquidas; diarreia.

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Léxico contrastivo: «câmbio automatizado»

Ao rubro

Se for ao Brasil e lhe falarem de «câmbio automatizado», não pense logo que lhe estão a falar de máquinas ATM de câmbio. É de outra coisa que se trata. «É preciso estar muito atento às mudanças feitas pela Fiat no Stilo. Até porque o face lift é dos mais discretos. A plástica atingiu a grade frontal, as lanternas traseiras, um pouco mais de dobras na porta de trás e frisos cromados nas laterais. A grande modificação veio mesmo com a introdução do câmbio automatizado Dualogic, desenvolvido pela Magnetti Marelli» («Stilo ganha câmbio automatizado», Antonio Puga, Jornal do Brasil, 26.1.2008, p. V3). É mesmo a nossa caixa de mudanças automática. O jornalista explica: «Ou seja, um dispositivo eletrônico capaz de acionar a embreagem e mudar as marchas sem interferência do motorista.» Claro que do francês embrayage fizemos embraiagem e entre os que conduzem distinguimos, pelo menos, condutores e motoristas. E já tivemos chaufeurs, os finos, e choferes, os outros. Modas. Em França, originariamente, o chaufer era aquele que puxava o cambão (branloire, em francês) dos foles das forjas, para insuflar mais ar e assim pôr o metal ao rubro.

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