Léxico contrastivo: «estilingue»

Imagem: http://caixadelata.blogspot.com/

Os pardais não gostam


«A greve dos roteiristas americanos tem deixado Akiva Goldsman, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro por Uma mente brilhante (2001), em situação embaraçosa: é como se estivesse de braços cruzados contra ele mesmo, por ser produtor e autor do roteiro de Eu sou a lenda (milionário exercício de ficção científica dirigido por Francis Lawrence e estrelado por Will Smith, que chega hoje aos cinemas brasileiros)» («O drama de ser estilingue e vidraça ao mesmo tempo», Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil, 18.1.2008, p. B3). É a nossa funda ou fisga, a que os Brasileiros também chamam atiradeira, badoque, bodoque e baladeira.

Como se escreve na televisão

Quinta coluna da iliteracia

      Como articulista que é, o escritor e historiador Rui Tavares tem de falar de quase tudo. É multímodo, prolífico, mirífico. Ontem, na Edição da Noite, na Sic Notícias, lá estava ele com José Adelino Maltez e Rui Oliveira e Costa, o director da Eurosondagem, a discutir — porque é mesmo muito discutível — o projecto de lei do PS e do PSD que altera a lei eleitoral autárquica. Por duas vezes, em rodapé, apareceu «Rui Tavares — colonista». Ora, colonista é o que se dedica a questões coloniais, e tal é ofensivo para Rui Tavares, colunista de tudo. Mas os operadores de insersor de caracteres não têm de saber ler?

Tradução: «best-seller»

Eis a resposta

   Há já muito tempo, alguém escrevia noutro blogue a propósito da tradução ou aportuguesamento de termos como bestseller, copydesk, e layout: «Mas perguntemos ao blogueiro Helder Guégués (Assim Mesmo — http://letratura.blogspot.com/) o [que] ele acha disso.» Passados dezanove meses, e sem pressas, pois que a pergunta não me foi feita directamente, eis a resposta em relação a bestselller: ainda recentemente, revi uma obra em que se podia ler no original: «In a 1,400-page best-selling textbook for medical students, lip service is paid in the first chapter to the doctor-patient relationship, before the book gets down to the real business of the human organism.» Insinua-se por aqui a palavra bestseller? A tradutora, Maria Carvalho, não achou necessidade de recorrer à palavra inglesa: «Num manual de grande venda, com cerca de 1400 páginas, destinado a estudantes de Medicina, fala-se no primeiro capítulo da relação médico-doente, mas apenas em termos formais, antes de se entrar na verdadeira questão, o organismo humano.» (Porque Adoecemos?, Darian Leader e David Corfield, Editorial Bizâncio, Janeiro de 2008.) Quem perguntava fazia-o, afirmava, «pela necessidade do termo». Qual necessidade?

«Evocar» e «invocar»

Todos os santinhos

      Como já é a segunda vez numa semana, decido-me: os verbos evocar e invocar não são inteiramente sinónimos. Ontem, no frente-a-frente do Jornal das 9 da Sic Notícias, Helena Roseta disse «evocar argumentos». Há poucos dias, foi um tradutor, que pretendeu que uma personagem «dificilmente podia evocar desconhecimento da decisão» («could hardly protest to be innocent of the decision», no original). Vamos lá ver: posso, se me apetecer, evocar alguém que invocou algo. Invocar tem como étimo o latim invocare e significa implorar a protecção ou o auxílio, fazer súplicas, chamar em seu socorro, pedir, rogar, suplicar. Como também significa alegar em seu favor, recorrer a. Assim, invocamos a protecção de Santa Bárbara, especialmente se estiver a trovejar, e depois esquecemo-la ingratamente, e invocamos desconhecimento da lei — e não ganhamos nada com isso, pois que a lei, sábia, já prevê que «a ignorância ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas». Evocar também vem do latim e significa chamar de algum lugar, fazer aparecer, chamando por meio de esconjuros, invocações ou exorcismos; trazer à lembrança. Assim, podemos evocar o Diabo, e, embora no respeito da gramática, arrepender-nos-emos. E podemos evocar a nossa bucólica infância à beira do Sado (e se julgam que estou a falar de mim, enganam-se).
      O Livro de Estilo do Público alerta sucintamente: «Evocar/invocar — São quase sinónimos, mas em certas expressões fixou-se um deles: evocar o passado (recordar, reproduzir na mente); cerimónia evocativa; evocar os espíritos (chamar para que apareçam); invocar a Virgem (chamar em auxílio); invocar o perdão (suplicar); invocar um testemunho (recorrer a ele).»

Regência do verbo «responder»

Respondo

O leitor Jeová Barros, brasileiro, pediu-me que explicasse a regência do verbo responder. Como não especifica a dúvida que tem, parto do princípio de que se trata da questão da regência deste verbo como transitivo directo e indirecto e como transitivo indirecto. Assim, pode-se responder alguma coisa a alguém, e será o primeiro tipo de regência que usamos, e pode-se responder a alguém ou a alguma coisa, e estaremos a usar o segundo tipo de regência. Contudo, não quero deixar de transcrever uma nota final do verbete relativo a este verbo no Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes (Editora Globo, São Paulo, 36.ª edição, 1989, p. 522): «Carlos Góis (Sint. reg., 86) diz que se pode construir indiferentemente responder a carta ou à carta. Mas a leitura dos bons exemplos da língua demonstra que a melhor sintaxe é aquela em que responder “rege acusativo daquilo que se responde, e dativo daquilo ou daquele a que se responde”. (E. C. Per., Gram. hist., 326.) Vem a pêlo, ainda, transcrever aqui a lição de Cândido Lago sobre a regência deste verbo: “Convém dizer corretamente — ‘Respondendo ao vosso ofício…’ ‘respondendo à sua carta de’, etc., etc. Aquilo que a pessoa responde é que é o objeto directo; mas o ofício ou a carta a que a pessoa responde é objeto indireto; por exemplo: — ‘Que respondeste tu ao ofício do diretor?’ — ‘Ao ofício do diretor respondi que o pretendente não estava…’ Vê-se claramente que o objeto direto de ‘respondi’ é a cláusula substantiva seguinte: ‘que o pretendente não estava…’” (C. Lago, O que é correto, 53).»

Pronúncia: «Reading»

He is a man of wide reading

Acabei de ouvir o noticiário das 8.30 na Antena 1. Nas notícias do desporto, ao falar dos resultados da Primeira Liga inglesa, o jornalista referiu-se ao jogo Reading-Tottenham, pronunciando o primeiro destes nomes como se se tratasse de uma forma do verbo inglês to read. Nada mais errado: Reading, o topónimo (e o mesmo se aplica ao antropónimo), lê-se /Réding/. Claro, são coisas básicas, mas no momento da verdade o escorreganço é confrangedor. E fica mal a um jornalista. Em tempos de televisão por cabo, com a Internet, esqueçam Fradique Mendes: «Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: — todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.» Se as temos de falar, façamo-lo com o mínimo de proficiência.

Léxico contrastivo: «quilombola»

Outros guetos

Já aqui falei, a propósito do bairro lisboeta da Madragoa e do Convento das Trinas, erigido numa zona chamada Mocambo, dos quilombos. Hoje é a vez dos quilombolas, que são os escravos refugiados num quilombo. «Concebidos como forma de luta e resistência, os quilombos devem ser considerados uma criação original do negro escravizado no Brasil e contrapõem-se à versão de que o cativeiro foi aceito com resignação. A Lei da Terra, de 1850, proibia que descendentes de quilombolas assumissem a posse das áreas onde viviam. Só em 1988 a Constituição revogou a proibição, tornando responsabilidade da União a garantia da posse aos remanescentes» («A questão quilombola», Ivaldo Ananias da Paixão, O Povo, 20.11.2007, p. 5).

Léxico contrastivo: «engavetamento»

Bem encaixados

      «O engavetamento de três ônibus e quatro veículos de passeio próximo ao vão central da Ponte Rio-Niterói, no sentido Rio, obstruiu o trânsito niteroiense em todas as vias de entrada da cidade e atingiu ainda o município vizinho, São Gonçalo, na manhã de ontem. Segundo o chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Ponte Rio-Niterói, inspetor João Santos Gama, o acidente ocorreu por volta das 7h40min e deixou 22 pessoas feridas» («Engavetamento pára a Ponte Rio-Niterói», Jornal do Brasil, 15.1.2008, p. A12). Na definição do dicionário Aulete Digital, engavetamento é a «colisão que, pela violência do choque, deixa veículos encaixados uns nos outros».

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