Léxico contrastivo: «tipóia»

Imagem: http://portal.ua.pt/

Vai um coche?


      Aprendi a fazer, num curso de primeiros socorros, com alguma proficiência já demonstrada num caso real, a manobra de Heimlich. Contudo, se estivesse no Brasil e, perante a suspeita de fractura da clavícula de alguém, me dissessem que tinha de amparar o antebraço da vítima com uma tipóia, não saberia que fazer. Ou perguntaria se um coche também servia. Até ontem. Agora sei. Na verdade, uma tipóia — é mais um brasileirismo — é qualquer lenço ou tira de pano que se prende ao pescoço, para descanso do braço fracturado ou ferido. Apenas conhecia o termo charpa para designar o mesmo.

Prefixo sub-


Secrets des bas-fonds

Júlia Durand tem 13 anos e é escritora. O lançamento da sua obra Segredos do Sub-Mundo realizou-se, como se pode ver na imagem, no dia 10 de Dezembro. Vi, entrevi, uma entrevista na televisão. Está tudo muito bem. Mas o revisor também tem 13 anos? É que o prefixo sub só tem hífen antes de palavras iniciadas por b (sub-base) ou r (sub-região). Logo, submundo.

Tradução: «perré»

Perré, pitching, enrocamento

Por vezes ouve-se falar em perré. Por exemplo, o aterro formado pelo perré da Junqueira, inserido no Plano Geral dos Melhoramentos do Porto de Lisboa de 1886. Os dicionários bilingues francês-português dividem-se: uns dão a definição, erro crasso já aqui abordado, e não o termo correspondente em português; outros dão como definição «muro de contenção». A partir da definição francesa (Perré m. Dans le domaine des trav. publ. Revêtement en pierres sèches ou en maçonnerie, destiné à renforcer un remblai, les rives d’un fleuve, les parois d’un canal, etc.│Rivage de la mer couvert de pierres ou de galets), podemos chegar a um termo português, que é enrocamento. E, para os meus leitores que não são engenheiros, devo dizer o que é um enrocamento: conjunto de pedras toscas que servem de alicerces nas obras hidráulicas. Em inglês diz-se stone pitching e em espanhol encachado.

Léxico: «envide»

Envide esforços, estude

Por vezes, essa é a verdade, não temos ou não conhecemos outro que não um termo popular para designar determinado facto ou realidade. Que nome tem, caro estudante de Medicina que de vez em quando aqui deixa comentários, a parte do cordão umbilical que fica ligada ao feto? Pois é o envide, qualquer senhora com mais de sessenta anos sabe. Sobretudo se não frequentou uma faculdade de Medicina.

Léxico contrastivo: «micrão»

Miniautocarro


      «A colisão de um microônibus com um carro de passeio, ontem, provocou a morte de uma pessoa e ferimentos leves em outras duas. O acidente aconteceu por volta das 5h30, no cruzamento das avenidas Padre Leonel Franca e Visconde de Albuquerque, perto da Praça Sibeluis, na Gávea. O coletivo da Viação Real, da linha 2015, seguia no sentido Leblon quando bateu no Gol branco, placa KMG-4715, que teria, segundo testemunhas, avançado o sinal vermelho» («Acidente com micrão mata um e fere dois», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 4.1.2008, p. A15). Nem mais: micrão é a designação popular de «microônibus». Todavia, «microônibus», «microautocarro» em Portugal, parece-me exagero. O mais pequeno que temos são «miniautocarros».

Música. «Earworm»

Vermes do ouvido

      O correio traz-me a programação da Culturgest para o primeiro trimestre de 2008. No livrinho cor de tijolo, leio que o artista plástico Ricardo Jacinto vai ali ter, na Galeria 1, entre 23 de Fevereiro e 11 de Maio, uma exposição intitulada «Earworm». Não se lê ali nenhuma explicação para o título, mas eu lembro-me de ter lido recentemente a palavra. Foi na página 161 da mais que recomendável obra Uma Paixão Humana — O seu Cérebro e a Música, de Daniel J. Levitin (tradução de Bárbara Pinto Coelho, Editorial Bizâncio, Novembro de 2007). Eis o trecho: «Os mecanismos neuronais que estão envolvidos e são comuns à percepção da música e à memória musical permitem perceber porque certas canções nos ficam coladas à cabeça. Os cientistas chamam-lhe vermes do ouvido, do alemão öhrwurm, ou apenas síndrome da canção que não sai do ouvido. Não existe muito trabalho científico sobre este tema. Sabemos que os músicos têm mais probabilidade do que os não músicos de ser atacados por vermes do ouvido, e que as pessoas com distúrbios obsessivo-compulsivos são normalmente as que mais sofrem de perturbações provocadas por vermes do ouvido — em certos casos, a medicação para os distúrbios obsessivo-compulsivos pode minimizar os efeitos.»


Léxico contrastivo: «quiosqueiro»

Quiosqueiros e lixeiros

«O que os quiosqueiros questionam é o tratamento diferenciado que os quiosques da Barra recebem por parte da companhia. Sandra Ornellas acrescenta que, mesmo durante a semana, fora dos dias em que acontecem as interrupções, o abastecimento de água é fraco» («Racionamento de água no Recreio irrita quiosqueiros», Eduardo Tavares, Jornal do Brasil, 3.1.2008, p. R4). Na designação de profissões, por vezes, em especial nas traduções, esbarramos em obstáculos. Por exemplo, como podemos traduzir a palavra inglesa dustman? No Brasil não hesitariam, até porque os seus dicionários a registam, em usar a palavra «lixeiro». Os espanhóis têm basurero. Mas nós?

Léxico contrastivo: «caucus»

A maior democracia

De facto, é quase como se fosse um brasileirismo. Os jornais usam-no sem o grafar como estrangeirismo, e os dicionários registam-no. É esta maneira descomplexada de lidar com a língua que é invejável nos Brasileiros. «O caucus —­ esta modalidade de eleição prévia —­ é uma criação peculiar que foge do conceito normalmente atribuído a eleições justas. Não é proposto pelo governo, mas pelos diretórios estaduais dos partidos Democrata e Republicano. Os 1.781 pontos em que haverá prévias no Estado são reuniões comunitárias de pequeno porte, nas quais os eleitores se reúnem não só para escolher os candidatos, mas também para debater questões políticas locais. Em lugar de voto secreto, há a troca de idéias em público. Enquanto o caucus republicano é bem simples — ­os eleitores podem sair logo depois de opinar —­ o democrata pode exigir várias horas. Não se prende à regra de um voto por pessoa porque as escolhas têm peso diferente dependendo do nível de participação de um distrito no passado. Empates podem ser resolvidos no cara-ou-coroa ou no sorteio de nomes a partir de papéis colocados em um chapéu» («Obstáculos para o caucus de Iowa», Jodi Kantor (do The New York Times), Jornal do Brasil, 3.1.2008, p. A20).

Arquivo do blogue