«À última hora»

Maus exemplos


      Posso estar enganado, mas hoje em dia qualquer reformado leitor de jornais sabe que se não deve dizer «à última da hora», mas sim «à última hora». Ainda assim, podemos ver professores, como Luciano Amaral (licenciado e mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, doutorado em História e Civilização pela European University Institute (Florença) e professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa) a fazê-lo: «A novidade estava no facto de o fazer apenas à última da hora, quando está prestes a sair. Eis o mais claro sinal do realinhamento “realista” da política externa dos EUA» («O filho pródigo», Meia Hora, 24.1.2008, p. 2).
      Um bom exemplo: «Eu deduzira já que naquele quadro, composto com um cuidado que se adivinhava não haver nascido à última hora, me cabia com a mana Carolina a função mais importante» (Camilo Broca, Mário Cláudio, D. Quixote, Lisboa, 2.ª ed., 2007, p. 16).



Tradução: «cap and kepi»


Não é bem assim

Num livro inglês, o «cap and kepi» como o da Legião Estrangeira traduz-se por «quépi com cobre-nuca» e não por «chapéu com lenço». Claro que o cobre-nuca também é, nas antigas armaduras, a parte do capacete que cobria a nuca, mas decerto que suporta a polissemia, ou não? Também, para ficarmos ainda nas armaduras antigas, a cimeira era o elmo ou, outra acepção, o ornato que enfeitava o cimo de um capacete. E depois? Chapéus com lenços há muitos. Algumas camponesas, cá como no Brasil, usavam chapéu com lenço. O símbolo do Movimento das Mulheres Camponesas do Brasil (MMCB) é precisamente um chapéu com lenço roxo.

Mais pleonasmos

Ilegal ilegal

A ANTRAL queixa-se de que «o serviço de táxi tem decaído face ao negócio paralelo ilegal de carrinhas particulares». Que eu saiba, um negócio paralelo já é um negócio ilegal. Está nos dicionários: «paralelo adj. Que existe à margem da lei ou daquilo que é considerado a norma, o normal» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa). Claro que os jornalistas se limitam a reproduzir o pleonasmo, como, mais uma vez, Tiago Alves, no noticiário das três da tarde na Antena 1.

Pleonasmo

Não abuse

No noticiário do meio-dia, na Antena 1, Tiago Alves quis que o actor Heath Ledger tenha morrido — pese embora outros meios de comunicação equacionarem, a par desta, a hipótese de suicídio — de «abuso excessivo» de droga. Ora, que eu saiba, uma das acepções do vocábulo «abuso» é precisamente «uso excessivo», pelo que um «abuso excessivo» é pleonástico. Um abuso de linguagem. Um mau uso. Enfim.

Caubóis e «cowboys»

Os rapazes das vacas

Muito mais do que nós, veja-se como os Brasileiros oscilam entre usar estrangeirismos sem sequer o indicarem e aportuguesarem palavras que nos habituámos a ver como inapelavelmente inadaptáveis. «Segundo o New York Times, o ator [Heath Ledger] morava num apartamento cuja dona é a também atriz Mary-Kate Olsen que, acredita-se, está na Califórnia. Não está claro por quanto tempo ou por que o ator estava morando no apartamento dela. Em 2005, Ledger interpretou o papel de Ennis Del Mar em Brokeback Mountain, sobre dois caubóis que tinham um relacionamento amoroso secreto» («Ator é encontrado morto», Jornal do Brasil, 23.1.2008, p. A21).

Tradução: «rebranding»

Outra imagem

Está duplamente motivado, este texto. Por um lado, devo regozijar-me por ver que alguns jornais começaram a fazer acompanhar, ainda que não, como preconizei, sistematicamente, alguns estrangeirismos que querem ou têm de usar do respectivo significado. Eis um exemplo do Diário de Notícias: «Porém, a Optimus reivindica para si o maior rebranding (alteração de imagem) alguma vez feito em Portugal» («“Nova” Optimus veste jornais de laranja por 32,4 milhões», P. B., 10.1.2008, p. 61». Por outro lado, a mesmíssima palavra — rebranding — apareceu numa tradução. «Was independence nothing more, he asked, than a rebranding of essentially the same product?» O tradutor quis que fosse: «A sua pergunta era se a independência não seria essencialmente uma mera contrafacção do mesmo produto.» O conceito no âmbito do marketing é este: «Também chamado de reposicionamento, o rebranding é o processo pelo qual um bem ou serviço de uma empresa, com uma determinada marca, é apresentado ao mercado com uma nova identidade» («O que é o rebranding?», António Melo, ver aqui). Assim, dado que não se depreende da definição qualquer carga valorativa, isto é, embora a mudança seja, naturalmente, para melhor, esse é um aspecto que não está na definição, o significado dado pelo jornalista do Diário de Notícias poderá servir de tradução. Ora experimentemos: «A sua pergunta era se a independência não seria essencialmente uma mera alteração de imagem do mesmo produto.» Perfeito.

Onomatopeias

Whoosh!

A par das interjeições, assunto já aqui tratado, a tradução das onomatopeias oferece igualmente algumas dificuldades. Desta vez, tratava-se da tradução — se se deve traduzir — de whoosh, que é a onomatopeia para ar a ser rasgado por objecto em velocidade. Dizia mais, o original: whoosh of flame. O tradutor optou, decerto depois de muito pensar, por «foguete de chama», que não me parece mal. Contudo, mesmo aqueles, como eu, que leram pouca banda desenhada, já alguma vez usaram um som semelhante para descrever um fluxo de fogo, uma seta a cortar o ar... Se tivéssemos de escrevê-lo, como o faríamos? «Uuuche!»? Parece mais para afugentar galinhas.
Algumas destas vozes imitativas já estão dicionarizadas, como ferrum-fum-fum, para os harpejos da viola, catrapus, para a queda de objectos ou pessoas, chape, ruído do que cai na água, pafe para o ruído de algo a cair, pumba, para uma pancada, rantamplã, para o som de um tambor, rufe-rufe, para o som produzido pelas polpas dos dedos ao raspar por uma superfície (pele de bombo, vidraça, etc.), ruge-ruge, para o rumor de saias que roçam pelo chão, rupe!, para o ruído do varrer, ramerrão, para um ruído sucessivo e monótono, tau, para um ruído seco como um tiro ou pancada, zás, para o ruído de uma queda ou pancada, etc. Deixo algumas — ou simples conjuntos de fonemas ou, como as que citei, palavras — usadas em obras de autores portugueses.

Catrapus.
«Um turista suíço enrola-se num tapete persa e fica deitado ao comprido a fazer-se de morto, as meninas do colégio vinham correndo de narizitos no ar, catrapuz!, encalham no suíço atapetado de persa, estatela-se a primeira fila, depois a segunda, a terceira, assim sucessivamente», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.


Dlom.
«Desdobrou o lenço branco, limpou o suor, reparou que tinha a viola em posição de afinar, continuou: dlom, dlom…», José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado.


Pssst.
«Pssst…», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.


Rrrooommm.
«E o rio, o ladrão, parece que se ouvia subir — rrrooommm! rrrooommm! — e a ameaçar as pessoas mesmo quase à porta das casas», José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado.


Splakshhh.
«Deu um berro e um salto espavorido, com tanto azar que, na aterragem, os seus noventa quilos, concentrados no calcanhar que primeiro pousou no chão, desfizeram, com um splakshhh tétrico de cartilagens esmigalhadas, a cabeça do ofídio, que se esgueirara pacatamente da sua cesta redonda que tinha ficado mal fechada e da varanda, para se vir alapardar daquele lado da cama», Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira.

Terrim.
«O terrim da campainha, imperativo, ia-os acanhando», Tomaz de Figueiredo, Dicionário Falado.

Tlintlim. «Ouviu este tlintlim? É a bateria do meu telemóvel a dar o peido mestre», Mário Zambujal, Primeiro as Senhoras.


Truz.
«Disse “vou já, é só um minuto, estou-me a vestir”, mas quem esperava do outro lado insistia, truz truz truz, por que diabo é que as mulheres se lembram sempre desta desculpa, deve ter pensado, pelo menos se se tratava de um homem», Jacinto Lucas Pires, Para Averiguar do seu Grau de Pureza.


Tuca-tuca-tuca
e zás. «Os pais sentem sempre culpa nestas coisas, culpa que geralmente mascaram com zanga, do tipo, não te disse para não fazeres isso?, não te disse para não pores ali a mão?, não te disse para não ires sem mim? […] Tuca-tuca-tuca, areal fora no meu calçanito de favos (havia uns lindos nos anos sessenta), rum ao azul da maré baixa, dois ou três passos nas ondas tépidas e zás, uma dor lancinante» («O banho do pintainho», Fernanda Câncio, Diário de Notícias/Notícias Magazine, 13.4.2008, p. 12).


Zzzzzz.
«Silvino envolve a mão num lenço de quadrados azuis, agarra a alavanca, dá uma mirada em redor, ninguém deste lado, ninguém daquele, puxa de leve, piram-se cinco abelhas a experimentar o voo, zzzzzzz, zzzzzzz, somem-se na direcção do Egipto, não tarda nada ouvem-se os primeiros gritos, gritos dilacerantes, de cortar o coração, e rebenta o cagaçal de pés em correria», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.

Tradução: «disclaimer»

Avisos

O leitor Miguel Gomes, a quem agradeço as palavras iniciais da sua mensagem, quer saber o que penso sobre a tradução do termo inglês, usado abundantemente na Internet, disclaimer. Depois de transcrever a inepta definição do Michaelis Moderno Dicionário Inglês, cita a que se lhe afigura melhor tradução, que encontrou num site que não identifica: «cláusula de desresponsabilização». Esta é, de facto, a expressão proposta e largamente usada para traduzir aquele vocábulo inglês. Contudo, não concordo. Há aí claramente exagero: nunca podia haver desresponsabilização, mas somente limitação de responsabilidade, que não é, nem pouco mais ou menos, o mesmo. Assim, entre não usar qualquer aviso nesse sentido (a lei geral cobre convenientemente a situação) e ter de usar algum, usaria, sem qualquer dúvida, «termo de responsabilidade», ou «aviso», ou «aviso legal». Mas que se use, usem. Afinal, também no futebol para cegos, sabia?, se usam vendas nos olhos dos jogadores.

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