Regência de emboscar

Gramática e lógica

      «Continuam envoltas em mistério as razões da agressão de que foi vítima o pároco de Alijó, na noite de consoada, supostamente levada a cabo por um grupo de indivíduos que o emboscou, por volta da meia-noite, na estrada de montanha que liga Sanfins do Douro à vila de Alijó» («Padre agredido em silêncio com medo de represálias», Global, 26.12.2007, p. 8). Um grupo de indivíduos que «o emboscou»? Está certa, esta regência? No contexto, está completamente errada. Tal como foi redigida, a frase significa que os indivíduos embrenharam a vítima, o padre, numa zona de boiças, por exemplo. Ou então que o puseram de emboscada. Ora, o que o texto nos afiança é que apenas o deixaram amarrado a uma árvore. A frase saiu semanticamente embostelada, foi o que foi. Por outro lado, se o agredido não fala, como é que se pode afirmar que o silêncio se deve a medo de represálias? Se não fala, o que se diga sobre as razões é mera especulação.

Comunicação

Imagem: http://www.novabiotics.co.uk/
País de p(o)etas

      Prevendo porventura o adiamento da aprovação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico, e celebrando o facto, os Portugueses desunharam-se a enviar SMS. Bateram-se todos os recordes: perto de mil milhões de mensagens! É obra. Vão aparecer mais escritores, pela certa. Os CTT também já se apressaram a reclamar um recorde impossível de bater pela concorrência: distribuíram 8,5 milhões de cartas e encomendas só na véspera de Natal. Como uma me chegou precisamente nessa data, tendo a acreditar na estatística.

Léxico contrastivo: «cossoco»

Cossoco é naifa

      «Na madrugada de ontem, mais um preso foi morto no Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz. O preso Francisco Bibiano da Silva foi morto a golpes de cossoco (faca artesanal) e golpes de barra de ferro» («Preso é morto a golpes de cossoco», Marcos Cavalcante e Landry Pedrosa, O Povo, 26.12.2007, p. 9). Sim, cossoco, termo da gíria prisional brasileira, é uma arma branca artesanal, feita pelos próprios reclusos.

Tradução: «tannerie»

Curtumes

      Se queremos traduzir a palavra inglesa tannerie, recorrendo a uma riqueza vocabular que estamos habituados a ver elogiada na língua inglesa e ignorada ou desprezada na nossa própria língua, talvez seja melhor esquecer a solução fácil de verter como «oficina ou fábrica de curtumes» e usar, corajosamente, «tanaria» (cujo étimo é o francês tannerie: «établissement où l’on tanne les peaux»). Ou charola. Afinal, ainda que antigo, o termo existe na língua portuguesa. Em relação a curtumes, conheço mais alguns.

Baqueta f. Couro de bezerro ou vitela para calçado.
Barquino m. Pele de cabrito, preparada para conter e transportar água potável.
Cabrim m. Pele de cabra preparada, curtida.
Chagrém m. Couro granuloso, que se prepara ordinariamente com peles de jumento ou de macho.
Charola f. Pequena fábrica de curtumes.
Charoleiro m. Dono de fábrica de curtumes.
Cordovão m. Couro de cabra, curtido e preparado especialmente para calçado.
Correol m. Prov. alent. Fio, corda resistente, formado de finíssimas tiras de couro, cortadas e tecidas em fresco.
Cortim m. Substância extraída das cascas das árvores, que curte o couro; tanino.
Crónico m. Couro cru.
Enfuste m. Preparação com que se entumecem as peles.
Enoque m. Fábrica de curtumes.
Escabela f. Acto de arrancar os pêlos ao couro antes da curtimenta.
Escabelar, escabeleirar ou escabelizar v. Tirar, arrancar os pêlos aos couros durante a curtimenta.
Escarna f. Tecnol. Operação que consiste em escamar as peles dos animais antes do curtimento.
Escouçar v. Tirar às peles a água de cal que se lhes juntou para a escabela.
Espichadeira f. Mulher que, nas fábricas de peles, espicha os couros para secarem.
Fijola f. Tira de cabedal ponteada e que forma bolso em volta de duas peças de couro.
Garra f. Sola ou cabedal ruim, com pêlo.│2. Retalho de couro.
Grosa f. Faca de fio embotado, para descamar peles.
Grosador m. Ferro com que se raspam os couros na surragem.
Humada f. Prov. minh. Aguada de lixo de pombos, empregada na preparação de couros.
Lombeiro m. Couro do lombo de certos animais.
Lonca f. Bras. do S. Couro de que se raspou o pêlo.│m. pl. Tiras fininhas que se tiram do couro pelado e raspado, para fazer trançados.
Magis m. Espécie de couro empregado em sapataria.
Palissão m. Instrumento com que os cortadores abrem e amaciam as peles, depois de cortadas e secas.
Parruá m. Grande bastidor, em que os curtidores colocam as peles para se alisar o carnaz.
Romanadeira f. Instrumento constituído por um pedaço de madeira cuja face inferior é munida de caneluras ou revestida de cortiça e a superior revestida de uma tira de couro, por baixo da qual passa a mão do operário, para dar aos couros aspecto uniforme e agradável, depois de serem surrados.
Sura f. Nome dado a certas peles, ratadas ou incompletas, na indústria de curtumes.
Tafilete m. Marroquino fino que se fabricava em Marrocos.
Tagra f. Cada um dos bocados em que se divide um couro para curtir.
Tanado adj. Que tem aspecto de curtida.
Tanagem f. Acto de curtir, modo de curtir.│2. Curtimenta pelo tanino.
Tanante adj. Próprio para curtir.
Tanar v. O m. q. curtir.
Tanaria f. Ant. Fábrica de curtumes.
Tanoada f. Porção de tinta ou de peles preparada de uma só vez para curtimenta.
Tranquete m. Term. de Alcanena. Tanque pequeno para curtimento.
Vaqueta f. Couro delgado e macio, empregado principalmente em forros.

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Léxico contrastivo: «pleito»

Aqui é eleição

      «O último pleito estava marcado para o dia 22 de novembro, mas foi cancelado depois dos protestos maoístas exigindo que a monarquia fosse abolida imediatamente e que o sistema eleitoral fosse trocado para um sistema de representação plena» («Regime monárquico chega ao fim», Jornal do Brasil, 25.12.2007, p. A18). Os nossos pleitos são todos resolvidos em tribunal. Neste texto, é outra acepção de «pleito» que é usada: escolha de candidato para ocupar cargos públicos, postos ou desempenhar determinadas funções por meio de votação, ou seja, eleição. Pleito tem como étimo o particípio passado do verbo placere, placitum. Placere, de que provém igualmente o nosso «prazer», significa «agradar», «merecer a aprovação». Assim, placitum mantém a acepção de «o que foi aprovado», «o que foi determinado». Dies placitus, em latim, significa «o dia combinado». De placitum temos ainda «plácido» e «prazo».

Léxico contrastivo: «cacimba»

Cacimba é poço

      «Uma brincadeira em uma cacimba terminou com a morte de duas crianças no início da tarde de ontem na rua Almir Lopes, 151, Eusébio. De acordo com informações do sargento Carlos Cristiano, do Corpo de Bombeiros de Horizonte, na Região Metropolitana de Fortaleza, os primos Ezequiel Rodrigues das Neves, 5 anos, e João Vitor Ribeiro da Silva, 4 anos, estavam brincando sobre a tampa da cacimba, feita de um pedaço de portão quando o material acabou caindo no buraco, levando as crianças. O sargento diz que havia pouca chance de as crianças terem sobrevivido ao acidente. “Quando chegamos, não havia mais nada a fazer para salvar as crianças. Não se sabe se elas morreram na queda ou afogadas. A cacimba tem 12 metros de profundidade, mas estava com sete metros d’água”, explica o sargento» («Primos morrem ao cair em cacimba», Marcos Cavalcante, O Povo, 24.12.2007, p. 10). Uma cacimba é um poço cavado no solo para extracção de água. O étimo é o quimbundo kixima.

Entrevista a A. Lobo Antunes

X, o Panóptico

      Na entrevista de ontem a Mário Crespo, no Jornal das 9, na Sic Notícias, António Lobo Antunes confessou ter pena que em Portugal não haja a distinção anglo-saxónica entre publisher e editor. Este, alvitrou, ajudá-lo-ia com conselhos, «corte aqui», «desenvolva ali». A não ser que Lobo Antunes se referisse à distinção meramente semântica, a verdade é que temos publishers (dos quais, de resto, não manifestou esperar nem conforto nem conselhos) e editors — que se reúnem na mesmíssima pessoa. E isso não tem nada de estranho. Quando Lobo Antunes escrevia nas folhas de prescrição médica com o timbre do Hospital Miguel Bombarda (usando para fins privados um bem público — honra nossa…), mesmo durante as horas de serviço e estando de bata, também não seria fácil distinguir quem era o escritor e quem era o médico. É claro que se se referia ao facto de o publisher estar nas Maldivas a apanhar banhos de sol e o editor a compor-lhe a prosa, essa realidade é mais norte-americana. A minha experiência, consideravelmente menos vasta do que a de Lobo Antunes, é a de que a função do editor anglo-saxónico está nos nossos directores e responsáveis editoriais, e, por vezes, nos simples assistentes editoriais. No fundo, trata-se da mesma espécie de ignorância que revelava, há uns meses, um crítico literário com quem conversei, que mostrou não saber, nem sequer aproximadamente, qual o papel de um revisor, ainda que estivesse absolutamente convicto de o saber. A mim, como revisor e tradutor, é-me dado ver o que eles não vêem, e vice-versa. Não há, em relação a nenhuma realidade, observadores panópticos.
      Mário Crespo é inteligente. Começou por exorcizar o mal, afirmando que entrevistar António Lobo Antunes era intimidante. E isto, por vezes, resulta. Como parece ter sido o caso. Com sorrisos, meios sorrisos e silêncios, Mário Crespo soube gerir o tempo, generoso, como sempre devia ser, da entrevista. Mas houve afirmações enigmáticas ou ambíguas de Mário Crespo, como quando disse que ninguém escrevia como Lobo Antunes. Não podia deixar de dizer o mesmo, suponho, e com o mesmo grau de justeza, se o entrevistado fosse José Saramago, Mário Cláudio, José Rentes de Carvalho ou José Luís Peixoto, por exemplo. A quase louvaminha por causa da disposição gráfica da dedicatória de O Meu Nome É Legião, tantas vezes mais fruto da inspiração do paginador do que escolha ponderada do autor, foi caricata. Se a observação tivesse sido feita em relação a outras ousadias formais do autor, de que tem epígonos bastantes, e que a mim, pessoalmente, me não encantam, aí sim, entrávamos no mérito do autor.

«Bola de Berlim»?

Imagem: http://img.olhares.com/
Mitos urbanos

      «Afinal, tudo não passava de um mito urbano. A venda de bolas de Berlim nas praias nunca foi proibida, tal como nunca houve lei alguma que proibisse o bolo-rei de ter brinde» («Bolas de Berlim voltam à praia com ok da ASAE», Ana Kotowicz, Meia Hora, 21.12.2007, p. 6). Se se deve escrever «couve-de-bruxelas» e não «couve de Bruxelas», «folha-de-flandres» e não «folha de Flandres», «água-de-colónia» e não «água de Colónia», «porco-da-índia» e não «porco da Índia», então por que diabo continuamos a escrever «bola de Berlim»? Poucos dicionários registam a locução, mas os que o fazem, como o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é assim que a registam. Seja bola-de-berlim!

Actualização em 23.07.2009

Ora aqui temos bem grafado: «Mas quando viu o senhor que vende bolos na praia, levantou-se num ápice e dirigiu-se a ele: em poucos minutos tinha duas bolas-de-berlim na sua posse» («Norton de Matos não resiste à bola-de-berlim», Rita Bravo, Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 53).

Actualização em 28.07.2009

Era aqui temos mal grafado: «A freguesia, que fez do acontecimento anedota, não trocou as bolas de Berlim com creme pelos recém-chegados muffins de chocolate crocante com sementes de gergelim e espuma de baunilha, pelo que rapidamente se escoou para outras paragens» («Leite entornado», Nuno Pacheco, Público/P2, 27.07.2009, p. 3).

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