Ortografia: Árctico e Antárctico

Guarda-factos

      É muito raro encontrar correctamente grafados os topónimos Árctico e Antárctico. «O aumento das temperaturas no Ártico tem sido, nas últimas décadas, quase duas vezes mais rápido do que no resto do planeta mas os cientistas não sabem se esse aumento se deve à acção humana ou a ciclos naturais, segundo artigos ontem publicados na Nature» («Aumento da temperatura mais rápido», Global, 4.1.2008, p. 14).

Léxico contrastivo: «moisés»

Bebé a bordo

«Pode parecer exagero de americano, mas faz sentido. Há uma discussão em torno da segurança real das crianças pequenas, que viajam de avião com os pais. Pelas regras da Transportation Safety Administration (TSA), bebês com idades abaixo de 2 anos voam no colo, sem bilhetes ou assentos próprios, identificação na maior parte dos arquivos das companhias ou qualquer outro tipo de proteção. São os únicos passageiros dispensados nos EUA da checagem que a tripulação de cabine faz dos cintos de segurança na decolagem e no pouso. Tudo de que dispõem para a própria segurança é o braço de quem os está carregando. Há quem defenda por lá a obrigatoriedade de os pequenos viajarem em berços, moisés ou cadeirinhas atadas aos bancos, para reduzir riscos» («Os cuidados com bebês que viajam no colo», Marcelo Ambrósio, Jornal do Brasil, 6.1.2008, p. E7). Os moisés brasileiros são as nossas alcofas para bebés. Actualmente, em Portugal, o sistema mais usado não é este, mas sim o ovo.

Léxico contrastivo: «tipóia»

Imagem: http://portal.ua.pt/

Vai um coche?


      Aprendi a fazer, num curso de primeiros socorros, com alguma proficiência já demonstrada num caso real, a manobra de Heimlich. Contudo, se estivesse no Brasil e, perante a suspeita de fractura da clavícula de alguém, me dissessem que tinha de amparar o antebraço da vítima com uma tipóia, não saberia que fazer. Ou perguntaria se um coche também servia. Até ontem. Agora sei. Na verdade, uma tipóia — é mais um brasileirismo — é qualquer lenço ou tira de pano que se prende ao pescoço, para descanso do braço fracturado ou ferido. Apenas conhecia o termo charpa para designar o mesmo.

Prefixo sub-


Secrets des bas-fonds

Júlia Durand tem 13 anos e é escritora. O lançamento da sua obra Segredos do Sub-Mundo realizou-se, como se pode ver na imagem, no dia 10 de Dezembro. Vi, entrevi, uma entrevista na televisão. Está tudo muito bem. Mas o revisor também tem 13 anos? É que o prefixo sub só tem hífen antes de palavras iniciadas por b (sub-base) ou r (sub-região). Logo, submundo.

Tradução: «perré»

Perré, pitching, enrocamento

Por vezes ouve-se falar em perré. Por exemplo, o aterro formado pelo perré da Junqueira, inserido no Plano Geral dos Melhoramentos do Porto de Lisboa de 1886. Os dicionários bilingues francês-português dividem-se: uns dão a definição, erro crasso já aqui abordado, e não o termo correspondente em português; outros dão como definição «muro de contenção». A partir da definição francesa (Perré m. Dans le domaine des trav. publ. Revêtement en pierres sèches ou en maçonnerie, destiné à renforcer un remblai, les rives d’un fleuve, les parois d’un canal, etc.│Rivage de la mer couvert de pierres ou de galets), podemos chegar a um termo português, que é enrocamento. E, para os meus leitores que não são engenheiros, devo dizer o que é um enrocamento: conjunto de pedras toscas que servem de alicerces nas obras hidráulicas. Em inglês diz-se stone pitching e em espanhol encachado.

Léxico: «envide»

Envide esforços, estude

Por vezes, essa é a verdade, não temos ou não conhecemos outro que não um termo popular para designar determinado facto ou realidade. Que nome tem, caro estudante de Medicina que de vez em quando aqui deixa comentários, a parte do cordão umbilical que fica ligada ao feto? Pois é o envide, qualquer senhora com mais de sessenta anos sabe. Sobretudo se não frequentou uma faculdade de Medicina.

Léxico contrastivo: «micrão»

Miniautocarro


      «A colisão de um microônibus com um carro de passeio, ontem, provocou a morte de uma pessoa e ferimentos leves em outras duas. O acidente aconteceu por volta das 5h30, no cruzamento das avenidas Padre Leonel Franca e Visconde de Albuquerque, perto da Praça Sibeluis, na Gávea. O coletivo da Viação Real, da linha 2015, seguia no sentido Leblon quando bateu no Gol branco, placa KMG-4715, que teria, segundo testemunhas, avançado o sinal vermelho» («Acidente com micrão mata um e fere dois», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 4.1.2008, p. A15). Nem mais: micrão é a designação popular de «microônibus». Todavia, «microônibus», «microautocarro» em Portugal, parece-me exagero. O mais pequeno que temos são «miniautocarros».

Música. «Earworm»

Vermes do ouvido

      O correio traz-me a programação da Culturgest para o primeiro trimestre de 2008. No livrinho cor de tijolo, leio que o artista plástico Ricardo Jacinto vai ali ter, na Galeria 1, entre 23 de Fevereiro e 11 de Maio, uma exposição intitulada «Earworm». Não se lê ali nenhuma explicação para o título, mas eu lembro-me de ter lido recentemente a palavra. Foi na página 161 da mais que recomendável obra Uma Paixão Humana — O seu Cérebro e a Música, de Daniel J. Levitin (tradução de Bárbara Pinto Coelho, Editorial Bizâncio, Novembro de 2007). Eis o trecho: «Os mecanismos neuronais que estão envolvidos e são comuns à percepção da música e à memória musical permitem perceber porque certas canções nos ficam coladas à cabeça. Os cientistas chamam-lhe vermes do ouvido, do alemão öhrwurm, ou apenas síndrome da canção que não sai do ouvido. Não existe muito trabalho científico sobre este tema. Sabemos que os músicos têm mais probabilidade do que os não músicos de ser atacados por vermes do ouvido, e que as pessoas com distúrbios obsessivo-compulsivos são normalmente as que mais sofrem de perturbações provocadas por vermes do ouvido — em certos casos, a medicação para os distúrbios obsessivo-compulsivos pode minimizar os efeitos.»


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