Os erros do canal Panda

Natal sem gramática

No episódio de ontem do Ruca II, no canal Panda, comemorava-se, atrasado, o Natal. No infantário, ficámos a saber algumas particularidades da forma como cada miúdo — a turma é multiconfessional, como muitas escolas em Portugal o são actualmente — celebrava a quadra. Vejam quão educativo pode ser um episódio: «Em casa dos gémeos Jaime e Jorge decoram a árvore de Natal com pipocas. Às vezes não haviam pipocas suficientes.» Já aqui iniciei campanhas contra atentados semelhantes à língua portuguesa, e alguns, como os de jogos à venda nos hipermercados Feira Nova, com êxito. Peço aos meus leitores que enviem uma mensagem de protesto para o canal Panda, como eu próprio vou fazer: panda@canal-panda.com.

Léxico contrastivo: «tensionar»

Provocar tensão

«Cartaxo disse ao O POVO, momentos antes da plenária, que o grupo deverá tensionar a nova diretoria, especialmente no que diz respeito a uma das grandes divergências dos então candidatos para o comando do PT no Ceará no final de 2007: a manutenção da aliança PMDB, PSB e PT no bloco de aliança no Estado» («Cartaxo promete tensionar debate», Marcela Belchior, O Povo, 7.1.2008, p. 15). Lê-se, por vezes, em especial em textos técnicos, o verbo tensionar («tensionar uma mola», v. g.), que, à primeira vista, só tem contra si o facto de se poder confundir com tencionar. O francês tem o verbo tensionner. No exemplo do jornal brasileiro, todavia, não se vê que «tensionar» seja mais explícito que «pressionar», por exemplo. É um neologismo quase sempre dispensável.

Como se escreve na imprensa

Sinos e prestações

Vejam este título da edição de hoje do Meia Hora: «Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano». Inequívoco e gramaticalmente correcto: alguém, um país, vai mandar um sino para o espaço. Nada de mais. Aliás, uma cadela não é mais do que um sino. Claro que não deixamos de nos perguntar para quê, mas por vezes a ciência é insondável. Logo o primeiro parágrafo da notícia, porém, nos despersuade de que uma cadela não é mais do que um sino: «Pequim anunciou os seus planos espaciais para 2008, em que deverá lançar 15 foguetões, pôr em órbita 17 satélites e promover a sua terceira missão tripulada, que vai incluir o primeiro passeio espacial por parte de um astronauta chinês, informou ontem a agência de notícias oficial» («Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano», Meia Hora, 9.1.2008, p. 12). Sino é um antepositivo, um elemento de composição, não pode andar por aí à solta como uma gaivota.
E se tivéssemos mais cuidado com o que escrevemos, não seria melhor? Logo um dos títulos da primeira página é de arrepiar: «Pensões de reforma: aumento atrasado, curto e pago às prestações deixa oposição à beira de um ataque de nervos». «Às prestações»?

Léxico contrastivo: «síndico»

Uma espécie de advogado

«Moradora e ex-síndica, Otilde Bandeira só lamenta que o raro indicador de andares em forma de relógio, que fica em cima da porta, tenha quebrado no ano passado. “Foi uma loucura conseguir o conserto”» («Sobe e desce», Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 6.1.2008, p. A16). Vem do grego σύνδικος (syndikos), «advogado, representante», a que pertence também o vocábulo «sindicato». No Brasil, é a pessoa que administra um condomínio, geralmente, como em Portugal, um condómino. Os Portugueses conhecem a palavra das telenovelas. Corresponde ao nosso administrador.

Tradução

Fitas e adesivos

Na Sic Mulher, na série inglesa Animal Hospital, tão reveladora da singularidade dos Ingleses, dois adolescentes levaram uma periquita, a Snowy, ao veterinário. Tinha, viu-se depois bem na radiografia, uma pata fracturada. Rolf Harris (australiano a viver desde 1952 no Reino Unido), o apresentador do programa, perguntou à veterinária se ia usar talas, ao que ela respondeu que usaria tape, que tanto significa «fita-cola» como «adesivo». No contexto, contudo, só poderia traduzir-se por adesivo, e foi isso que vimos, e não é preciso ser-se veterinário ou alveitar para perceber porquê. Na legenda, lemos, com espanto e incredulidade, que usaria fita-cola. Coitado do pássaro. E do tradutor, que trabalha para a Pluridioma.

Como se fala na rádio

Capit_ _s de Abril

      No noticiário das 21 horas de ontem na Antena 1, o jornalista Daniel Belo disse, convictamente e na sua bela voz, que «Luisão é um dos capitões da equipa».
      Primeiro a gramática. É verdade que a maioria dos substantivos terminados em -ão pluraliza, por razões etimológicas, em -ões. (É neste grupo, não esqueçamos, que se incluem os infindáveis aumentativos.) Não é neste grupo, porém, que se encaixa «capitão». Há depois um grupo, reduzido, de substantivos em -ão cujo plural não está definitivamente fixado, como é o caso, por exemplo, de «aldeão», com dois plurais: aldeãos e aldeães; de «ancião», com três plurais: anciãos, anciões, anciães; de «ermitão», etc. Também não é a este grupo que pertence «capitão». «Capitão» faz parte de um grupo, igualmente reduzido, de substantivos que pluralizam em -ães:

alemão/alemães;
bastião/bastiões;
cão/cães;
capelão/capelães;
capitão/capitães;
catalão/catalães;
charlatão/charlatães;
escrivão/escrivães;
guardião/guardiões;
pão/pães;
sacristão/sacristães;
tabelião/tabeliães.

      Quanto às circunstâncias do erro. É também verdade que falar não é escrever. Quem escreve pode corrigir sem que os destinatários o saibam. Quem fala em directo numa rádio ou na televisão ou erra e não liga ou corrige. Na minha opinião deve corrigir sempre. Para João Paulo Meneses, autor do excelente Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo» (Editorial Notícias, 2003), não é sempre assim, pelo menos no que respeita aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Já aqui apresentei as razões da minha discordância.

Expressão: «papa negro»

Superior dos Jesuítas

«Desde o último dia 6 de janeiro, representantes da Companhia de Jesus no mundo inteiro estão reunidos em Roma para repensar sua identidade e missão para os anos vindouros. E sua primeira providência será eleger um novo superior geral. Pela primeira vez na história, o assim chamado “papa negro” renuncia ao cargo ainda em vida e sua renúncia é aceita pelo papa. O novo geral, que será eleito pelos 225 delegados de todas as províncias da Ordem, terá diante de si uma árdua e bela missão: governar a Companhia pelos próximos anos. Diante de si terá dois grandes e reais desafios» («Uma companhia para o século 21», Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil, 7.1.2008, p. A10). A designação deve-se simultaneamente à cor das vestes dos Jesuítas e à importância da ordem no seio da Igreja Católica.

Como se fala na rádio

Todos os nomes

Queria expressar a minha solidariedade com o director-geral de Saúde, Dr. Francisco George. Não, como seria de esperar, por causa de toda a oposição à aplicação da chamada Lei do Tabaco (Lei n.º 37/2007, de 14 de Agosto), mas pelo facto de os jornalistas da rádio lhe deturparem quase sempre o nome. Na Antena 1, ora é «Jorge» ora «Géorge». Conheço o nome do director-geral de Saúde desde os tempos em que ele era delegado de saúde em Beja e escrevia para o Diário do Sul. Nunca me passou — e porque havia de passar? — pela cabeça aportuguesar-lhe o nome. Quanto a deturpações, já basta com o meu: Helder Guedes?

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